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História passada futuro confiante

Guilhermino Alberto| Úcua

Quem chega hoje ao Úcua, comuna da província do Bengo, localizada 69 quilómetros a Norte de Caxito, associa o lugar ao passado recente de guerra que deixou, um pouco por todo o país, um rasto de destruição.

Estrada que passa pela sede comunal do Úcua e dá acesso à província do Uíje e aos municípios de Bula Atumba e Pango-Aluquém
Fotografia: João Gomes

Quem chega hoje ao Úcua, comuna da província do Bengo, localizada 69 quilómetros a Norte de Caxito, associa o lugar ao passado recente de guerra que deixou, um pouco por todo o país, um rasto de destruição.
Apesar de terem sido erguidas de raiz algumas obras sociais, como escolas e hospitais, no Úcua ainda são visíveis, na rua principal, os sinais de obuses de morteiros de grande calibre no que resta das paredes de um conjunto de lojas, da velha padaria e do velho restaurante, ambos erguidos no longínquo ano de 1955.
O Úcua é um importante nó de ligação entre Luanda, Uíje e os municípios de Bula Atumba e Pango  Aluquém,  no interior da província do Bengo. Foi entre as ruínas da velha padaria e do antigo restaurante que encontrámos Afonso Avelino Francisco, mais conhecido por Cuidado, para falar sobre a história do Úcua. Antigo guerrilheiro, Afonso Francisco “Cuidado”, 59 anos, natural do Úcua, conta que se fala hoje muito pouco do lugar “que parece esquecido no tempo”, mas onde foram forjadas as primeiras acções militares contra as tropas coloniais portuguesas. “Temos aqui dezenas de antigos guerrilheiros que, como eu, formamos a então I Região Político-Militar do MPLA”, disse.
Afonso Cuidado conta que foi recrutado para a guerrilha em Abril de 1961, quando tinha apenas 11 anos. Diz que como já sabia ler e escrever, foi-lhe confiada a missão de controlar o movimento das tropas coloniais na comuna e depois informar os mais velhos. “Como era novo e com alguma liberdade de movimentos dentro do perímetro do então posto administrativo, era mais fácil para mim chegar junto às colunas militares, contar o número de carros e soldados e transmitir esses dados aos mais velhos”, referiu.
Algum tempo depois, já com 16 anos, foi enviado para a Zona C (Sector 3), no Golungo Alto, província do Kwanza-Norte, onde recebeu várias missões com destino a Luanda. Conta que o seu ponto de contacto em Luanda era o falecido Saidy Mingas. E ganhou o nome de Cuidado por ser muito cuidadoso no cumprimento das missões que lhe eram confiadas.
Do seu tempo de combatente tem gratas recordações do Comandante Valódia, que morreu em 1975, junto ao prédio sujo do Marçal, do irmão, comandante César Augusto Kilwanji, embaixador de Angola em Cabo Verde, e do general Benigno Vieira Lopes “Ingo”, que era um grande especialista na desactivação de bombas, e Domingos Luís “Koloké”, falecido recentemente.  
Quanto aos acontecimentos que resultaram no massacre de milhares de angolanos na Baixa de Kassanje, a 4 de Janeiro de 1961, Afonso Francisco Cuidado diz ter tomado conhecimento do holocausto nas matas do Golungo Alto. “Na guerrilha nós tínhamos uma boa rede de informações. Tudo o que acontecia no país chegava ao nosso conhecimento, embora os pormenores ficassem com os chefes”, disse.
O velho guerrilheiro disse que era tão boa a rede de informações da guerrilha que muitas bombas da força aérea portuguesa eram desactivadas na base aérea muito antes de serem utilizadas nos bombardeamentos de zonas controladas pela guerrilha. “Tínhamos homens infiltrados que retiravam o TNT das bombas e quando estas eram atiradas sobre as nossas aldeias os efeitos eram nulos”, disse.
Além do massacre da Baixa de Kassanje e dos Dembos, Afonso Cuidado recorda ter tomado conhecimento de outros massacres ocorridos no Dande, onde foram mortos o velho Sebastião João Pedro e Francisco Pascoal, este último de Catete, e na então vila do Negage, onde dezenas de agricultores e profissionais assimilados foram amarrados, deitados na estrada e trucidados por um tractor com cilindro. “Eram relatos de cenas chocantes que nos chegavam”, disse, acrescentando que um antigo funcionário (Baganha) da Câmara Municipal do Negage, que depois da independência se mudou para a Vila Alice, em Luanda, sabe muito sobre esse assunto.
Pai de oito filhos, o velho guerrilheiro, hoje reformado com a patente de tenente-coronel e uma pensão de 70 mil kwanzas, que não recebe há quatro meses, defende que os nossos historiadores deviam investigar mais sobre o que se passou em Angola durante a longa noite colonial e tornar isso público, através de livros, para as futuras gerações.   

Fungulula do Kessu

Na aldeia do Kessu, a cerca de 30 quilómetros do Úcua, nasceu e vive em condições deploráveis Domingos Sebastião “Fungulula”. Recrutado por Pedro Congo e Mateus Leão, a 16 de Abril de 1961, Domingos Sebastião, 65 anos, conta que, com o despoletar da guerra anti-colonial, lhe foi incumbida a missão de fornecer mantimentos à guerrilha.
Numa dessas missões é preso pela PIDE/DGS, em Setembro de 1961, com outros camaradas, entre os quais o soba João Domingos, Manuel João e Caetano João.
Em Setembro de 1961, é levado para a Colónia Penal de Madimba, na actual província do Zaire, de onde foi depois transferido com os companheiros para a Casa de Reclusão de Luanda, onde ficou até 1972, ano em que é desterrado para e São Nicolau, Bentiaba, província do Namibe.
Em Junho de 1974 é posto em liberdade, na sequência do golpe de estado que derrubou o regime fascista português. Durante os nove anos na Casa de Reclusão, recorda-se dos irmãos António e Manuel Nogueira, de Catete, e de São Nicolau tem ainda na memória o velho Suzama, de Maquela do Zombo, e o velho Baltazar, de Malanje.
Pai de sete filhos e sem pensão de reforma, o antigo preso pede apenas apoio para poder lavrar a terra e sustentar a família.

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