Política

Trabalhar os campos para honrar Cassanje

Fula Martins |

As autoridades tradicionais da Baixa de Cassanje apelam ao Executivo para fazer maior divulgação da revolta registada naquela região, para que as pessoas tenham em mente a real dimensão do que aconteceu a 4 de Janeiro de 1961.

Soberano considera que a atribuição de pensões de reforma aos sobreviventes deve ser extensiva a outros angolanos com participação directa no acto
Fotografia: João Gomes | Edições Novembro

Falando ao Jornal de An­gola, o Rei da Baixa de Cassanje, Dianhenga Aspirante Cambamba Nginge Kulaxingo, disse que a data deve ser mais exaltada por ser histórica, porque foi o dia que despertou a consciência patriótica e a unidade dos angolanos em prol da liberdade.
“Em cada região do país registaram-se revoltas contra a repressão colonial, em solidariedade com os camponeses da Baixa de Cassanje”, disse Cambamba Nginge Kulaxingo, acrescentando que a opressão colonial uniu o povo angolano e a região da Baixa de Cassanje deu início à revolta nacional.
“Não morreram apenas povos da Baixa de Cassanje, morreram outros povos de­vido a esse acontecimento”, sublinhou.
O Rei da Baixa de Cassanje pede o regresso do Dia dos Mártires da Repressão Colonial da Baixa de Cassanje à lista dos feriados nacionais.
Cambamba Nginge Kulaxingo considera que a atribuição de pensões de reforma aos sobreviventes da repressão colonial deve ser extensiva a todos os angolanos que tiveram participação directa no acontecimento, esclarecendo que existe um programa do Executivo para o enquadramento dos antigos combatentes na Caixa Social das Forças Armadas. “Muitos mártires deixaram filhos e netos que são sobreviventes que devem ser enquadrados e beneficiar de subsídios dos seus antepassados”, disse.
O Rei da Baixa de Cassanje solicita igualmente a construção, na região, de um monumento histórico em memória aos camponeses tombados durante a repressão colonial. Cambamba Nginge Kulaxingo disse, por outro lado, que o Presidente João Lourenço tem dado provas de boa governação, na medida em que incute nos angolanos um sentimento de esperança, materializando acções para o bem-estar dos cidadãos”.

História da repressão

A revolta começou em Outubro de 1960, quando os camponeses se recusaram a receber sementes para plantarem em Janeiro.
Os encarregados da companhia luso-belga Cotonang aperceberam-se do movimento grevista porque anos antes as autoridades coloniais tinham subido o Imposto Geral Mínimo de 250 para 350 escudos e o quilo do algodão era adquirido a um escudo.
Um camponês, para pagar o Imposto Geral Mínimo, tinha de vender dez sacos de 50 quilos de algodão ou contrair dívidas para pagar na próxima colheita.
Nos primeiros dias de Janeiro de 1961, começam a ser ensaiadas várias movimentações para enfrentar a máquina de repressão colonial. A 4 de Janeiro tem lugar a Revolta da Baixa de Cassange (Malanje), onde se dá o levantamento popular de milhares de trabalhadores dos campos de algodão da companhia luso-belga Cotonang. As duras condições de trabalho e de vida e a constante repressão aliada à influência da independência do Congo (actual RDC), em Junho de 1960 (na região do Cassanje viviam  povos bakongo que tinham origens comuns com povos do Congo), foram os principais factores que deram origem à sublevação destes angolanos. Os trabalhadores decidiram fazer greve e armaram-se de catanas e canhangulos (espingardas artesanais).
Em resposta, a força aérea portuguesa lançou bombas incendiárias provocando milhares de mortos. O Dia dos Mártires da Baixa de Cassange é comemorado em Angola como o acontecimento que despertou a consciência patriótica dos angolanos em prol da liberdade.
A Baixa de Cassanje é uma  depressão geográfica com 80.000 quilómetros distribuídos entre as províncias de Malanje e da Lunda Norte.
Em 1961, a região tinha 150 mil habitantes e os campos de cultivo do algodão tinham quase 85 mil agricultores, forçados a cultivar e vender o algodão.
Os acontecimentos da Baixa de Cassanje provocaram a fuga de milhares de angolanos para o Congo e são considerados por vários historiadores como um dos principais marcos da luta de libertação nacional contra o jugo colonial em Angola.
Depois desta revolta, contou o Aspirante Cambamba Kulaxingo, seguiram-se o 4 de Fevereiro e o 15 de Março, que deram origem à Luta Armada de Libertação Nacional que culminou com a proclamação da Independência Nacional a 11 de Novembro de 1975.

                                               MPLA valoriza a bravura dos heróis de 4 de Janeiro
 O melhor tributo a ser dado pela sociedade angolana aos heróis da Baixa de Cassanje é o de fazer florescer os ricos campos desta imensa Angola, cujos cidadãos e famílias são o seu primeiro e mais importante activo, refere o bureau político do MPLA numa declaração divulgada ontem.
Ao celebrar-se o Dia dos Mártires da Repressão Colonial, em homenagem às vítimas do Massacre da Baixa de Cassanje, em 4 de Janeiro de 1961, o bureau político do MPLA expressa o seu renovado reconhecimento ao Povo Angolano, cujos filhos, heróicos e generosos, continuam a manter viva a chama da Independência Nacional e da liberdade, refere. 
O MPLA reitera que o desenvolvimento integral e a me­lhoria das condições de vida dos cidadãos e das famílias angolanas estão no centro das suas políticas para o presente mandato, numa aposta assente na solidariedade en­tre gerações, em mais oportunidades para os jovens, na protecção e valorização do papel do idoso e da criança e na promoção da família, como pilar da Nação. Parafraseando João Lourenço, Vice-Presidente do MPLA e Presidente da República, na mensagem de fim-de-ano, o bureau político refere que “precisamos de dar, com al­guma coragem e determinação, novos passos em frente, vencendo os constrangimentos ainda existentes e encarando, com re­a­lis­mo, os novos desafios, de modo a diversificarmos, decisivamente, a nossa economia e atingirmos o desenvolvimento sustentável, com inclusão económica e social”.  
“O MPLA, no espírito do 4 de Janeiro de 1961, como fonte de inspiração política para a Independência Nacional, está optimista que o ano de 2018 será bom para An­gola, para as empresas, para as famílias e para os cidadãos em geral, no quadro da sua ingente missão de melhorar o que está bem e corrigir o que está mal”, conclui a declaração do MPLA divulgada ontem.

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