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A cidade e suas esculturas: um potencial para o turismo

Jaime Azulay | Benguela

Lobito, a bela cidade do litoral-centro de Angola, é um destino turístico por excelência.

Fotografia: Edições Novembro

A urbe está implantada em redor de uma baía natural, com cerca de dois quilómetros de comprimento e 1400 metros de largura. Aqui se situa um dos principais portos da costa ocidental de África, o conhecido Porto Comercial do Lobito. No interior da baía, as águas são calmas e propícias para a prática de desportos aquáticos. Praias estendem-se de um e do outro lado de uma extensa área que entra mar adentro, em direcção à Norte. Nesta zona privilegiada, foi implantado o aglomerado urbano no qual pontificam exemplares de arquitectura únicos, que atestam não só a presença colonial portuguesa nesta região de África, mas denotam igualmente a influência dos mestres ingleses que, no início do século XX, participaram na construção do porto e do Caminho-de-Ferro de Benguela. Provavelmente, muitas pessoas ignoram que “marcos” que ajudaram a dar ao Lobito o pomposo título de “Sala de visitas de Angola” passam hoje quase despercebidos. Na cidade, encontramos um conjunto de estátuas que fazem questão de resistir ao tempo, transpondo milagrosamente as vicissitudes vividas pelo país desde a proclamação da Independência Nacional, em 1975, até à obtenção da paz definitiva, no ano de 2002.

Sem obedecer a qualquer critério de importância, podemos apresentá-las: “Caminhando”, “Monumento à Aviação”, “O Homem do Lomango”, “O Poeta” e a “A Sereia dos Trópicos”. Constituem obras de arte que permanecem nos dias de hoje como imagens de grata contemplação.
As estátuas em causa têm a assinatura de um engenheiro português, de nome Canhão Bernardes. Escultor, autodidacta de rara sensibilidade (começou a fazer escultura por entretenimento, aos 42 anos), viveu no Lobito durante as décadas de 60 e de 70 do século passado. Com a inesperada eclosão da guerra civil, ele rumou para o Brasil e por lá se mantém até aos dias de hoje, segundo informações que recolhemos, mas que não pudemos confirmar. Bernardes deixou espalhado não só no Lobito, mas igualmente nas províncias do Kwanza-Sul e do Bié, o testemunho do seu extraordinário talento. Ao todo, tinha 14 obras em locais públicos até ao ano de 1972.

Na época, estava em voga (e ainda hoje assim é em muitos lugares do planeta) o frenesi de encher as praças públicas com heróis colocados em pedestais. Canhão Bernardes partilhava da opinião de que, ao fomentar-se a escultura em lugares públicos, não deveria ser com a imposição de heróis. Estes, volta e meia, são derrubados, em consequência da queda dos regimes e sistemas que simbolizam. Para Bernardes, a escultura deveria significar algo mais para as pessoas, cujos itinerários se vão cruzando ao longo do dia. Um meio de aliviar, através da beleza, os percursos rotineiros entre a casa e o trabalho.

“A escultura deve servir como veículo de encanto e de Humanidade e criar um anseio de beleza, ajudando à evolução das pessoas, a caminho de uma harmonia social”, disse o artista, quando apresentou o projecto de uma escultura que viria a ser conhecida como “Monumento à Humanidade”, na capital do Bié. Bernardes deixou fixada a marca indelével do seu buril virtuoso no rosto de várias cidades angolanas.

O “Monumento à Aviação” instalado na praça defronte ao edifício do aeroporto do Lobito enaltece a audácia e o espírito de conquista do homem face ao desconhecido. Por seu turno, o “Caminhando”, que se situa numa das suaves encostas da Colina da Saudade, com vista privilegiada para a baía e para o porto, convida à exaltação dos valores simples da vida, no fundo tão importantes como as mais inquietantes interrogações existenciais.
O monumento foi considerado obra notável de engenharia, inteiramente executada no Lobito e exclusivamente com recursos técnicos locais. Os trabalhos de fundição foram realizados nas oficinas do Caminho-de-ferro de Benguela, comandados pelo engenheiro Alberto Soares Ribeiro. Foi necessária muita ousadia, até se conseguir suspender, no pedestal, apenas por uma das coxas, um cavalo com 6,30 metros de comprimento, do focinho até à cauda, pesando quase duas toneladas. Tal só foi possível por meio de uma barra de aço embutida inusitadamente na estrutura em bronze. O autor queria ir além de Milles, na escultura “Pégaso”, na qual o cavalo rompante é sustentado por um matacão de bronze colocado no centro.

O artista recorreu ao cavalo como símbolo de transporte. E fê-lo, não como em “Centauro” ou “Pégaso”, tampouco em formato de flecha ou tapete voador, como nos contos infantis das “Mil e Uma Noites”. Mas sim, como um foguetão, pesado e metálico: “ A montada teria de vencer a gravidade e mover-se para o infinito, arrastando no dorso o Homem, que o comanda”.
Correndo, num galope desenfreado, o animal é domado por um destemido cavaleiro. Com uma só mão, pousada sobre o seu dorso, o homem dirige a montada para o Oeste desconhecido. Cavalo e cavaleiro vão voando do Lobito para o mar, roçando a crista altaneira de uma vaga oceânica. Uma placa brilhante regista para a posteridade: “Aos homens que, depois do mar domado, querem o infinito”.

“Caminhando”, por seu lado, embora nada tenha a realçar no que se refere à técnica empregue, mostra-nos um conjunto familiar: duas mulheres na lida diária, com balaios à cabeça, levando pela mão um garotelho a saltitar. Uma das mulheres apresenta o ventre proeminente, na certeza de que, com a maternidade, contribuirá para a continuação da espécie humana. Observado à distância, o grupo, em silhueta, destaca a harmonia da família, a vida vivida na simplicidade e na dignidade.

A escultura tem 2,40m de altura e foi executada em cimento de produção local, tendo custado na época uns simples 15 contos. Foi mandada executar pelo capitão Alves Aldeia, ao tempo presidente da Câmara Municipal do Lobito, que vira uns dias antes a maqueta do projecto. Despertaram-lhe atenção aqueles rostos, sem olhos, sem nariz e sem orelhas, pessoas anónimas que povoam um mundo sem desigualdades sociais. O presidente da câmara não hesitou em mandar, de imediato, executar a obra.

“Caminhando” remete-nos para um súbito refrear no egoísmo, uma quebra na jactância de uma pretensa superioridade de uns sobre outros homens. Contemplando a singela silhueta projectada contra o sol poente, invade-nos um irreprimível desejo de compreender os outros como eles são, de sentir a sua mão na nossa, contentes de não mais nos sentirmos sós. Era esse, no fundo, o desejo do insigne escultor.

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