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Aumenta o número de meninas grávidas

António Gonçalves| Benguela

A responsável da sala de pré-natal do Centro Materno Infantil do Dispensário de Puericultura de Benguela, Florença Bimbi, revelou ao Jornal de Angola que das cerca de 50 mulheres que todos os dias acorrem àquela instituição sanitária, mais de metade são adolescentes com idades entre os 13 e os 17 anos.

Porque implica alterações no organismo da mulher o estado de gravidez deve ser assumido com muita responsabilidade
Fotografia: Fernando Oliveira

A responsável da sala de pré-natal do Centro Materno Infantil do Dispensário de Puericultura de Benguela, Florença Bimbi, revelou ao Jornal de Angola que das cerca de 50 mulheres que todos os dias acorrem àquela instituição sanitária, mais de metade são adolescentes com idades entre os 13 e os 17 anos.
A maior parte das adolescentes, particularmente as que têm relações com jovens da sua faixa etária, quando questionadas sobre como engravidaram, apenas respondem, com um encolher de ombros, que "aconteceu", afirma Florença Bimbi, acrescentando que as outras adolescentes assumem que têm na gravidez um projecto de vida, particularmente aquelas que engravidam com homens que, pela idade, podiam ser seus pais ou até mesmo avós.
Referindo-se à primeira consulta das adolescentes grávidas, diz que "a maioria delas aparece no Centro acompanhada por amigas que já têm filhos, outras pelas mães ou até mesmo sozinhas. Há casos em que os pais se apercebem da gravidez precoce das filhas através de outros familiares, pois a maior parte das adolescentes, umas por ingenuidade e outras para evitar maiores constrangimentos, preferem calar-se ou confidenciar a amigas", refere. 
"Quando cá chegam, são sempre as pessoas que as acompanham que tomam a dianteira. São elas que vêm ter connosco, quer sejam amigas ou familiares, e nos colocam a questão relacionada com a sua acompanhante", adianta Florença Bimbi, para quem o trabalho do Centro consiste em verificar se a gravidez é um facto, para depois se passar ao aconselhamento das consultas e sobre como devem, doravante, proceder.
"Aos pais, sobretudo à mãe, quando é ela que acompanha a filha adolescente, aconselhamos a não a maltratarem, nem a irritarem, e cuidarem do seu estado, para evitar que surjam consequências piores".
Para além do aconselhamento sobre a gestação, o Centro realiza diariamente palestras sobre a malária durante a gravidez, doenças sexualmente transmissíveis e planeamento familiar. Os técnicos também se preocupam em dar conselhos sobre o parto. "Dizemos às adolescentes para nunca realizarem o parto em casa ou em postos médicos duvidosos, para o fazerem nos centros materno-infantis existentes nos locais de residência ou para se dirijirem à maternidade do Hospital Central", afirmou Florença Bimbi.
 
"Aconteceu…"
 
Edmy Joelma, 17 anos, estudante da oitava classe, grávida há quatro meses, referiu, constrangida, à reportagem do Jornal de Angola, que não era sua intenção engravidar tão cedo. Questionada se o namorado assumia a gravidez, confirmou que sim, e avançou que o seu estado é do conhecimento de ambas as famílias. A jovem disse que muitas vezes não consegue ir para a escola por causa da preguiça que sente.
"Os meus pais, ao princípio, ficaram muito chateados comigo, mas depois tudo passou. Eles insistem que eu devo continuar a estudar mesmo assim, mas impedem-me de ir à escola quando me sinto mal", revelou. Edmy Joelma deixa um apelo às outras raparigas da sua idade para terem cuidado com a prática do sexo, para não engravidarem muito cedo. Aconselha o uso de preservativos, e, melhor ainda, a abstinência.
Adalgisa Raposo, também de 17 anos, grávida há sete meses, é estudante da 11ª classe do curso de Energia e Instalações do Instituto Médio Industrial de Benguela. A exemplo de Joelma, afirma que ficou grávida por acaso. "A princípio a minha família reagiu mal, mas agora já está tudo bem", disse. 
Mais à vontade, Adalgiza deixa um apelo às garotas da sua idade. "Tenham mais cuidado ao relacionarem-se com alguém. E sempre que o fizerem, utilizem o preservativo para evitar uma gravidez precoce", concluiu a adolescente que, no próximo ano, pensa concluir o curso médio e ingressar na Faculdade de Engenharia, ou optar por um emprego, caso a situação o exija. 
 
Abandono escolar
 
O abandono da vida estudantil é uma das consequências da gravidez precoce, mas a pior de todas é o risco de morte da jovem mulher. Segundo Conceição Canga, responsável da área de saúde reprodutiva da Direcção Provincial de Saúde Pública, esse tipo de gravidez, face à idade e ao desenvolvimento hormonal da adolescente, é de alto risco e, em muitos casos, "conduz à morte da gestante no momento do parto e à da criança logo a seguir".
Para o especialista em ginecologia obstetrica, Adão de Barros, a gravidez acarreta consigo transtornos psicológicos, pelo facto da adolescente ser, na maior parte das vezes, obrigada a abandonar a sua carreira estudantil. "Nessa altura surgirão igualmente transtornos hipertensivos, face à ausência dos cuidados que uma mulher deve prestar à evolução da gravidez, coisa que uma adolescente não tem em conta". Acrescentou que podem, ainda, surgir anemias e outras situações que podem causar um parto prematuro. "Nessa fase, o seu comportamento nutricional tem de ser diferente, pois deve alimentar-se adequadamente, para que o feto na sua cavidade uterina receba os nutrientes necessários para proporcionar um desenvolvimento regular", acrescentou o médico.
A especialista em saúde reprodutiva da Direcção Provincial da Saúde Pública, Conceição Canga, refere que uma das causas da gravidez na adolescência tem a ver com o facto dos adolescentes nada saberem sobre o desenvolvimento dos seus órgãos sexuais e terem pouca informação sobre a sexualidade em geral. "Pensam que namorar é apenas manter relações sexuais, nem sabem que é possível namorar sem manter relações sexuais ou então manter relações sexuais de forma protegida".
De acordo com a socióloga Marinela Sendala, a pobreza é um factor que propicia a gravidez na adolescência, "uma vez que uma mulher nessa faixa etária, diante de um aliciamento, não está preocupada com os riscos, tendo em conta que, igualmente, não teve uma educação à altura dos riscos que poderá correr". A partir da altura em que a adolescente engravida, refere a socióloga, "o convívio com as suas amizades deixa de existir, primeiro por complexo e depois porque, face à sua condição de grávida, ela não poderá participar em tudo o que os outros estiverem a fazer. Perante essa situação, surge a desistência da escola, o que transforma a sua vida diferente da das pessoas da sua idade e algo menótona, ou seja, transformar-se-á numa adulta precoce, decorrente da sua gravidez igualmente precoce".
 
Educação sexual nas escolas
 
A introdução da disciplina de educação sexual no currículo escolar é vista por todos como uma necessidade, incluindo os próprios adolescentes. A responsável do departamento provincial da Família e Promoção da Mulher, Maria do Céu, lembrou que no passado, nas escolas, houve uma abordagem superficial das questões da sexualidade. "Apesar do tema ter tido alguma abordagem na disciplina de educação moral e cívica, foi sempre de uma maneira superficial. Devia-se evoluir, uma vez que aquilo que os alunos aprendem serve apenas para obterem notas nessa disciplina". 
A abordagem profunda sobre a sexualidade nas escolas serviria, segundo Maria do Céu, para dotar os adolescentes e jovens de conhecimentos que lhes permitam cuidar-se no seu relacionamento com os seus parceiros do sexo oposto.
Do seu ponto de vista, os pais, além de deverem saber com quem andam os filhos, "devem igualmente preocupar-se em saber o que eles fazem, o que lêem, a que programas de televisão assistem".
Conceição Canga faz ainda questão de sublinhar que a tentativa de aborto por parte das adolescentes, como forma de reparar o erro cometido, é altamente desaconselhável.  A socióloga Marinela Sendala considera que a família não deve encarar a educação sexual como um tabu. De acordo com a especialista, se a família não tiver capacidade para tratar os assuntos relacionados com este tema, corre o risco de ver os seus filhos adolescentes a incorrerem em erros como a gravidez precoce. 
Os próprios pais devem ser orientados sobre a forma de educar os seus filhos, diz ainda. "Há crianças que no período da manhã devem ir para a escola, mas permanecem até altas horas a ver televisão. Há também casos de pais que vagueiam noite fora com as crianças em festas e restaurantes, quando elas deveriam estar a dormir. É um comportamento que deve merecer a atenção da sociedade".

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