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Centro de reabilitação de jovens está na forja

Jesus Silva | Lobito

Mulheres toxicodependentes, alcoólicas e prostitutas vão dispor, nos próximos tempos, de um centro de reabilitação e formação profissional da Remar da Catumbela, cujo projecto já está na administração municipal e governo provincial de Benguela.

Jovens da Remar descarregam um donativo de bens alimentares e industriais destinado a minimizar as dificuldades de um dos centros
Fotografia: Jesus Silva | Catumbela

Mulheres toxicodependentes, alcoólicas e prostitutas vão dispor, nos próximos tempos, de um centro de reabilitação e formação profissional da Remar da Catumbela, cujo projecto já está na administração municipal e governo provincial de Benguela.
Carlos Moniz, responsável das relações públicas da Remar do município da Catumbela, adiantou que o centro vai ter capacidade para albergar cerca de 300 jovens e contar com salas de aula e cursos de culinária, decoração, corte e costura, lavandaria, entre outros.
Mais de 200 jovens dependentes, provenientes de várias províncias, já foram recuperados neste centro, que está disponível para receber mais pessoas que “necessitem de ajuda espiritual, para abandonarem vícios nefastos à sociedade, cujos padrões não se coadunam com uma convivência pacífica”.
Carlos Moniz, hoje na faixa etária dos 50 anos, é um exemplo vivo das pessoas reabilitadas pela Remar. Durante vários anos consumiu drogas pesadas (cocaína e crack), que fizeram dele um dependente total. Perdeu tudo: dignidade, honra, dinheiro, saúde, família, trabalho e a confiança de toda a gente.
Hoje, recuperado, não quer sequer recordar as vicissitudes por que passou durante a época em que foi toxicodependente. Como agradecimento à Remar, tornou-se o elo de ligação entre o Centro e as entidades singulares e empresas, que regularmente fazem doações de bens alimentares e industriais, para a sustentabilidade do internato.
“Esta é a minha dádiva para com Deus, por ter iluminado o meu caminho para a cura e salvação, e tem sido o apanágio da maioria das pessoas que por aqui passam e saem sãs e prontas para se inserirem novamente na sociedade, depois de terem vivido momentos de turbulência”, explicou.
A maior parte dos jovens que se dirigem à Remar em busca de auxílio fazem-no por não aguentarem mais o sofrimento por que passam, que vai desde o espancamento, prisão e desprezo de que são alvos, tanto da sociedade como até mesmo dos próprios familiares.
“Nos momentos em que mais precisam da ajuda familiar esta lhes vira as costas”, sublinha.
Carlos José, terceiro responsável da casa, de 30 anos e proveniente do Kwanza-Sul, diz que não tem palavras para agradecer as boas acções da Remar para recuperar pessoas perdidas.
Ex-alcoólico, hoje convertido num dos pregadores principais da palavra de Deus no templo da instituição da Catumbela, promete tudo fazer para tirar do mundo da perdição o maior número possível de pessoas, além de acompanhar a terapia ocupacional dos jovens.
“Drogas, álcool e tabaco tornam-se um vício e é uma compulsão obsessiva que parece invencível, mas sabe-se que a melhor maneira de se ficar livre dos vícios é não começar a consumir esse tipo de substâncias tóxicas, que exercem alguma atracção, porque fazer uso desses produtos é como morder uma fruta bonita por fora e podre por dentro”, alerta Carlos José.

Assistência à criança

Carlos Moniz aguarda o apoio de pessoas de boa vontade, governo da província de Benguela, administração municipal, instituições estatais e privadas para que a Remar consiga concretizar os seus projectos, como a ampliação e apetrechamento do centro, com todos os requisitos que levem a uma completa reabilitação dos jovens e à sua reinserção social.
Presentemente, encontram-se no Centro de Acolhimento Juvenil da Catumbela cerca de 90 jovens em regime de internato, um número que chega aos 150, sobretudo no final de cada ano.
O centro está também a prestar assistência a 36 crianças envolvidas em problemas de droga (estimulantes, depressoras e perturbadoras do sistema nervoso central), abandonadas pelos familiares e filhos de pessoas desfavorecidas.
Cláudio Figueira, de 10 anos, é natural de Luanda e está na Remar há sete meses. Por ser traquinas e desobediente, foi internado no Centro pelo próprio pai, enquanto Cesário Antunes Simão e Daniel Muteka, de 6 e 10 anos, de Benguela, foram levados para o centro por incapacidade financeira dos pais.
No total, 22 menores frequentam aulas da iniciação à 6ª classe na escola do primeiro ciclo 4 de Fevereiro, na periferia do centro. Alguns familiares visitam-nos, outros nem se preocupam, deixando as crianças à mercê da instituição.
De acordo com Carlos Moniz, na conjuntura actual, o desmoronamento de uma família, causado pela separação dos pais ou a morte dos progenitores, e o desprezo dos parentes mais próximos tem causado muitos transtornos, sobretudo a falta de afecto.

Madrinha do centro

Carlos Moniz enalteceu a mulher do governador da província de Benguela, Esmeralda da Cruz Neto, que, sempre disponível e incansável, tem desenvolvido inúmeras acções para a sobrevivência do Centro da Remar da Catumbela.
Nos momentos difíceis, acrescentou, Esmeralda da Cruz Neto tem sido a salvação do Centro, sobretudo quando se esgotam os stocks alimentares.
“Ela é hoje uma autêntica madrinha do Centro, pois tem dado todo o apoio possível, desde géneros alimentícios a industriais, que muitas vezes nos permitem aguentar durante seis meses ou mais, ou dizendo-nos palavras de encorajamento, para o prosseguimento da nossa nobre missão, que é a de ajudar as pessoas mais desfavorecidas”, revelou Carlos Moniz.
Além disso, o governador Armando da Cruz Neto também se dispôs a adquirir uma carrinha para o transporte de bens para a instituição e prometeu visitá-la brevemente, para traçar estratégias que melhorem o seu funcionamento.
A Remar da Catumbela é uma Organização Não-Governamental Cristã Evangélica, adstrita ao Corpo de Messias, sem fins lucrativos. Acolhe jovens envolvidos no consumo de álcool, drogas e na prostituição, e conta com financiamentos da empresa petrolífera Esso Angola, segundo Carlos Moniz.
Fundada pelo sacerdote espanhol Miguel Dias, em 1982, em Madrid (Espanha), gere centros cristãos de ajuda e reabilitação, que se dedicam a resgatar grupos em risco de marginalização e de exclusão social e à reintegração na sociedade de toxicodependentes, alcoólicos, prostitutas, crianças abandonadas ou doentes.
A actividade da Remar em Angola começou em 1996, em Luanda, e desde então não parou de crescer.
A Remar conta com a ajuda de voluntários, empresários, do Ministério da Assistência e Reinserção Social e da Espanha.
Em Angola, o pároco Luís Filipe é o director-geral da Remar e o seu representante para a África Austral, segundo Carlos Moniz.
A Remar Internacional, acrescentou, possui filiais em mais de 68 países, reabilitando pessoas que vivem sob alguma dependência química ou psíquica.

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