Política

Rússia reconhece insucesso do Angosat-1

Edivaldo Cristóvão

A Rússia pediu ontem desculpas pelos transtornos causados com as falhas técnicas verificadas desde o lançamento do satélite angolano Angosat-1, em 2017. O chefe da delegação daquele país, Frolov Petrovich, assumiu o erro por parte da empresa russa e agradeceu a Angola pela oportunidade dada para o corrigir.

Um pormenor da conferência de imprensa de ontem com as delegações angolana e russa
Fotografia: Paulo Mulaza|Edições Novembro

Frolov Petrovich falava em conferência de imprensa realizada nas instalações do Instituto Nacional Angolano das Comunicações (INACOM), onde as partes angolana e russa esclareceram sobre o “estado de saúde” do Angosat-1 e assinaram um acordo para a construção do Angosat-2 a partir de hoje, com previsão de lançamento em 2020, sem qualquer custo para Angola.
O acordo prevê também que a Rússia passa a disponibilizar sinal de satélite gratuito até ao lançamento do Angosat-2, como forma de compensação pelos transtornos causados.
Segundo o representante da Rússia, a questão do An-gosat-1 não é encarada apenas como um negócio, mas como uma forma de fortalecer as relações existentes entre os dois países. “Temos uma história muito antiga, por isso agradecemos a compreensão do Governo angolano por conseguirmos encontrar soluções e dar oportunidade de corrigirmos o erro”, disse.
O primeiro satélite angolano Angosat-1 foi levado à órbita pelo foguete Zenit e lançado do cosmódromo Baikonur, no Cazaquistão, a 27 de Dezembro do ano passado. Depois de oito minutos de voo, o foguete separou-se do bloco acelerador Fregat, que posicionou o satélite na órbita terrestre, como planeado. Dias depois, a indústria espacial comunicou a perda de contacto com o sa-télite angolano, que foi construído pelo consórcio russo liderado pela corporação RKK Energia.
O responsável pela construção do Angosat-1, Igor Frolov, explicou que o trabalho teve início em 2006 e até à altura do lançamento, em 2017, a especificação do aparelho não estava ajustada à realidade actual. Neste momento, disse, foi criada uma comissão para avaliar as razões específicas da falta de comunicação, que serão apresentadas até 15 de Maio. “O Angosat-1 teve muitos períodos de falta de comunicação entre os centros de controlo da Rússia e de An-gola, desde o dia 30 de Ja-neiro. O trabalho de restau-
ração tem sido feito, mas sem sucesso, por falta de comunicação. As operações com o satélite foram suspensas para não pôr em risco outros aparelhos que se encontram em fase geostacionária. Até ao momento não tivemos resultados positivos, mas vamos esperar pelo traba-lho até ao dia 15 de Maio”, esclareceu o construtor do Angosat-1.
Caso a comunicação com o satélite seja restabelecida, esclareceu o responsável russo, vai depender de Angola se continua com o Angosat-1, respeitando o que está estabelecido no contrato. Se Angola optar em ficar com o Angosat-2, frisou, o primeiro poderá ser utilizado para acções de formação e outros testes.
Sem precisar montantes, o engenheiro russo afirmou que os custos do Angosat-2 serão superiores ao do Angosat-1, com um tempo de vida útil de 18 anos. “Nunca tivemos problemas desta natureza com satélites porque em terra, antes, é possível prever as anomalias que de imediato são resolvidas. O único caso que tivemos nesta empresa foi há 45 anos, que envolveu a morte de três astronautas. Neste momento só a Rússia e a China fazem lançamentos de satélites”, disse Igor Frolov.
Nas considerações finais, o ministro das Telecomunicações e Tecnologias de In-formação, José Carvalho da Rocha, afirmou que as compensações a serem feitas pela Rússia com o sinal do satélite vão permanecer até ao lançamento do Angosat-2 e tudo que se previa fazer com o Angosat-1 neste período será feito.
José Carvalho da Rocha disse que a parte angolana cumpriu com tudo o que es-tava previsto. Acrescentou que estas situações acontecem. “Um dos nossos grandes desafios foi construir as infra-estruturas que vão suportar as comunicações electrónicas, com objectivo de apoiar o desenvolvimento social do país. Com isso, vamos continuar a expandir o sinal da rádio, televisão e outros serviços, como o do Bilhete de Identidade, programas de Internet nas escolas, pontos públicos e apoiar o Ministério da Educação no programa de telemedicina”.
O primeiro satélite angolano foi construído para ga-rantir a comunicação e trans-
missão de televisão por todo o continente africano. Para as vendas do satélite, estavam reservados já 40 por cento para as operadoras, 10 por cento para os serviços de se-gurança e defesa nacionais e outros 10 por cento para acções sociais (como sectores da Educação e Saúde e pequenos negócios).

Incidentes com satélites

Em Dezembro de 1998, a NASA lançou uma sonda rumo a Marte, para estudar o clima e a atmosfera. A 23 de Setembro de 1999, a sonda chegou a Marte em órbita mais baixa do que o planificado, o que provocou o seu incêndio e destruição total, com prejuízo de 125 milhões para a NASA.
Um caso muito mediatizado foi o do Challenger, o segundo comboio espacial da NASA. Em 1986, o Challenger sofreu o primeiro acidente, no programa com comboios espaciais. No dia 28 de Janeiro desse ano, 73 segundos após o lançamento, iniciando a missão STS-51-L, a nave explodiu no ar, matando os sete tripulantes. O acidente paralisou as missões dos comboios espaciais por meses. A investigação apontou falhas numa  anilha.
A Coreia do Sul fez o seu primeiro lançamento de fo-guete, o Naro-1, em 2009. Os motores funcionaram bem, mas a carga, ao ser lançada em órbita, não se separou do foguete, que foi arrastado para baixo.  O satélite , avaliado em 400 milhões de dólares, desintegrou-se.
O Express-AM4 russo não explodiu no lançamento, nem incendiou na atmosfera, mas o satélite de telecomunicações avançadas simplesmente desapareceu sem deixar rasto. Lançado em Agosto de 2011, o satélite separou-se do veículo propulsor e desapareceu dos sistemas de radar. Seria posteriormente localizado muito distante da sua órbita original, pelo que não poderia cumprir o papel para o qual foi enviado ao espaço.
No dia 29 de Março último, a Organização Indiana de Pesquisa Espacial lançou o GSAT-6A, o maior satélite de comu-
nicações já fabricado pelo país.  Contudo, de acordo com informações do jornal Times of India, os pesquisadores perderam contacto com o equipamento na tarde do primeiro dia deste mês, apenas quatro minutos após uma manobra programada. O satélite foi lançado através do foguete GSLV-FO8, que era considerado uma importante conquista científica para o programa espacial da Índia.
 Não foi a primeira vez que a organização falha em colocar uma carga em órbita. Em Setembro de 2017, o lançador PSLV-C39, que levava o satélite IIRNSS-IH ao es-paço, apresentou problemas no seu escudo de calor e não conseguiu realizar o lançamento. Nesse episódio, o dispositivo acabou perdido para sempre.

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