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Estátuas resistem ao tempo na "sala de visitas" de Angola

Jaime Azulay | Benguela

Lobito é um destino turístico por excelência. A cidade está implantada numa baía natural com dois quilómetros de comprimento e 1400 metros de largura.

A estátua
Fotografia: Paulo Mulaza

 Lobito é um destino turístico por excelência. A cidade está implantada numa baía natural com dois quilómetros de comprimento e 1400 metros de largura. Aqui está situado um dos principais portos da costa ocidental de África, o Porto Comercial do Lobito. No interior da baía, as águas são calmas e propícias à prática de desportos aquáticos.

Praias extensas estendem-se de um e doutro lado de uma restinga de areia com dois quilómetros de extensão que entra mar dentro em direcção a Norte. Nesta zona privilegiada, foi implantado o aglomerado urbano no qual pontificam exemplares de arquitectura únicos, que atestam a presença colonial portuguesa nesta região de África e igualmente a influência dos mestres ingleses que no início do século XX participaram na construção do porto e do Caminho de Ferro de Benguela.
Muitas pessoas ignoram que um dos motivos que proporcionou ao Lobito o pomposo título de “sala de visitas de Angola” passa hoje quase despercebido. Na cidade do Lobito encontramos um conjunto de estátuas que resiste ao tempo, transpondo milagrosamente as vicissitudes vividas pelo país desde a proclamação da independência nacional, em 1975, até à obtenção da paz definitiva no ano de 2002. Sem obedecer a qualquer critério de importância podemos apresentá-las: “Caminhando”, “Monumento à Aviação”, “O Homem do Lomango”, “O poeta”, “A Sereia dos Trópicos”. São obras de arte que permanecem como imagens de grata contemplação.
As estátuas têm a assinatura de um engenheiro português, Canhão Bernardes. Escultor autodidacta de rara sensibilidade começou a fazer escultura, por entretenimento, aos 42 anos. Viveu no Lobito até à década de 70 do século passado. Com a inesperada eclosão da guerra civil, ele rumou para o Brasil e por lá se mantém, segundo informações que recolhemos e que, infelizmente, não pudemos confirmar. Canhão Bernardes deixou espalhado no Lobito e nas províncias do Kwanza-Sul e do Bié, o testemunho de seu extraordinário talento. Ao todo, tinha 14 obras em locais públicos até ao ano de 1972.
Na época estava em voga encher as praças públicas com heróis colocados em pedestais. Canhão Bernardes partilhava da opinião que, ao fomentar-se a escultura em lugares públicos, não deveria ser com a imposição de heróis. Estes, volta e meia são derrubados, em consequência da queda dos regimes e sistemas que simbolizam. Para Canhão Bernardes, a escultura devia significar algo mais para as pessoas, cujos itinerários se vão cruzando ao longo da vida. Um meio de aliviar, através da beleza, os percursos rotineiros entre a casa e o trabalho.
“A escultura deve servir como veículo de encanto e de Humanidade e criar um anseio de beleza, ajudando a evolução das pessoas, àa caminho de uma harmonia social”, disse o artista quando apresentou o projecto de uma escultura que veio a ser conhecida como “Monumento à Humanidade” na capital do Bié. Canhão Bernardes deixou fixada a marca indelével de seu buril virtuoso no rosto de várias cidades angolanas.
O “Monumento à Aviação” instalado na praça defronte ao edifício do aeroporto do Lobito enaltece a audácia e o espírito de conquista do homem face ao desconhecido. A escultura “Caminhando”, que se situa numa das suaves encostas da Colina da Saudade, com vista privilegiada para a baía e para o porto, convida à exaltação dos valores simples da vida, tão importantes como as mais inquietantes interrogações existenciais.
Na época, o “Monumento à Aviação” foi considerado obra notável de engenharia, inteiramente executada no Lobito e exclusivamente com recursos técnicos locais. Os trabalhos de fundição foram realizados nas oficinas dos Caminhos-de-Ferro de Benguela comandados pelo engenheiro Alberto Soares Ribeiro. Foi necessária muita ousadia, até se conseguir suspender, no pedestal, apenas por uma das coxas, um cavalo com 6,30 metros de comprimento do focinho até à cauda e pesando quase duas toneladas. Tal só foi possível por meio de uma barra de aço embutida na estrutura em bronze. O autor queria ir além de Milles na escultura “Pégaso”, na qual o cavalo rompante é sustentado por um matacão de bronze colocado no centro.

O cavalo voador

O artista recorreu ao cavalo como símbolo de transporte. E fê-lo, não como em “Centauro” ou “Pégaso”, nem tampouco em formato de flecha ou tapete voador como nos contos infantis das mil e uma noites. Mas sim como um foguetão, pesado e metálico: “A montada teria de vencer a gravidade e mover-se para o infinito, arrastando no dorso o Homem, que o comanda”.
Correndo num galope desenfreado, o animal é domado por um destemido cavaleiro. Com uma só mão, pousada sobre o seu dorso, o homem dirige a montada para o Oeste desconhecido. Cavalo e cavaleiro vão voando do Lobito para o mar, roçando a crista altaneira de uma vaga oceânica. Uma placa brilhante regista para a posteridade: “Aos homens que, depois do mar domado, querem o infinito”.

Mãos dadas à vida

“Caminhando”, embora nada tenha a realçar no que se refere à técnica empregue, mostra-nos um conjunto familiar, duas mulheres na sua lide diária, com balaios à cabeça, levando pela mão um garoto a saltitar. Uma das mulheres apresenta o ventre proeminente, na certeza de que, com a maternidade, vai contribuir para a continuação da espécie humana.
Observado à distância, o grupo escultórico, em silhueta, destaca a harmonia da família, a vida vivida na simplicidade e na dignidade.
A escultura tem 2,40 m de altura e foi executada em cimento de produção local, tendo custado na época uns simples 15 contos. Foi mandada executar pelo capitão Alves Aldeia, na época presidente da Câmara Municipal do Lobito, que vira uns dias antes a maqueta do projecto. Aqueles rostos, sem olhos, sem nariz e sem orelhas, pessoas anónimas que povoam um mundo sem desigualdades sociais, levam à meditação. O presidente da Câmara de então, não hesitou em mandar, de imediato, executar a obra.
“Caminhando” remete-nos a um súbito refrear no egoísmo, uma quebra na jactância de uma pretensa superioridade de uns sobre outros homens. Contemplando a singela silhueta projectada contra o sol poente, invade-nos um irreprimível desejo de compreender os outros como eles são, de sentir a sua mão na nossa, contentes de não mais nos sentirmos sós. Era esse, no fundo, o desejo do escultor.

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