Política

Salvo pela convalescença

Rosalina Mateta

“Estou vivo, a dar esta entrevista, porque estava em casa, em convalescença. Tinha saído do quartel no dia 22. Mesmo assim, foram à minha casa, a uma da madrugada. Bateram insistentemente à porta.

Miguel Francisco diz que não tem rancor de ninguém
Fotografia: Edições Novembro

As pessoas que eu vi eram mestiças. Isto tem que se dizer, entendam como quiserem. Isto não tem nada a ver com o racismo. Eles, só não me tiraram de casa, porque acredito, como sabiam que eu era um jovem militar, então tiveram medo que eu tivesse uma arma e pudesse reagir. Não estive em coisa alguma. Eu era militar, não participei em nada, fui à Rádio, porque quando acordei ouvi o “ Kudibanguela”. Pensei: este programa já foi proibido, está de novo no ar? Então abro a persiana da janela, eu moro no Largo 1º de Maio, e do meu andar, onde tenho uma vista privilegiada, vi muita movimentação de carros, pessoas e fui até lá. Fiquei se tanto até as 10h da manhã e regressei a casa, porque não estava bem de saúde.
Mesmo depois de sair da cadeia traumatizado, contrariamente aos outros, fiz um esforço, lutei e formei-me. Vivo do meu salário. Já fiz a minha catarse com os livros que escrevi.
Não tenho rancor de ninguém. Mas, pelo que se passou, para o bem do país e para uma verdadeira reconciliação, esta questão do 27 de Maio tem que ser tratada separadamente, até porque o Governo, através do ministro da Justiça, já assumiu que houve atropelos aos Direitos Humanos. As violações contra os Direitos Humanos não prescrevem. Nunca pedi o julgamento de quem quer que fosse, mas o que tenho estado a reclamar e a pedir é que se crie uma comissão para que se descubra a verdade.
Descobrir a verdade é discutir o que esteve na base do 27. Agora, não podemos ver pessoas implicadas nisto, a gente conhece-as, a representar o MPLA, muitos são dirigentes, embaixadores. Isto é bonito? Só em Angola é que acontece… Isto dói àqueles que foram vítimas de uma situação tão repugnante. Para que as pessoas fiquem bem, é preciso que estas pessoas venham a público e assumam as responsabilidades. Não podemos minimizar com generalizações. Não vamos conseguir fazer nada. Ninguém é contra ninguém.
Temos de reconhecer, este processo do 27 de Maio tem de ser discutido publicamente. Só a verdade é que vai purificar as almas para haver a tal reconciliação interna. Sem a verdade, poderão adiar isto por muito mais tempo, mas ela virá um dia ao de cima. Há muitas feridas, muitas mentes recalcadas. Há certidões para passar, há que se explicar bem às pessoas, aos órfãos. Tem de se chamar as pessoas, fique mal quem ficar”.

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