Províncias

Ataque de Massabi foi acto criminoso

Alberto Coelho | Cabinda

O motorista do autocarro que transportou a selecção do Togo quando esta foi alvo de um ataque terrorista, no dia 8 de Janeiro, na via Massabi/cidade de Cabinda, defendeu a condenação dos responsáveis desta acção, “por se tratar de um acto criminoso”.

António Quaresma clama por justiça
Fotografia: Rafael Taty

O motorista do autocarro que transportou a selecção do Togo quando esta foi alvo de um ataque terrorista, no dia 8 de Janeiro, na via Massabi/cidade de Cabinda, defendeu a condenação dos responsáveis desta acção, “por se tratar de um acto criminoso”.
António Quaresma Luemba, 41 anos, que foi dado como morto durante o ataque, qualificou a acção de “acto de pura barbaridade e condenável a todos os títulos”.
A este jornal, disse não encontrar “motivos nem mesmo argumentos políticos para justificar” o ataque a uma caravana desportiva que ia participar no CAN Angola’2010 em futebol, e considerou “bastante negativa” a reivindicação desta acção terrorista pela FLEC, na voz de Rodrigues Mingas, esperando “não voltar a viver situação do género”.
O motorista, que teve a vida por um fio, espera “que haja justiça” e que os protagonistas da acção “sejam responsabilizados pelos danos causados por este acto terrorista”, que provocou a morte de dois elementos da delegação togolesa e cerca de uma dezena de feridos.
António Quaresma contou, na primeira pessoa, ao Jornal de Angola, como aconteceu o ataque à caravana desportiva que transportava a selecção togolesa que devia participar nos jogos do grupo B do CAN’2010 em Cabinda. Disse que o ataque causou “o maior susto da minha vida”, já que “estava longe de imaginar que haveríamos de ser atacados naquele lugar.”
O ataque terrorista aconteceu perto de uma curva, a poucos quilómetros do posto fronteiriço de Massábi, 90 quilómetros a Norte da cidade de Cabinda. “Depois de descrever a curva, reduzi a velocidade, e mesmo aí fui surpreendido com vários disparos de armas de fogo automáticas. Fui atingido com três tiros no lado esquerdo do abdómen”, explicou.
Segundo contou ao Jornal de Angola, mesmo ferido e com as tripas de fora conseguiu manter o equilíbrio do autocarro e continuar com a marcha de modo a tirar a selecção togolesa da linha de fogo dos terroristas. “Consegui manter a estabilidade do autocarro e tirá-lo da barreira de tiro, para que não acontecesse o pior”, disse António Quaresma Luemba, que receava um capotamento do autocarro nas lombas, e que isso causasse consequências mais graves à comitiva togolesa.
Depois disso, Quaresma desceu pelo seu próprio pé do autocarro, quando começou a sentir-se muito mal e foi socorrido pelos presentes. A pronta intervenção dos efectivos da Polícia Nacional que escoltavam a caravana desportiva e puseram em debandada o grupo dos terroristas atacantes pela floresta adentro.
Embora esteja em convalescença, Quaresma procurou o nosso jornal para dissipar dúvidas sobre o seu estado de saúde e desmentir os boatos que circulam sobre a sua morte, em Cabinda e em diversos órgãos de informação, dentro e fora do país. “Devido ao estado grave em que me encontrava depois do ataque, muita gente em Cabinda, e não só, pensa que eu morri. Estou vivo, graças a Deus”, disse, lamentando a morte dos dois elementos da selecção togolesa.
      
Apoio ao tratamento

Como consequência do ataque, António Quaresma Luemba teve ferimentos graves no abdómen e foi tratado com êxito no Hospital Provincial de Cabinda. Neste momento está em convalescença e proibido de fazer grandes esforços.
Viúvo, com a responsabilidade de cuidar 10 filhos, Quaresma disse ao Jornal de Angola estar a atravessar dificuldades por falta de dinheiro. É desempregado há mais de cinco anos, altura em que terminou o contrato de serviço com uma empresa petrolífera que operava no offshore (mar). Antes do incidente do Massabi, Quaresma exercia actividade de taxista para sustentar os filhos e a si próprio. Como esta actividade se mostrava bastante onerosa, no âmbito da realização do CAN assinou com a Empresa de Transportes Públicos (ETP) um contrato de trabalho por tempo determinado, de 1 a 31 de Janeiro de 2010.
O contrato de prestação de serviço celebrado entre a ETP e Quaresma Luemba refere, no seu ponto número três, que “o trabalhador tem direito a uma remuneração no valor de 40 mil kwanzas no período de 1 a 31 de 2010”.
Até ao momento, quer Quaresma quer outros colegas que prestam serviço à ETP no quadro do CAN ainda não receberam os valores referentes ao trabalho prestado. Por estar a enfrentar dificuldades e porque precisa de dinheiro para fazer um “chek up” em Ponta-Negra (República do Congo), Quaresma apela à solidariedade de pessoas de boa fé para que o ajudem.
“Peço ajuda ao Governo e também às pessoas de boa fé para me ajudarem no tratamento, porque os exames que pretendo fazer não podem ser feitos em Cabinda por falta de condições”, pediu.
Apesar de possuir carta de condução que o habilita a conduzir, Quaresma sente-se “inapto para fazer trabalhos pesados” e apela às instâncias competentes para solucionarem com maior brevidade a questão referente à sua remuneração.  

O director da Empresa de Transportes Públicos (ETP) em Cabinda, António Custódio, garante que as pessoas contratadas pela empresa e que prestaram serviço no âmbito do CAN são remuneradas em breve.
Estão nessa situação, segundo António Custódio, mais de 100 motoristas, e assegurou que o problema está a ser visto pelo COCAN a nível central.
Segundo disse ao Jornal de Angola, ele próprio esteve muito recentemente em Luanda para resolver o problema que inquieta não só os motoristas como também a própria direcção da empresa. “Não é só Cabinda que está com esse problema, mas também as outras províncias que acolheram os jogos do CAN. O assunto está a ser resolvido”, garantiu.
Quanto ao motorista António Quaresma Luemba, aquele responsável disse que o mesmo recebeu um tratamento personalizado quando esteve internado no Hospital Central de Cabinda e o governo deu todo apoio necessário, sobretudo em termos de fármacos.
Segundo António Custódio, tudo que diz respeito à empresa está a ser feito em termos de apoio ao motorista lesado. “É nossa obrigação dar todo o apoio indispensável para a sua recuperação”, declarou.          
Apesar da empresa viver dificuldades financeiras, o primeiro gesto de apoio foi a entrega de 100 mil kwanzas à família para o ajudar a suprir algumas necessidades. “Este apoio não vai ficar por aqui”, assegurou António Custódio à nossa reportagem.

Comércio fronteiriço sem sobressaltos

Apesar do ataque terrorista do dia 8 de Janeiro, a actividade mercantil na fronteira do Massabi decorre sem sobressaltos. A via internacional que liga a fronteira e a cidade de Cabinda, numa extensão de cerca de 90 quilómetros, continua a registar o fluxo normal de camiões transportando mercadorias destinadas à província.
Comerciantes, que usam normalmente a via de Massabi, contactados pela nossa reportagem, disseram que o incidente em nada abalou a actividade comercial na fronteira, apesar de, nos dias subsequentes ao ataque, muita gente recear utilizar o troço. “A situação voltou à normalidade e as trocas comerciais decorrem sem sobressaltos”, asseguraram os nossos entrevistados. Os taxistas, dos muitos que condenaram o ataque à caravana desportiva, também viram o seu ganha-pão ameaçado devido a falta de clientes naqueles dias, sobretudo as comerciantes ambulantes idos de Luanda e que efectuam compras em Ponta-Negra.
Na fronteira do Massabi, conforme constatou a nossa reportagem, as trocas comerciais realizam-se normalmente, do lado angolano e Ponta-Negra (República do Congo). As estruturas ali instaladas, como os Serviços de Migração e Estrangeiros (SME), Alfandegas, Seguros (ENSA), a agência do Banco Sol e a Polícia Fiscal, funcionam diariamente sem problemas.
A fronteira de Massabi é a mais concorrida na província, por ali passar todo tipo de mercadoria, desde bens alimentares, materiais de construção, vestuário e calçado a viaturas importadas para Cabinda.
Por falta de um porto de águas profundas na província, as mercadorias são descarregadas no Porto Comercial de Ponta-Negra e depois encaminhadas para Cabinda através da via de Massabi, num percurso de mais de 90  quilómetros, da fronteira à cidade.  Os importadores optam pelo Porto de Ponta-Negra por este oferecer melhores condições de descarga de mercadorias, ao contrário da ponte-cais de Cabinda, que ainda utiliza o método de baldeamento, o que encarece o custo final.
O ministro dos Transportes, Agusto da Silva Tomás, garantiu, em Julho do ano passado, que a província de Cabinda vai dispor, brevemente, de um porto de águas profundas. “O Governo tem já na fase conclusiva os projectos e estudos técnicos necessários para a construção”, disse na ocasião. Acrescentou que a questão financeira “está salvaguardada, pelo que logo que o projecto e os estudos técnicos sejam concluídos, passa-se à fase de execução”.
 “Desta vez o projecto é, mesmo, a sério, não será mais para ficar no papel, vai ser executado”, disse, acrescentando: “Posso garantir que Cabinda terá o tão ansiado porto de águas profundas”.
O ministro  afirmou que o Governo não vai permitir que, enquanto for impossível a atracagem de navios, se continuem a agravar os problemas das populações, pelo que se impõe redução radical da dependência da província do porto vizinho de Ponta Negra.
Quanto a eventuais assimetrias, em termos de vias marítimas, entre Cabinda e o resto do território nacional, o ministro disse que o Governo está a trabalhar na identificação de actividades para atracação de meios de transporte de cabotagem e de passageiros em Cabinda, Nóqui, Soyo, Luanda, Lobito, Namibe e Porto Amboim.

Tempo

Multimédia