Política

“Zé” Maria confirma ter levado documentos

Adelina Inácio

O general António José Maria confirmou ontem, em Tribunal, que não teve autorização das Forças Armadas Angolanas (FAA) para retirar os documentos referentes à Batalha do Cuito Cuanavale e levá-los para casa.

No segundo dia do julgamento, o general foi interrogado pelos juízes e pelo Ministério Público
Fotografia: Alberto Pedro | Edições Novembro

Ex-chefe do Serviço de Inteligência e Segurança Militar (SISM), “Zé” Maria, como é mais conhecido, é acusado de extravio de documentos que contêm informações de carácter militar e de insubordinação, por não ter acatado supostas ordens de um superior hierárquico. Ontem, no segundo dia do julgamento, que decorre no Supremo Tribunal Militar, o general garantiu que os documentos que se encontravam em sua posse não influenciam em nada na tomada de decisão, planificação e táctica operativa das FAA.
Interrogado durante mais de cinco horas pelo Tribunal e pelo Ministério Público, o réu mostrou-se bastante descontraído. Admitiu que os documentos apreendidos pela Procuradoria Militar foram encontrados na Fundação Eduardo dos Santos (FESA) e nas suas residências na Praia do Bispo, Alvalade e Nova Vida, bem como na Repartição dos Transportes do SISM.
Um dos juízes pretendeu saber como o general justifica o facto de ter levado os documentos à sua casa, quando estes eram de carácter militar. José Maria esclareceu que procedeu daquela forma porque os documentos serviriam para continuar a compilar a história sobre a Batalha do Cuito Cuanavale.
Zé Maria explicou que parte dos documentos que retirou do SISM foi encontrado na FESA porque era pretensão do ex-Presidente, José Eduardo dos Santos, criar um centro de estudos estratégicos, cujo objectivo seria, entre outras coisas, levar ao conhecimento da juventude a agressão dos sul-africanos a Angola. José Eduardo dos Santos, ainda como Presidente da República, terá reunido com figuras como o general Hélder Vieira Dias Júnior “Kopelipa”, José Mena Abrantes, Roderick Nehone (pseudónimo literário de Frederico Cardoso) e Aldemiro Vaz da Conceição, para manifestar a sua preocupação com a história.
Na sequência, o então Presidente da República terá sugerido que se escrevesse sobre a Batalha do Cuito Cuanavale para que a juventude conhecesse a sua história. “Nunca alguém se preocupou, antes, com a história da Batalha do Cuito Cuanavale”, sublinhou o réu.
Quanto aos documentos que se encontravam na sua residência, Zé Maria disse que não fez a entrega dos mesmos ao SISM porque carecia de um título que legitimasse a operação. Para o general, só um mandato de busca e apre-ensão poderia determinar em que locais os referidos documentos poderiam ser encontrados e apreendidos.
Relativamente à acusação de insubordinação, o réu afirmou que nunca recebeu instrução de qualquer superior hierárquico a ordenar que o material referido nos autos deveria manter-se no SISM.

Encontro com Miala

A entrega dos documentos foi solicitada pelo actual chefe do Serviço de Inteligência e Segurança do Estado (SINSE), general Fernando Garcia Miala, que chegou a ter um encontro com Zé Maria no parque de um restaurante na Ilha de Luanda, para tentar convencê-lo a entregar os documentos.
A tentativa do chefe do SINSE foi infrutífera. Ontem, em Tribunal, José Maria justificou a não entrega dos documentos com a alegação de que Garcia Miala não se fazer acompanhar de qualquer instrumento que o legitimasse a solicitar os mesmos. “Nunca o senhor Miala me deveria contactar sem exibir um documento que o legitimasse”, afirmou.
O réu terá condicionado a entrega dos documentos à realização de um encontro entre o ex-Presidente da Re-pública, José Eduardo dos Santos, e o actual Chefe de Estado, João Lourenço. Um dos juízes questionou ao réu por que não levou os documentos ao Mu-seu de História Militar. O réu respondeu que o trabalho que estava a realizar ainda não estava concluído.
Solicitado a esclarecer em Tribunal se, pela experiência e longa carreira militar, sabia dizer se os documentos que estavam em sua posse eram considerados classificados ao abrigo da Lei do Segredo Militar, o general respondeu negativamente. Zé Maria informou que o Estado gastou cerca de 2,4 milhões de dólares para a obtenção dos documentos referentes à Batalha do Cuito Cuanavale. Terá recebido o dinheiro do gabinete do ex-Presidente.

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