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Chuva faz mais vítimas

Jaime Azulay| Benguel

As autoridades confirmam cinco mortos nas inundações de ontem em Benguela. Buscas prosseguem para encontrar pessoas desaparecidas. Equipas técnicas trabalham para a reposição do dique do rio Lengue, que cedeu à pressão da água e originou a enxurrada que alagou as margens do Cavaco.

As águas das fortes chuvas que se abatem sobre as cidades do Lobito e Benguela arrastaram tudo o que encontraram no seu caminho e voltaram a causar prejuízos
Fotografia: Jaime Azulay

As chuvas vão prosseguir nos próximos dias, informa o Instituto Nacional de Meteorologia.
Às primeiras horas de ontem começava a desenhar-se uma nova tragédia na província de Benguela: milhares de pessoas iniciavam uma fuga desesperada das áreas inundadas da periferia da cidade, na sequência de uma chuva torrencial que castigava teimosamente o litoral centro desde o final da tarde do dia anterior.
Era gente e mais gente a correr do bairro do Calomburaco e Pecuária com as parcas imbambas que podiam transportar à cabeça e nas mãos. Procuravam refúgio e abrigo em zonas altas, ao longo do tabuleiro da ponte sobre o rio Cavaco, no morro da igreja de Nossa Senhora da Graça e no Largo da Peça. Todos fugiam da fúria das águas provenientes das montanhas, na zona do Capelongo.
Por volta das quatro da manhã, no meio do desespero dos pais que procuravam pelos filhos, os gritos de mulheres chorando os maridos desaparecidos, a nossa reportagem conseguiu chegar à ponte sobre o rio Cavaco. No meio do caos causado pelo formigueiro humano, era difícil trabalhar. Apenas ouvíamos gritos de desespero, clamando por socorro. Todas as pessoas falavam numa enxurrada que arrastava tudo no seu caminho e estava agora a aproximar-se da cidade.
Com a experiência dos acontecimentos ocorridos há15 dias no Lobito, onde morreram mais de 70 pessoas durante as inundações, os responsáveis de diversos sectores de bairros situados nas duas  margens do rio Cavaco, ordenaram a evacuação dos habitantes para o morro da Nossa Senhora da Graça, Estádio de Ombaka e a ponte sobre o rio Cavaco. Ali ficaram a salvo.  “Às duas horas da manhã fomos avisados, começámos a sair das casas e a andar, foi isso que evitou que morresse muita gente, mas alguns teimosos não quiseram deixar os bens”, desabafou Nacita, que encontrámos no meio da multidão acampada na relva da  Rotunda da Ponte. As pessoas lamentavam ter deixado todos os seus haveres, porque “não houve tempo para mais nada”, acrescentou Nacita.
 
O colapso do dique
 
Só mais tarde a dimensão do desastre foi anunciada na Rádio Benguela na voz do presidente das Cooperativas Agrícolas, Manuel Monteiro: rompeu-se o dique do rio Lengue, que em princípio devia canalizar as águas para o leito do Cavaco. O Lengue é um rio sazonal e apenas na época das chuvas recebe as águas de diversos cursos irregulares que se localizam entre Catengue e  Uche.  No Lengue foi construída uma represa para reter as águas ­pluviais, com o fim de aproveitá-las para irrigação do Vale do Cavaco.
O dique não foi suficientemente forte para suportar a pressão gerada por horas consecutivas de chuva torrencial. Assim começou o dilúvio que atingiu o seu ponto alto a meio da manhã de ontem. Toda a zona da cintura verde de Benguela tinha ficado submersa, destruindo milhares de hectares de culturas, habitações, cemitérios, árvores, tudo. Nada era capaz de fazer parar a torrente de água e destroços, que atravessou a cidade de Benguela, ao ponto de inundar alguns sectores do Hospital Provincial, próximo à praia do Quioche. Os prejuízos são imensos e só dentro de dias podem ser contabilizados.
Uma desgraça nunca vem só, diz a sabedoria popular. As más notícias espalham-se rapidamente. Um cemitério semi-clandestino, no bairro Capululu acabava de ser varrido pela enxurrada e as sepulturas destruídas. “Existem caixões a serem arrastados pelas águas e até corpos em decomposição”, disse Didi Chilumbu aos microfones da Rádio Benguela,que durante os acontecimentos manteve uma emissão ininterrupta com informações de grande utilidade para os benguelenses.
 
Estrada cortada
 
Com os primeiros raios da manhã, a chuva tinha cessado completamente, após horas seguidas a cair. A nossa reportagem rumou para a zona Sul da cidade, uma área constituída por aglomerados populacionais recentes, de onde chegavam notícias preocupantes do transbordo do rio Uche. Havia notícias do desmoronamento de uma passagem hidráulica, instalada numa rede de estradas recentemente asfaltadas e que constituem o principal eixo de mobilidade de milhares de pessoas que habitam os novos bairros de Benguela Sul.  Muitas viaturas estavam paradas nas bermas e as pessoas olhavam incrédulas para a destruição ocorrida de madrugada. Todos se queixam do prejuízo que adivinham para os próximos dias. Chegar aos postos de trabalho no centro da cidade e no Lobito é mais difícil, se não houver uma intervenção pronta, a fim de se restabelecer a circulação nesta faixa.
Ao circularmos pela via rápida de acesso à estrada nacional que liga às províncias da Huila e do Huambo, o cenário revelava a destruição causada pelo impacto das águas que arrastaram todo tipo de detritos. No meio da via e nas bermas vários troncos de árvores, chapas e lixo. Estávamos a aproximar-nos do Bairro Miramar.
Com água pelos joelhos, um homem apontou-nos um automóvel que tinha sido arrastado pela corrente até ficar pendurado no meio da vegetação. Foi neste local que nos deparámos com um grande corte na estrada que impedia a passagem de qualquer veículo, nem sequer as motorizadas dos conhecidos kupapatas.
“A causa dessa desgraça são as árvores grandes que existem no leito do rio. Aqui podem passar cinco anos sem chover, mas quando chove, a água arrasta as árvores que destroem tudo pelo caminho”, disse à nossa reportagem Fernando Correia, um industrial de camionagem. Pela sua experiência, disse que as árvores deviam ser retiradas e o leito do rio ser desassoreado com regularidade para impedir que durante a época chuvosa a água transborde.
Pelo cenário que encontrámos na passadeira que liga as zonas populosas do Miramar e Calombutão, pareceu-nos ser elementar a explicação. A força da água arrancou as árvores e arremessou-as contra as manilhas da passadeira, obstruindo-as, o que fez aumentar a pressão da água até ao seu rompimento. Até aqui não tínhamos tido notícias de nenhuma morte confirmada. Várias famílias procuravam desaparecidos que não tinham chegado a casa durante a noite. As pessoas vasculhavam os entulhos de terra e vegetação.
No sector do Asseque do Bairro “17 de Setembro” encontrámos o primeiro óbito. Uma estudante de 16 anos, de nome Glória Chafunda, saiu de casa para a escola na tarde anterior. No regresso, foi surpreendida pela chuva torrencial e não conseguiu mais chegar a casa.
Amigos e voluntários tinham conseguido resgatar o corpo da menina no meio dos destroços. O pai, Avelino Palanca, estava inconsolável. “Passámos toda a noite a ligar para o telemóvel dela mas não atendia, temos azar na família, ainda na semana passada enterrámos a minha tia no Cubal”, disse o pai entre soluços.
Nada se podia fazer pela infeliz menina de 16 anos que estudava no Colégio Dom Bosco do Casseque e que sonhou um dia ser alguém. A força destruidora da natureza não permitiu que concretizasse o seu sonho de menina.
 
 Cinco mortos

“Confirmamos cinco mortes das inundações em Benguela”, disse o administrador Leopoldo Muhongo, durante um encontro com os jornalistas, ao início da tarde de ontem.
“As vítimas são pessoas que tentaram atravessar o rio Uche, no período em que se registou a cheia”. Acrescentou que as operações de resgate prosseguem.
Leopoldo Muhongo revelou que a grande prioridade é a reparação do dique do rio Lengue, para que “na eventualidade de mais chuvas a água seja canalizada para o rio Cavaco e não em direcção à cidade”.
O Instituto de Meteorologia e Geofísica anunciou a previsão de chuvas fortes em praticamente todo o país.

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