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Religião e turismo na vila da Muxima

Pedro Bica | Muxima

A vila da Muxima é conhecida tradicionalmente pelas romarias de cristãos católicos e de outros credos religiosos. A religião e a cultura cruzam-se com o turismo. As belas e paradisíacas paisagens naturais inspiram à reflexão.

As margens do rio Kwanza recebem todos anos centenas de fiéis devotos idos de todas as partes do país e também do estrangeiro
Fotografia: Kindala Manuel

Se antes da independência o Santuário da Nossa Senhora da Muxima era apenas frequentado por devotos internos, actualmente o lugar é frequentado por peregrinos de todo o mundo. Mais de 100 mil peregrinos visitaram o santuário em Agosto último.
No passado, a população nativa, no início de cada ano agrícola, ia pedir um bom ano de chuva, já que nem sempre chovia na região. Com o andar dos anos muitas aldeias da Kissama, sede municipal da Muxima, ficaram despovoadas.
A veneração ao lugar santo é anterior à era colonial, quando a população levava óleo de palma e outros produtos do campo para agradecer aos deuses pelas chuvas e também pela abundância nas colheitas. Depois que os portuguesas ocuparam a região do Ndongo aproveitaram esta fé do povo pelo sagrado para construir no lugar, de importância estratégica pela sua localização, uma fortaleza no ano de 1559.
Neste mesmo ano, dada a devoção que o local inspirava às populações, desembarcaram os primeiros padres, que decidiram então construir a capela que hoje acolhe o Santuário de Nossa Senhora da Conceição ou “Mamã Muxima”.
Após a ocupação da região pelos holandeses, em 1646, os cultos e devoções tiveram um pequeno interregno, resultante dos confrontos entre tropas portuguesas e holandesas. Só dois anos mais tarde, em 1648, essa actividade foi retomada pelos fiéis devotos.
Em 1924, o santuário e a fortaleza foram reconhecidos como património histórico, o que motivou as populações locais a uma maior entrega às rezas para pedir milagres ao Santíssimo Coração de Maria.
São muitas as famílias angolanas que dedicam o cuidado dos filhos à Mamã Muxima, para que cresçam com saúde e prosperem na vida. Fala-se mesmo em milagres obtidos em nome da Virgem Maria.
 
Lugar de eleição para o casamento

Para muitos jovens que acorrem habitualmente ao Santuário da “Mamã Muxima”, os momentos servem para rezas, súplicas e agradecimentos pelas bênçãos recebidas, mas também para firmar um compromisso matrimonial e de namoro.
Há também casais de jovens cristãos que se deslocam à Muxima em busca de uma resposta maternal de Nossa Senhora da Conceição para a sua estabilidade e respeito mútuo na relação conjugal.
Um dos mais importantes templos marianos do espaço lusófono, depois de Fátima, em Portugal, diariamente o Santuário da Mamã Muxima transforma-se num espaço de autêntica manifestação de fé, de cultura e também de turismo, com a presença de inúmeras caravanas de fiéis.  O interesse, a vontade e a ansiedade de muita gente visitar o Santuário deve-se à força mítica do lugar. Há uma grande crença na força divina do espaço que alberga o santuário. “É blasfémia procurar convencer um angolano, mesmo agnóstico, que o lugar não é sagrado”, disse um alto funcionário do Estado que visitava o Santuário.
“Muxima está na nossa música, na nossa literatura e na vida das pessoas”, assegurou à nossa reportagem o jovem Luís António, após um reconfortante mergulho nas limpas águas do rio Kwanza.
Sobre a actividade milagreira da santa, o jovem precisou: “é impossível não acreditar na força deste lugar, minha mãe, que não engravidava, pediu-me aqui há 25 anos”.
Luís António revela que apanhar poeira durante o percurso para a vila, dormir ao relento durante os dias de devoção e tomar banho nas margens do Kwanza são para si uma bênção sem igual.
A romaria à Mamã Muxima, mesmo nos tempos difíceis em que o país ainda vivia os horrores da guerra, nunca parou. Mesmo com o perigo de perder a vida, cristãos e não cristãos deslocavam-se em devoção ao maior lugar da fé cristã em Angola.

Testemunho paroquial
 
Para o padre Mário Torres, pároco do Santuário de Nossa Senhora da Conceição, a Muxima é hoje um exemplo daquilo que pode unir os angolanos em torno da paz e do amor ao próximo, valores deixados por Jesus Cristo.
O prelado católico, de nacionalidade mexicana, considera que alcançada a paz, o povo angolano está cada vez mais a demonstrar a sua devoção a Deus, que ao longo dos tempos difíceis sempre os acompanhou.
Com uma população estimada em 11 mil habitantes, que se dedicam na sua maioria à agricultura e à pesca, a Muxima tem sido nos últimos anos o lugar das maiores peregrinações de manifestação de fé cristã em Angola, estando as autoridades religiosas e do Estado a projectar a construção no lugar de uma grande basílica. Agosto é o mês da grande romaria ao santuário mariano.

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