Política

Rebelião na RDC engrossa o terror

Cândido Bessa

Os Chefes de Estado e de Governo da Região dos Grandes Lagos estão preocupados com o facto de algumas forças rebeldes, que actuam em algumas regiões da RDC, estarem a transformar-se em verdadeiras organizações terroristas e pediram a união de esforços e a aplicação das recomendações para travar o fenómeno que pode ter consequências desastrosas para os países.

Ministro das Relações Exteriores, Manuel Augusto, fez o balanço da Cimeira de Chefes de Estado e de Governo dos Grandes Lagos realizada em Brazzaville
Fotografia: Francisco Bernardo | Edições Novembro

De acordo com uma informação transmitida aos Chefes de Estado na reunião do Mecanismo Quadro para a Paz na RDC, nota-se já uma aliança com organizações como o Boko Haram e Alshabab,  como está a acontecer com a ADF (Aliados da Frente Democrática) que actua na fronteira entre a RDC e o Uganda.
A organização Aliados da Frente Democrática está activa desde 1996, altura em que iniciou acções armadas no distrito de Kasese, no oeste do Uganda, tendo depois expandido as campanhas a várias zonas junto à fronteira com a RDC.
“O quadro que nos foi apresentado pelos governos da região, pelos responsáveis da Monusco e pelo enviado especial do Secretário-Geral das Nações Unidas obriga que os Chefes de Estado se debrucem com maior atenção à transformação de movimentos rebeldes em organizações terroristas”, explicou o ministro das Relações Exteriores, Manuel Augusto, ao fazer o balanço da reunião e da primeira participação do Presidente João Lourenço na cimeira na condição de Chefe de Estado.
A Reunião do Mecanismo Quadro para a paz na República Democrática do Congo (RDC) reuniu os  Chefes de Estado e de Governo presentes na cimeira e a comunidade internacional, liderada pelas Nações Unidas. A reunião serviu para discutir mais ao detalhe as situações de conflito militar e as suas consequências humanitárias. O foco foi a situação na República Democrática do Congo.

Pouco dinheiro
 A reunião as Nações Unidas informaram que vão reduzir o dinheiro para acudir às situações de manutenção de paz na região. Das 15 missões de paz em todo o mundo, oito estão em África e cinco na Região dos Grandes Lagos. A maior missão de manutenção de paz no mundo está na RDC, a Monusco, com um efectivo de 21.607 elementos. A missão no Darfur/Sudão (Unamid) tem 18.956 elementos e a (Unmiss), no Sudão do Sul, conta com 16.987 elementos.A Monusco foi criada em 1999 com o objectivo de combater o grupo Aliados da Frente Democrática, uma das organizações armadas que continuam a activas na RDC, após o desarmamento de 2014 do grupo M23, que chegou a controlar uma parte da RDC.
O ministro das Relações Exteriores afirmou que o anúncio da redução de verbas é mais uma preocupação dos Chefes de Estado, que apelaram, por isso, para o cumprimento das contribuições dos Estados membros para fazer face aos problemas existentes.

Cimeira positiva
O ministro das Relações Exteriores afirmou que a cimeira de Brazzaville marcou uma abordagem mais evoluída na procura de soluções dos problemas que estão na origem da actual situação de instabilidade. Os Grandes Lagos são a região com mais recursos no continente, com uma posição geostratégica importante.
Manuel Augusto afirmou que alguns conflitos que assolam a região ainda não estão resolvidos e outros emergiram de forma abrupta e ganham dimensões preocupantes, como o caso do Sul do Sudão, recentemente independente é que está mergulhado num conflito interno é que tem como consequências uma grave crise humanitária que está já a ter reflexos nos países vizinhos.
Os Grandes Lagos são a região com mais recursos no continente, Durante os dois mandatos à frente da Conferência Intenacional sobre a Região dos Grandes Lagos Angola, ainda sob a liderança do Presidente José Eduardo dos Santos, esforçou-se em levar a organização para o seu principal objectivo: a obtenção da paz e da estabilidade como premissas para o desenvolvimento económico e social. “Foi um bom palco para que a nova liderança do Estado angolano pudesse reafirmar, como o fez, o seu engajamento na resolução dos problemas da região”, disse o ministro, destacando a grande satisfação e optimismo manifestado pelos sete Chefes de Estado presentes e outras grandes entidades regionais e de Estados membros sobre a liderança do Presidente João Lourenço, já que, apesar de ter passado a presidência da organização é o vice-presidente da troika, órgão que vai acompanhar a evolução dos programas e propor soluções.
Enquanto elemento da troika, Angola pretende transmitir a sua experiência na condução dos trabalhos e também no domínio dos assuntos nos dois anos de mandato da República do Congo.
Sob a presidência angolana, a Conferência Internacional sobre a Região dos Grandes Lagos, com o apoio das Nações Unidas e as Forças Armadas da RDC  conseguiu desmantelar o movimento M23, que controlava uma boa parte da região.

Cooperação com a RDC
Angola e a RDC pretendem que as relações bilaterais, doravante, sejam mais focadas na vertente económica e de cooperação, principalmente no comércio transfronteiriço. Este foi um dos aspectos discutidos entre o Presidente João Lourenço e o seu homólogo Joseph Kabila, da RDC, após a cimeira dos Chefes de Estado e de Governo da Conferência Internacional sobre a Região dos Grandes Lagos, que decorreu na quinta-feira, em Brazzaville.
O comércio transfronteiriço já se faz de forma informal entre os dois países. O objectivo agora é estabelecer o devido enquadramento para que os dois países possam beneficiar plenamente do intercâmbio entre povos irmãos.
O encontro serviu ainda para o Chefe de Estado angolano agradecer ao líder da República Democrática do Congo a sua presença em Luanda, durante a sua investidura como Presidente da República de Angola, além de abordar  a amizade e a cooperação entre os dois países.
O Presidente da República sublinhou, igualmente, a preocupação com que Angola acompanha a situação na RDC, principalmente o atraso na aplicação do acordo de 31 de Dezembro (conhecido como Acordo de São Silvestre) que vai levar a RDC à realização das eleições.

  Trabalho de Angola durante o mandato de quatro anos

Durante estes últimos quatro anos, segundo João Lourenço, Angola desenvolveu uma diplomacia actuante e inclusiva para se ultrapassar as várias situações de conflitos, como na República Democrática do Congo (RDC), República Centro Africana (RCA), Burundi e do Sudão do Sul.
Na RDC, foi feito ‘um grande trabalho’ para se tentar pôr fim à presença de forças negativas que fomentavam o caos no leste do país, com realce para as Forças Democráticas de Libertação do Rwanda (FDLR) e para o desmantelamento das milícias congolesas M-23.
Na República Centro Africana (RCA), conseguiu-se fazer uma transição política exemplar, graças à liderança moderadora de Catherine Samba-Panza, que culminou com a eleição de Faustin Touadéra como Chefe de Estado.
Já para o Burundi, conseguiu estabelecer-se um diálogo inclusivo entre o Governo e todas as forças vivas da sociedade, para se ultrapassar a crise pós-eleitoral, derivada da interpretação da Constituição do país sobre os mandatos presidenciais.
O Sudão do Sul, que se mantém estacionária e onde a organização tem desenvolvido vários esforços para que haja um entendimento entre o Governo central e as forças que o contestam.
Angola esforçou-se por acolher, no espírito das relações de amizade e boa vizinhança e superando mesmo as suas possibilidades, decorrentes da crise económica e financeira internacional, milhares de refugiados congoleses fugidos de uma guerra desnecessária e cruel, esforço esse que mereceu o reconhecimento das instâncias internacionais.

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