Política

Rússia e África arquitectam novos rumos da cooperação

Cândido Bessa e Isaac Lourenço/Sochi

Chefes de Estado e de Governo africanos e líderes das maiores associações e organizações globais discutem hoje e amanhã, em Sochi, com as autoridades russas o rumo da cooperação futura entre o continente e a Rússia.

Fotografia: DR

Para a Cimeira Rússia-África, o primeiro evento desse nível na história das relações russo-africanas, o Presidente russo, Vladmir Putin, convidou os líderes de todos os países do continente africano, para discutir as perspectivas das relações, o desenvolvimento da cooperação nos domínios político, económico, humanitário, cultural e procurar formas de desenvolvimento acelerado de todo o conjunto da cooperação russo-africana.

Durante estes dois dias, estão previstas trocas de opiniões aprofundadas sobre a elaboração de medidas acordadas para combater o terrorismo, a criminalidade trans- fronteiriça, outros desafios e ameaças à segurança regional e global.
Em simultâneo, decorre, no mesmo espaço, na Vila Olímpica de Sochi, o Fórum Económico Rússia-África, com a presença dos Chefes de Estado, representantes de empresas e entidades governamentais russas, africanas e internacionais, bem como representantes de associações de integração do continente africano.
As autoridades esperam que o Fórum seja um passo estratégico para a criação de condições para o desenvolvimento das relações económicas e comerciais, além de permitir diversificar as formas e áreas da coope-ração russo-africana. Com base nos resultados do Fórum, espera-se a assinatura de acordos nos domínios do Comércio, Economia e Investimento.
Mais de 200 líderes empresariais, ministros das principais indústrias, mais de três mil representantes de companhias africanas, além de representantes de comunidades de especialistas da Rússia e do continente africano vão participar nos eventos, em Sochi. O programa de negócios do Fórum está dividido em três assuntos temáticos: “Desenvolvimento das relações económicas”, “Lançamento de projectos conjuntos” e “Cooperação nas esferas humanitária e social”.
O evento central do Fórum será a reunião plenária “Rússia-África: Desdobramento do Potencial de Cooperação”, presidida pelo Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e pelo Presidente do Egipto, Abdel Fattah al-Sisi.
Nas sessões dedicadas ao programa de negócios, os palestrantes vão debater os problemas chave com que as principais indústrias se deparam no processo de desenvolvimento da cooperação entre países, bem como questões gerais de desenvolvimento humanitário e social que afectam o nível da Educação, Saúde e a qualidade de vida das pessoas.
Exposição
No âmbito do Fórum Económico Rússia-África, decorre uma exposição com a participação dos parceiros e vários expositores. O evento será uma plataforma para demonstrar os êxitos e as potencialidades nas áreas da Economia, Ciência, Cultura e Protecção do Ambiente.
Projectos e tecnologias avançadas nas indústrias de mineração, química e construção de máquinas vão estar em exposição além das novidades no sector de Energia, Agricultura, Transportes, Saúde, Indústria Militar e outras áreas de interesse para os investidores e para o desenvolvimento do potencial de exportação da Rússia e dos países africanos.

Recursos mineiros
Um dos destaques do Fórum vai para a sessão “Cooperação entre a Rússia e África na indústria diamantífera”, na qual vai participar, por Angola, o ministro dos Recursos Minerais e Petróleos, Diamantino Azevedo. Sob o lema “Criando projectos conjuntos”, especialistas russos e africanos vão discutir tendências e problemas actuais no sector de mineração de diamantes. Como maior produtor de diamantes do mundo, a Rússia quer transmitir a experiência em tecnologia, organização da produção, gestão corporativa e financeira.
Os organizadores acreditam que a união dos esforços e competências vai permitir à indústria reduzir riscos e aumentar a segurança financeira. Já que mais de 47 por cento das reservas mundiais de diamantes estão concentradas em África, existem, segundo os organizadores do fórum, largas perspectivas de cooperação no campo do marketing, organização, além de melhorar o quadro regulatório para facilitar o trabalho conjunto.
A sessão será realizada com o apoio da ALROSA, que opera em Angola.
Os participantes do Fórum Económico Rússia-África vão, igualmente, discutir as oportunidades de cooperação na utilização dos recursos minerais, na sessão “Geologia Russa em África: Património e um Olhar para o Futuro”. A sessão decorre amanhã e tem, igualmente, participação, do ministro Diamantino Azevedo.
Os representantes africanos vão expor as riquezas do continente, que detém o primeiro lugar no mundo em reservas de manganês, cromita, bauxita, ouro, platina, cobalto, diamantes, fosforitas, além de importantes depósitos de petróleo, gás natural, grafite e amianto.

Angola quer tirar melhor proveito da parceria com o gigante russo

Num evento virado para apresentação de oportunidades de negócios em África e no estabelecimento de parcerias para o desenvolvimento, o Presidente João Lourenço intervém hoje, em Sochi, na sessão reservada às alocuções dos líderes convidados a esta Cimeira Rússia-África.
Chegado ontem à Sochi, o Chefe de Estado angolano tem previstas audiências a figuras influentes do universo político, social e económico da Rússia, entre dirigentes de bancos, empresas industriais e agrícolas e produtoras de minérios preciosos como os diamantes.
Um dos pontos altos da estadia aqui em Sochi é o encontro formal com o Presidente da Federação da Rússia, Vladimir Putin, para avaliação do estado das relações bilaterais e considerações sobre temas contemporâneos.
Seguem-se assinatura de acordos bilaterais em diversos domínios, como o da formação de quadros e a implementação de uma indústria de fertilizantes em Angola.
A delegação presidencial integra os ministros da Economia e Planeamento, Relações Exteriores, Agricultura e Florestas, Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação e dos Recursos Minerais e Petróleos.

Duas viagens em sete meses
João Lourenço está em Sochi pouco mais de sete meses após a primeira visita oficial a Rússia como Chefe de Estado angolano, ocorrido em Abril. Na altura, recebeu do homólogo Vladmir Putin o convite para estar presente na Cimeira que hoje tem lugar nesta que é considerada uma das cidades mais modernas da Rússia.
Após o encontro oficial, no Palácio do Kremlin, residência oficial do Chefe de Estado russo, os dois Presidentes testemunharam a assinatura de quatro acordos, dois memorandos de entendimento e um protocolo de cooperação, para reforçar as relações bilaterais cimentadas no Tratado de Amizade e Cooperação entre os dois países, rubricado em 1976, há 43 anos.
Os sete instrumentos jurídicos marcam a nova fase de relacionamento entre os dois países.
Assim, foi assinado o Protocolo de Cooperação no domínio da Justiça e dos Direitos Humanos, com objectivo de reforçar o intercâmbio entre ambos departamentos ministeriais neste domínio; um acordo no ramo das Pescas e da Aquicultura, para promover e reforçar a cooperação entre ambos ministérios, e outro sobre reconhecimento recíproco de habilitações literárias, qualificações e graus académicos. Neste caso, o objectivo é promover acções de cooperação na área do Conhecimento.
Outros dois acordos têm a ver com a cooperação no campo da exploração e utilização do espaço para fins pacíficos, através da troca de experiências e conhecimentos, e o outro sobre intercâmbio na área dos Diamantes. Igualmente foi rubricado o memorando de entendimento sobre a cooperação entre o Instituto Geológico Mineiro de Angola e a Rosgeologia da Rússia, para a promoção e a cooperação entre as duas instituições no domínio dos estudos geológicos, além do intercâmbio e identificação de projectos para a realização comum.
O segundo memorando de entendimento foi assinado entre a Endiama e Alrosa, a multinacional russa que já anunciou investimentos de 200 milhões de dólares para Angola. O documento tem o objectivo de manter a actividades geológicas e minerais.

“Empresas estão prontas para oferecer tecnologias”

“As empresas russas estão prontas para oferecer aos parceiros africanos os seus avanços científicos e tecnológicos, a experiência de modernização da infra-estrutura de energia, transportes e comunicação”. É com este compromisso que o Presidente Vladmir Putin se dirige, numa mensagem, aos participantes deste primeiro Fórum Económico Rússia-África, que decorre à margem da Cimeira.
Em alusão aos dois eventos, que considera o maior acontecimento na história das relações entre a Rússia e África, o Presidente Vladmir Putin destaca o desenvolvimento da cooperação entre os países e à experiência positiva no desenvolvimento dos projectos conjuntos.
“As relações entre a Rússia e África, que têm um carácter tradicionalmente amigáveis, de parceria, nos últimos anos intensificaram-se notavelmente a nível bilateral e em diversos formatos multilaterais”, afirma, para acrescentar: “Conseguimos não só manter a experiência de cooperação frutuosa acumulada no passado, mas também obter novos sucessos significativos”.
O Presidente russo sublinha que os indicadores de trocas comerciais e fluxos de investimentos demonstram “uma boa dinâmica”. “Projectos conjuntos estão a ser implementados nas áreas como a Indústria Mineira, Agropecuária, Saúde e Educação”.
Vladimir Putin também exprimiu a confiança de que o Fórum se tornará numa plataforma única para discussão e adopção de decisões construtivas, visando reforçar a cooperação: “Espero que durante o Fórum sejam delineadas novas vertentes e formas de cooperação, e sejam apresentadas iniciativas conjuntas de longo alcance para elevar a interacção entre a Rússia e África a um nível qualitativamente novo em prol do desenvolvimento das nossas economias e do bem-estar dos nossos povos.”
De acordo com o Serviço Aduaneiro Federal, o volume de negócios da Rússia e a África aumentou 17 por cento, em 2018, em relação a 2017, totalizando 20,4 mil milhões de dólares. Deste valor, a Rússia exportou mercadorias no valor de 17,5 mil milhões.

Aproveitar o potencial para atingir o progresso

O Presidente do Egipto e da União Africana, Abdel Fattah Al-Sisi, que com o homólogo Vladimir Putin é co-presidente da Cimeira Rússia-África, sublinhou que os países africanos têm um enorme “potencial e oportunidades que, com a optimização, lhes permitirão tornar-se numa das potências económicas emergentes”.
Na última década, indicou o líder egípcio, África conseguiu avanços no crescimento económico, que chegou a 3,55 por cento, em 2018. “Na Cimeira da União Africana no Níger, em Julho de 2019, entrou em vigor o Acordo Continental Africano de Livre Comércio, incluindo o lançamento de respectivas ferramentas”, lembrou o Al-Sissi, sublinhando que os êxitos abrem amplas perspectivas de cooperação e confirmam a determinação dos Governos africanos de cooperar com diversos parceiros, a fim de estabelecer relações mutuamente vantajosas.
“Os países africanos e a Rússia têm uma posição comum nas actividades internacionais, baseadas nos princípios do respeito pelo Direito Internacional, igualdade, não interferência nos assuntos internos dos Estados, solução pacífica de controvérsias e confirmação da fidelidade a acções multilaterais, de acordo com a visão semelhante que os dois lados têm para enfrentar os novos desafios globais,” disse Abdel Fattah Al-Sisi, numa mensagem, na qual diz esperar que a Cimeira “contribua para o estabelecimento de relações estratégicas construtivas, baseadas na cooperação entre as duas partes em várias esferas, o que ajudará a realizar as esperanças e aspirações dos povos africanos e do povo amigo russo”.

 

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