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Arrancou o registo de vítimas de minas

João Upale|

O processo de registo e actualização em todo país das pessoas portadoras de deficiência vítimas de minas terrestres arrancou na quinta-feira, na cidade do Namibe.

Portadores de deficiências por minas poderão conhecer dias melhores nos próximos tempos
Fotografia: Jornal de Angola

O processo de registo e actualização em todo país das pessoas portadoras de deficiência vítimas de minas terrestres arrancou na quinta-feira, na cidade do Namibe.
O acto contou com a presença de membros do Governo Provincial, directores de instituições públicas, administradores municipais e comunais e representantes das várias associações de deficientes.
O projecto visa o reforço da assistência às vítimas de minas em Angola, através de um melhor e mais completo conhecimento da sua situação socio-económica, e a respectiva integração no mundo do trabalho.
O registo, a decorrer em todo país, vai durar mais de 30 dias. Angola tem um elevado número de vítimas civis de minas. Ao longo da guerra, o inimigo colocou minas nas picadas e nos caminhos de acesso às lavras. E muitos campos de cultivo foram minados, o que provocou centenas de vítimas com ferimentos que levaram a amputações e até à cegueira.
A campanha pretende, também, avaliar o universo das vítimas de minas e as condições de assistência aos portadores de deficiência, de forma a determinar com rigor as suas necessidades prioritárias e permitir a elaboração de planos nacionais integrados e participativos, com uma adequada mobilização e distribuição de recursos.
Muitas vítimas civis de minas vivem com grandes dificuldades e sem qualquer apoio da sociedade civil ou de organismos públicos. Os antigos militares que sofreram ferimentos por accionarem minas também precisam de um reforço nos apoios, embora tenham associações de antigos combatentes que os têm apoiado. O Executivo também tem vários programas de apoio e integração aos desmobilizados com deficiências e que são extensivos às suas famílias.
Segundo a coordenadora de projectos da Comissão Nacional Intersectorial de Desminagem e Assistência Humanitária (CNIDAH), esta acção só é possível com a criação e desenvolvimento de um banco de dados das vítimas de minas.
Balbina Silva reafirmou que nestes oito anos de paz efectiva vivida pelo país, dar uma vida mais digna aos angolanos, em geral, e às vítimas de minas terrestres, em particular, é uma obrigação do Estado, sublinhando que é com esse propósito que “estamos hoje a lançar o projecto nacional de registo e actualização de pessoas portadoras de deficiência vítimas de minas”.
Balbina Silva disse ainda que “todos os dias, quando nos deparamos com novos hospitais, centros de saúde, escolas, centros de emprego e outras infra-estruturas sociais e económicas, essa tarefa de erguer o país dos escombros de uma guerra de mais de três décadas deve contar com a participação de todos os filhos de Angola, incluindo os deficientes”.
O registo das vítimas terrestres vai ajudar a perceber quais são as suas necessidades e de que ajudas precisam para terem uma vida normal. Há deficientes que nem sequer têm próteses para a sua mobilidade.

Apoio às vítimas

A coordenadora dos projectos e programas da Comissão Nacional Intersectorial de Desminagem e Assistência Humanitária  lembrou que as informações recebidas durante o primeiro levantamento do impacto da acção das minas terrestres sobre as populações indicam que nem todas as vítimas beneficiam do apoio das estruturas do Estado. Entre essas vítimas existem pessoas que nunca tiveram próteses que as ajudem a ser independentes na sua mobilidade de forma a conseguirem a sua integração no mercao de trabalho.
Balbina Silva anunciou que, num período de aproximadamente dois anos, vão ser criadas as condições para que cada portador de deficiência vítima de minas seja registado na administração do seu município, da sua comuna ou na sua aldeia.
O projecto tem como finalidade apurar quantos são, como vivem e de que ajudas precisam para terem uma vida autónoma e se integrarem no mundo do trabalho, para poderem sustentar-se e sustentar as suas famílias.
“Cada um de nós deve ser um agente activo neste processo e deve tornar possível o registo do nosso pai, da nossa mãe, do nosso filho ou filha, e até do nosso vizinho que não sabe como chegar à administração do município, comuna ou aldeia”, declarou.
Para Balbina Silva, o sucesso deste projecto de registo e actualização depende da consciência cívica de cada membro da nossa sociedade, esperando-se uma atitude de grande altruísmo perante mais este desafio que o país tem pela frente.
Balbina Silva afirmou que na execução do plano de acção, a Comissão Nacional Intersectorial prevê a unificação das diversas acções em benefício das vítimas de minas terrestres.
“O levantamento e localização destas pessoas ajuda a Comissão Nacional e outras instituições a criar e manter um banco de dados, a partir do qual vão avaliar-se as reais necessidades das vítimas e prever a combinação de serviços e cuidados a prestar, medindo o progresso da vítima”, esclareceu.
O projecto também vai permitir fortalecer o apoio ortopédico, uma vez que esses dispositivos (ortopédicos) devem ser substituídos num período de três a quatro anos.
Naóptica de Balbina Silva, dados mais correctos vão facilitar o planeamento dos cuidados de saúde, tendo em atenção a disponibilidade financeira do Executivo e de outras instituições nacionais e estrangeiras que asseguram a assistência às vítimas de minas nos municípios, comunas e aldeias, e facilitar o acesso de todos os deficientes aos serviços sociais básicos.
“Este é o caminho certo que vai permitir que todos os filhos de Angola, não importa o seu estrato social ou a sua deficiência, participem do processo de reconstrução nacional, rumo à construção de um país novo, com paz de espírito, amor ao próximo e muita solidariedade”, disse Balbina da Silva, durante a aprssentação do programa, na cidade do Namibe.
É necessária a colaboração de todos para que o projecto seja realmente um sucesso, considerou Balbina Silva, ao mesmo tempo que garantiu  estarem criadas todas as condições para que “tenhamos os resultados que pretendemos”.
Nessa perspectiva, o projecto prevê atingir as áreas mais recônditas do país: “o  levantamento será feito em todo país, para termos a dimensão do número de vítimas de minas que temos em Angola”, disse, reiterando que “a gente vai visitar todas as áreas”. Terminada a guerra, existem numerosas vítimas de minas e outras acções militares que vivem sem qualquer apoio das entidades públicas ou de instituições vocacionadas para ajudar os deficientes vítimas do rebentamento de minas terrestres.
A governadora Cândida Celeste da Silva, que agradeceu a escolha do Namibe para o lançamento deste importante projecto de âmbito nacional, assegurou que o Governo Provincial vai prestar todo o apoio necessário aos técnicos que, durante 30 dias, vão às administrações municipais, comunais, povoações e aldeias registar as vítimas de minas que ali existem.
Acrescentando que a população do Namibe está sempre sensibilizada para responder aos grandes desafios que o país vive no seu dia-a-dia, Cândida Celeste da Silva disse que o projecto vai ser abraçado por todos os habitantes da província do Namibe, durante o período determinado para a sua execução na região.
Dados estatísticos disponíveis apontam que 77 por cento das vítimas de minas são pessoas na faixa etária dos 15 aos 54 anos, 49 por cento se situam no escalão entre os 30 e 44 anos, 78 por cento são homens, devido aos movimentos na condição de motorista ou militar, e 32 por cento são mulheres.
Em 2006, a Comissão Nacional Intersectorial de Desminagem e Assistência Humanitária fez aprovar o plano estratégico da acção de minas, onde vêm reflectidas todas as áreas de intervenção junto das vítimas.
 
Desminagem no bom caminho
 
Balbina Silva reconheceu existir um bom trabalho sobre o processo de desminagem em todo o território nacional, embora haja ainda muitas minas por desactivar em algumas províncias do país. “O processo de desminagem está a andar bem. Hoje já se circula livremente, já se pode ir de uma província a outra, e isso é fruto do empenho, dedicação e muito sacrifício das pessoas que estão envolvidas na desminagem, principalmente os sapadores”, realçou.
Este é um processo longo e exige muita paciência. Mas, segundo fez questão de sublinhar, é possível conviver com as minas, desde que elas estejam sinalizadas, embora também seja necessário que “trabalhemos para as erradicar do nosso território”.
A responsável do Comissão Nacional Intersectorial de Desminagem, Balbina da Silva,  destacou o importante papel que se espera da comunicação social para que “este projecto que estamos a lançar tenha agora os êxitos que todos desejamos e chegue ao conhecimento de todos os deficientes vítimas das minas terrestres”.
O Moxico é uma das províncias onde mais minas foram disseminadas durante o conflito armado, seguida de Malange e das Lundas Norte e Sul.
Outras províncias, como a do Kuando-Kubango e do Cunene, também têm um número elevado de minas, embora se tenha feito um grande trabalho para a sua redução. “Não podemos dizer que já existam províncias livres de minas”, acrescentou Balbina da Silva.
Existem mais de 80 mil vítimas de minas em todo o país.

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