Política

PR desafia o continente a vencer o analfabetismo

Cândido Bessa | Abu Dhabi

Num evento com formuladores de políticas de todo o mundo, líderes de vários sectores de actividades, empresários, cientistas e académicos, apenas duas personalidades foram as escolhidas para falar do futuro do continente africano: o Presidente João Lourenço e o seu homólogo Ibra-
him Boubacar Keita.

João Lourenço defende em Abu Dhabi industrialização de África
Fotografia: Santos Pedro | EDIÇÕES NOVEMBRO

Além de falar sobre os respectivos países, os dois Chefes de Estado tiveram a missão de apresentar as oportunidades e os desafios para o con-
tinente no fórum enquadrado na Semana da Sustentabilidade que reúne, até amanhã, em Abu Dhabi, 875 companhias de 175 países e uma possibilidade de financiamentos na ordem dos 15 mil milhões de dólares para projectos sustentáveis em várias partes do mundo.
Entretanto, apenas o Presidente angolano foi ao pódio para falar do futuro do continente para a plateia em que, além das autoridades dos Emirados Árabes Unidos, estava também o ex-Secretario-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon.
João Lourenço lembrou que o continente tem uma das taxas mais altas de natalidade e fecundidade, tem a maior reserva de recursos minerais do mundo, incluído a água, que escasseia em várias partes do mundo e gera disputas entre Estados. Apesar dos recursos, é o continente menos desenvolvido do ponto de vista económico e com menos capacidade de satisfazer as capacidades básicas da população.
João Lourenço falou também do êxodo massivo que se assiste de africanos para a Europa e outras paragens, em busca de melhores condições de vida, oportunidades de emprego e superação da vida. Um sonho que, segundo o Presidente, não se realiza e cria um sentimento de frustração e revolta. “Em que falhamos?”, interrogou-se o Presidente da República, ante a plateia que seguia o discurso com atenção redobrada. “O que nos falta para traçarmos os caminhos para um futuro promissor para África?”, continuou o estadista.
“África precisa vencer três grandes desafios, para poder desenvolver-se, indicou o Presidente: acabar com o analfabetismo, electrificar-se e industrializar-se. Precisamos alterar o estado das coisas”, disse.
João Lourenço recordou que ao longo do tempo o continente está a perder os seus melhores quadros formados nas universidades dos países mais desenvolvidos. Esses talentos, disse, são aliciados por estes países para ficarem e desenvolver as suas economias. Além disso, indicou o Presidente, o continente continua a perder os seus recursos minerais, que saem exportados em bruto, sem criar na origem valor acrescentado ou postos de trabalho qualificados.
“Temos de alterar o sentido das coisas”, disse o Presidente, para acrescentar: “os quadros superiores, os cientistas e investigadores, as valorosas peças de arte, a matéria-prima em estado bruto e até fortunas pessoais que deviam servir as nossas economias continuam a sair de África para o resto do mundo em condições desfavoráveis”. A solução para o continente, segundo João Lourenço, está  em atrair para África o que há de melhor no mundo, como o conhecimento, os avanços da ciência e da tecnologia, o capital, o investimento privado para transformar localmente as matérias-primas. “Precisamos industrializar o nosso continente” disse João Lourenço, sublinhando que só assim é possível criar riqueza e bem-estar para os cidadãos e emprego como principal fonte para todas as oportunidades.
“Vejo o futuro de África com optimismo”, disse o Chefe de Estado, sublinhando que outros continentes, como a Ásia, conseguiu dar o salto em menos de meio século e passou de importador para exportador de produtos de alta qualidade para o mercado internacional, competindo com os países do “primeiro mundo”.

O futuro está em África
O optimismo do Presidente angolano coincidiu com o do moderador do Fórum, Richard Attias, que apresentou alguns números para mostrar a importância e as oportunidades que África apresenta ao mundo e repúdiou a ideia generalizada no mundo de que o continente é apenas um país perdido.
O marroquino, que é co-fundador da Global Clinton Initiative, da Nobel Laureates Conference e, de 1995 a 2008, foi o produtor executivo do Fórum de Davos, indicou que, com 1,3 mil milhões de habitantes divididos em 54 países, África tem mais de 60 por cento da sua população com menos de 25 anos, tem as seis das 10 economias em mais rápido crescimento, produz oito milhões de barris de petróleo por dia e tem mais de 450 milhões de telefones móveis activos, apenas na África Subsaariana. “O futuro está em África”.

Um caso de sucesso
Como exemplos que os africanos devem ter em conta, o Presidente angolano citou os Emirados Árabes Unidos, para mostrar a boa utilização das receitas do petróleo para a diversificação da economia. Sexto maior exportador de petróleo do mundo, os Emirados Árabes Unidos possuem uma das mais desenvolvidas economias do Médio Oriente.
Devido a riqueza do petróleo, todos os serviços sociais, como educação, saúde e transporte são gratuitos para toda a população. “África vai se desenvolver”, disse João Lourenço, sublinhando um desenvolvimento sustentado, que respeite e preserve a natureza ainda quase virgem em alguns países, além de manter a fauna e a flora preservadas e os rios protegidos da poluição.

Chefe de Estado em Luanda
O Presidente da República, João Lourenço, regressou na noite de ontem ao país.
À sua chegada, no Aeroporto 4 de Fevereiro, o Chefe de Estado angolano recebeu cumprimentos de boas-vindas do vice-Presidente da República, Bornito de Sousa, do governador de Luanda, Sérgio Luther Rescova, de auxiliares do Poder Executivo e de altos funcionários do seu gabinete.

  “Acreditem no presente e no futuro de Angola”

Senhor Presidente, o seu lema é “corrigir o que está mal e melhorar o que está bem”. Faz-me recordar um lema do Presidente Clinton, que dizia que “Não há coisa tão mal na América que não pode ser corrigida, pelo que está bom na América. O que é que está mal e que Angola precisa de focar para um futuro melhor?

Vou referir-me, apenas, a duas ou três questões, que penso serem más. De resto é bom. Que é mau, é em primeiro lugar, a forma como a classe política ou pelo menos parte dela, encarava a forma de lidar com o erário, com os bens públicos, por arrasto acabava por afectar também, uma parte da nossa sociedade. Estou a referir-me à corrupção e o que segue atrás da corrupção, que é a impunidade reinante na nossa sociedade durante algum tempo. Este é, não diria o maior mal, mas um dos maiores males que a nossa sociedade vivia, e  precisamos de corrigir. E, estamos a fazê-lo. O trabalho está a ser feito com bastante determinação e num período de tempo muito curto, estamos a ver os seus resultados. Outro mal da nossa sociedade, é a forte dependência da nossa economia, num único produto de exportação. Estou a referir-me ao petróleo. Esta, é uma situação que urge corrigir. Como disse no meu discurso de abertura, passar a utilizar mais os recursos do petróleo e investir na diversificação da nossa economia. Atrair mais o investimento privado nacional ou estrangeiro, e investir em outros ramos da nossa economia, que não seja o petróleo. O terceiro maior, é a presença excessiva do Estado na nossa economia. Daí, estarmos a trabalhar na melhoria do ambiente de negócios, para fazer com que o sector privado da economia (nacional e estrangeiro) assuma o verdadeiro lugar e comande a economia.

Como a tecnologia pode mudar o futuro de Angola? Falou da educação e da imperiosa necessidade de manter os quadros bem formados, os talentos no país e em África. O Presidente Keita mencionou também, a necessidade de investir nas pessoas para que a transformação possa ocorrer no continente. Como a tecnologia pode assegurar a melhorar o futuro?

Acabamos de assinar um memorando de entendimento com os Emirados Árabes Unidos, para a implementação de centros de investigação e produção, na área da agricultura. Isso, indica a importância que o nosso país dá à agricultura. A tecnologia é importante, porque aumenta a produtividade. Como disse, na minha intervenção, o nosso continente (por essa razão o nosso país, que é africano) tem necessidade de se industrializar e não há indústria sem tecnologias. De preferência novas tecnologias, quanto mais modernas forem, melhor, porque acabam por mais rapidamente garantir uma maior oferta de bens e serviços, necessários ao bem-estar das populações e exportação para o resto do mundo. Portanto, as tecnologias são uma ferramenta que vieram para modernizar as nossas economias, modernizá-las e torná-las cada vez mais competitivas.

Uma última pergunta e que vou pedir uma resposta breve. Estamos aqui, em Abu Dhabi,  diante de uma plateia diversificada. O que diria a esta audiência para motivá-las mais, para investirem ou fazer negócios com o seu país?

O que tenho a dizer aos investidores presentes, dos Emirados Árabes Unidos e não só, é que Angola é um país de grandes oportunidades. Um país que, num curto espaço de tempo, conseguiu criar um ambiente de negócios que é favorável ao investimento. Portanto, apostem no investimento em Angola que sairão a ganhar. Convidámos todos aqueles que estão interessados em investir, não importa em que sector da economia, não importa em que domínios, na exploração mineira, no turismo, na agricultura ou em qualquer outro tipo de indústrias. Acreditem no presente e no futuro de Angola.

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