Política

Vaga de fundo de apoio ao líder

Kumuênho da Rosa e Gabriel Bunga |

Além da prova de capacidade, o Congresso do MPLA é também um momento de afirmação do partido como factor de mobilização e de inclusão social.

Delegados ao Congresso do maior partido de Angola manifestam apoio incondicional ao presidente José Eduardo dos Santos
Fotografia: Francisco Bernardo

Sob o lema “MPLA com o povo, rumo à vitória”, o “conclave” junta 2.620 delegados eleitos a vários níveis das estruturas do partido, inclusive pelas organizações de base.Nas discussões à volta dos documentos que vão definir o futuro do partido participam delegados em representação de milhões de militantes espalhados em todo o país e na diáspora. Com o frenesim que se assiste no Centro de Conferências de Belas com os delegados divididos em comissões de trabalho para preparar os documentos que vão a aprovação do plenário é difícil descortinar a estratificação social.
São todos “camaradas” e no Congresso apenas contamos símbolos do partido e as cores vermelha, preta e amarela. A eleição dos delegados, desde as organizações de base, conferências distritais, municipais e provinciais, para além dos comités na diáspora e de especialidade, obedeceu a uma metodologia inclusiva de todas as classes sociais, daí a razão de partilharem a mesma sala homens e mulheres, jovens e idosos, académicos e iletrados.
As estatísticas confirmam isso mesmo: 381 delegados com idades compreendidas entre os 18 e os 35 anos. Com as idades entre 36 e 45 anos são 450. O maior número de delegados está concentrado na faixa etária dos 45 a 55 anos, num total de 820. Dos 56 a 65 anos são 652 e com mais de 65 anos são 157 congressistas. Com apenas 20 anos, a estudante Ivania Florentino é a delegada mais nova, enquanto o deputado José Diogo Ventura, com 86 anos, é o delegado mais velho.
A presença de dez delegados iletrados, que não sabem ler nem escrever, é um sinal de inclusão e de pluralidade do debate neste Congresso do MPLA. Entre congressistas estão 316 técnicos médios, 1.702 licenciados, 958 mestrados e 174 doutores e doutorandos. Os delegados ao VII Congresso do MPLA são camponeses, operários, funcionários públicos, comerciantes, empresários, executivos e académicos.

Solidariedade internacional

O acto de abertura do Congresso foi prestigiado por convidados nacionais e estrangeiros. Entre as personalidades nacionais, destaque para a presença da Primeira-Dama da República, Ana Paula dos Santos, e os titulares dos tribunais Constitucional, Rui Ferreira, Supremo, Manuel Aragão, de Contas, Julião António, e Militar, António dos Santos Neto \'Patónio\'. Também prestigiaram a cerimónia o chefe de Estado-Maior General das FAA, general Geraldo Sachipengo Nunda, e o Comissário Geral da Polícia Nacional, Ambrósio Lemos.
Entre os convidados estavam também os bispo da Igreja Tocoísta, D. Afonso Nunes,  profetiza Suzeth João, da Igreja Teosófica Espírita, Miraldina Jamba, da UNITA, e Quintino de Moreira, presidente da Aliança Patriótica Nacional, e membros do Corpo Diplomático acreditado em Angola.
Oriundos do estrangeiro estavam 21 convidados, em representação de partidos, com destaque para Domingos Simões Pereira, presidente do PAIGC, e o político português Paulo Portas. Representantes do Partido Comunista da China, Partido do Trabalho da Coreia do Norte, Frelimo, Partido Congolês do Trabalho, Swapo, PGD da Guiné Conacry, Partido Chama Cha Mapinduzi, da Tanzânia, PDP, do Botswana, delegações da RDC, do Partido Revolucionário da Etiópia, da União do Povo da Guiné Conacry, da Organização da Libertação da Palestina (OLP) também marcaram presença. De Portugal apenas o CDS/PP marcou presença na cerimónia de abertura. Até ao fecho desta edição eram aguardados os representantes do Partido Comunista Português, do Partido Social Democrata e do Partido Socialista.
Em declarações à imprensa, ontem, o líder do PAIGC, Domingos Simões Pereira, considerou “uma grande experiência” participar no Congresso do MPLA. O político guineense disse que veio transmitir uma mensagem de confiança do seu povo ao MPLA e que o momento é de partilha e de confiança. “Partidos históricos como o PAIGC e o MPLA, em cada uma das suas celebrações, têm que ser um reconhecimento do passado, demonstrar a sua actualidade, tratar os assuntos do presente e sabermos onde vamos e como é que vamos lá chegar”, disse.
Para a chefe de secção política da União Europeia em Angola, Joana Fisher, trata-se de um “momento importante para o MPLA”, que precisa de um momento de recolhimento para encontrar as soluções que precisa para sair da crise. “A União Europeia está em Angola e quer ser um parceiro importante e fiável. Nós temos muito interesse em ajudar Angola neste período”, disse a diplomata.
A agenda do Congresso, aprovada ontem após a cerimónia de abertura, prevê para esta manhã a apresentação aos congressistas, no plenário, do projecto de Moção da Estratégia do Líder. Documento considerado estratégico para o futuro do partido, está a ser elaborado por uma sub-comissão coordenada pelo presidente José Eduardo dos Santos.
Além da agenda foi também aprovada a composição das comissões para tratar do relatório do Comité Central, do ajustamento aos estatutos do partido e da documentação e secretariado.

Momentos culturais

Além dos discursos e da leitura de relatórios, a cerimónia de abertura do Congresso foi marcada por momentos culturais, com os músicos Celso Mambo, Matias Damásio, Yola Semedo e Patrícia Faria em grande plano.  O acto ficou marcado ainda pela coreografia assinada por um grupo de membros da JMPLA. O braço juvenil do MPLA colocou na sala dezenas de jovens, num momento de exaltação da trajectória do partido que este ano celebra o 60º aniversário.
O primeiro secretário nacional da JMPLA destacou na mensagem da juventude o papel desempenhado pelo primeiro Presidente da República de Angola, Dr. António Agostinho Neto, no alcance da Independência Nacional. Sérgio Luther Rescova destacou o papel do Presidente José Eduardo dos Santos como líder conciliador e construtor da paz em Angola.
O dirigente da JMPLA disse ser um facto indesmentível a aposta das estruturas do MPLA na juventude e realçou que o Presidente José Eduardo dos Santos jamais virou as costas aos jovens angolanos. “Felicitamos e encorajamos o nosso partido a prosseguir nesta senda, reconhecendo mérito e capacitação”, disse Luther Rescova, antes de sublinhar que o líder do MPLA é promotor da paz, da unidade e da reconciliação nacional.
Rescova ofereceu ao Presidente José Eduardo dos Santos uma réplica do busto de Hoji-Ya-Henda, o patrono da juventude angolana, e antes de terminar fez um apelo a todos os jovens angolanos para que adiram ao processo de registo eleitoral que se inicia no próximo dia 25.

MOÇÃO DE ESTRATÉGIA DO LÍDER
O ponto alto do conclave


O secretário do Bureau Político do MPLA para a Organização e Mobilização, Jorge Dombolo, aponta a apresentação da Moção de Estratégia do Líder do partido, José Eduardo dos Santos, como o ponto alto do VII Congresso.
Em declarações à RNA, Jorge Dombolo retomou as palavras do presidente do partido sobre a Moção de Estratégia do Líder, na reunião da passada sexta-feira, que marcou o fim do mandato do Comité Central cessante. “É o documento em que será definido o rumo a seguir pelo partido e pelo Estado, para realizar as aspirações do povo angolano e construir um futuro melhor para todos”, sublinhou.
Ontem, no discurso de abertura do Congresso, o presidente José Eduardo dos Santos defendeu o reforço da disciplina e da coesão interna do MPLA para que esteja à altura dos desafios que tem pela frente, e apontou a vitória nas próximas eleições gerais como uma das grandes metas do partido. Em tom sereno e calmo, José Eduardo dos Santos falou do actual quadro social, político e económico do país, em particular da situação difícil do ponto de vista financeiro, para lembrar a responsabilidade acrescida dos militantes do MPLA, principalmente dos seus dirigentes. “A actual situação económica e financeira coloca-nos perante grandes desafios”, disse o líder do MPLA, antes de lembrar que “só erra quem trabalha”.
O líder do MPLA falou da necessidade de se olhar para trás e analisar com o “necessário sentido de crítica e de autocrítica”, para se poder detectar o que não foi bem feito. “Os erros deverão ficar no passado e servir de critério para corrigirmos o presente e projectarmos o futuro.”
Para José Eduardo dos Santos, o facto de o MPLA ter estado sempre do lado do povo, desde o recôndito período da ocupação colonial, fez do partido uma força política de todos os angolanos. “Assim construímos um grande partido, que não é do Sul, não é do Norte, não é do Leste, mas de toda Angola, de Cabinda ao Cunene. Um partido para todos os angolanos, sem distinção de raça, tribo, região, credo religioso ou nível cultural e académico.”
O número um dos camaradas reafirmou que o MPLA é um partido aberto, que recebe de braços abertos quem quiser aceitar os seus estatutos e programa. Mas, avisou, que são “mais rigorosos” os critérios para se ascender à direcção e a cargos de responsabilidade no partido.
Além da Moção de Estratégia do Líder procede ao balanço das acções realizadas desde o VI Congresso e os ajustamentos dos estatutos da organização. Fundado a 10 de Dezembro de 1956, com a designação de Movimento Popular de Libertação de Angola, o MPLA realizou o seu 1º Congresso Ordinário em 1977, altura em que se constituiu em Partido do Trabalho (PT). Nesse Congresso, António Agostinho Neto foi eleito Presidente.

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