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Professores apostam na formação contínua

António Gonçalves | Benguela

 
Em prol das festividades do Dia Internacional do Docente, assinalado no passado dia 3, professores e directores de escola juntaram-se nas instalações do Instituto Médio Industrial de Benguela, para reflectirem, mais uma vez, sobre a sua missão, da qual depende o desenvolvimento da sociedade.

José Januário chefe da Repartição municipal da Educação de Benguela
Fotografia: António Gonçalves|Benguela


 
Em prol das festividades do Dia Internacional do Docente, assinalado no passado dia 3, professores e directores de escola juntaram-se nas instalações do Instituto Médio Industrial de Benguela, para reflectirem, mais uma vez, sobre a sua missão, da qual depende o desenvolvimento da sociedade.
Um grupo coral e teatral do Magistério Primário de Benguela, versado na formação de docentes, fez a abertura do encontro, com a entoação de algumas canções e a declamação de poesias.
 A saudação coube ao chefe da repartição municipal da Educação, José Januário, para quem o professor, no quadro da relatividade da profissão de ensinar, deve continuar com fé, responsabilidade, segurança, no seu papel de intermediador entre a sociedade e as novas gerações.
 Durante a sua intervenção, José Januário solicitou aos docentes nacionais e estrangeiros presentes na cerimónia, a estruturação de uma educação focalizada na satisfação dos alunos, através da melhoria contínua dos processos que constituem a base da aprendizagem dos conhecimentos e valores essenciais à vida em sociedade.
 
Ser alguém na vida
 
“Alguém, há uns anos atrás, quando eu ainda não sabia muito bem o que queria fazer na vida, disse-me que, se eu me esforçasse, poderia ser alguém na sociedade”.
 Foi desta forma que Pedro Loureiro, docente de nacionalidade portuguesa, ao serviço da Escola do Magistério Primário de Benguela, começou a sua reflexão, como forma de partilhar com os profissionais da educação nacionais e estrangeiros presentes ao acto, a responsabilidade que pesa sobre o docente.
 Para a pessoa que se dirigiu a Pedro Loureiro, “ser alguém na vida” é ter um papel importante na sociedade, que o respeitaria por isso, porque, para a mesma pessoa, “ser professor é ser alguém na vida”.
  “Sou professor e, então, sou alguém na vida, mas penso: sou apenas um simples professor. Como eu há milhares. Não descubro curas para doenças, não invento novas tecnologias. Não sou cientista. A internet e os novos meios de comunicação veiculam qualquer conhecimento e eu nem sequer ganho bem”.
Pedro Loureiro diz que pensar nisso e desta forma incomoda-o, porque fica com a ideia de que afinal não é assim tão importante. Mas, ao fim de algum tempo de reflexão, dá-se conta que a pensando desta forma estava a pensar muito ao de leve e a observar a questão sob um prisma errado, pois em vez de nos preocuparmos em encontrar respostas no que os outros são e fazem, devemos olhar para nós e reflectir no que somos e fazemos.
 Pedro Loureiro convidou os seus colegas a reflectirem sobre o seu desempenho como docentes, educadores e seres humanos, sobre as suas capacidades científicas, pedagógicas e didácticas, a forma como se relacionam com os alunos, colegas e a sociedade.
 Como conclusão, Pedro Loureiro refere que um título académico de pouco serve se não procurarmos ser cada vez melhores no que fazemos.
Para ele, nem tudo num professor são apenas conhecimentos científicos, pois se deve acrescer as relações humanas. “Quando, no final da nossa carreira, olharmos para o que fizemos, poderemos dizer que fomos úteis à sociedade e dizer em consciência que fomos alguém na vida”, concluiu a reflexão.
 
Espaço de interacção

O director provincial da Educação, Joaquim Pinheiro, considera que, tendo em conta o princípio segundo o qual o título académico nada vele se não procurarmos ser cada vez melhores no que fazemos, apelou aos docentes a transformarem a sala de aula num espaço onde, para além de se interagir com alunos, se interaja com pessoas, para que desta forma se reflicta sobre o ser professor.
Para o responsável, os docentes, particularmente os nacionais, devem aproveitar o período que vai do Dia Internacional do Docente ao Dia Nacional do Educador, que se assinala a 22 de Novembro, para pensar a profissão, com a análise dos resultados, primeiro dos trimestres e depois do ano lectivo.
 Apesar de, no final do ano lectivo, a maior parte dos alunos transitar de classe ou subsistema, Joaquim Pinheiro questiona se as notas que aparecem no certificado ou declaração, emitida pela direcção pedagógica da escola, reflectem competências para a vida.
 Tendo em conta que cada criança que se matricula no seu primeiro ano escolar é um potencial candidato a especialista de uma determinada área do saber, o director provincial da Educação, igualmente, questiona se a escola potencializa essa esperança, ou seja, transforma esse potencial em acto.
 
Formação contínua

 
Um docente, que apesar da sua licenciatura ou doutoramento não adere à formação contínua, não é o docente que o sistema de educação em Angola requer.
Segundo o Estatuto Orgânico da Carreira Docente, a formação contínua transforma-se num dever, que muitos docentes, por se considerarem profissionais formados no tempo colonial ou hoje licenciados ou mesmo doutorados por grandes universidades, chegam a questioná-la.
Para o director provincial da Educação, muitos desses docentes deixam-se ultrapassar pelo tempo e um dia serão ultrapassados pelo sistema, pois “se não tivermos professores que aprendem a aprender e aprendem a ensinar, não teremos professores, do mesmo modo que, se não tivermos directores exigentes para com o professor, relativamente à sua formação e a planificação da sua actividade, para exigir cada vez maior e melhor desempenho, nunca teremos uma boa qualidade de ensino em Angola, uma vez que tudo isso exige que haja professores de qualidade e directores com responsabilidade”.
 O director provincial da Educação, que reconhece haver professores cuja permanência no sistema de ensino requer uma reciclagem, adverte ser necessário pensar no professor que temos e no que necessitamos.
 E como passou a ser hábito reflectir sobre a educação apenas de 5 de Outubro a 22 de Novembro, Joaquim Pinheiro recorreu ao estadista norte-americano, John Kennedy, para dizer que “não perguntemos ao país sobre o que ele deve fazer por nós, mas perguntemos a nós próprios sobre o que devemos fazer pelo país”.
O director provincial da Educação recorreu igualmente a Agostinho Neto, que celebremente citou um dia que “coloquei pedras nos alicerces do mundo, mereço o meu pedaço de pão”, em síntese, o responsável diria que “não peçamos pão antes do trabalho, porque dinheiro aparece apenas antes do trabalho no dicionário”.

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