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Vale do Cavaco entregue à construção anárquica

Sampaio Júnior| Benguela

A cintura verde de Benguela está a desaparecer. O Vale do Cavaco, onde se produziam grandes variedades de produtos, com destaque para a banana, conhece agora um forte movimento de homens e máquinas que estão a construir edificações urbanas.

Em Benguela e um pouco por todo o país a ocupação anárquica de terrenos tem dado lugar a bairros degradados
Fotografia: Jornal de Angola

A cintura verde de Benguela está a desaparecer. O Vale do Cavaco, onde se produziam grandes variedades de produtos, com destaque para a banana, conhece agora um forte movimento de homens e máquinas que estão a construir edificações urbanas. Aquele que era um dos principais pólos agrícolas da província está invadido por bairros residenciais, armazéns e outras unidades comerciais. 
O Executivo apostou no relançamento do sector agrícola e por via de fundos públicos, geridos por bancos comerciais, concede milhares de dólares norte-americanos a produtores agrícolas de pequeno e médio porte. O programa de concessão de créditos de campanha tem beneficiado os pequenos produtores familiares organizados em associações e cooperativas.
Mas os milhares de famílias que viviam das culturas agrícolas no Vale do Cavaco têm a vida cada vez mais dificultada. O Vale do Cavaco, que já foi o principal produtor de banana em Angola, está irreconhecível para quem conhece a sua história de esplendor agrícola. A transformação acontece às claras, aos olhos das entidades que deviam superintender aquela cintura verde.
Os agricultores teimosos, que ainda resistem à actual invasão, queixam-se da retirada de inertes das margens do rio Cavaco, cujo transporte é feito em camiões sem cobertura. Com esse tipo de transporte, grandes quantidades de poeira vão para as plantações reminescentes, dificultando o sadio desenvolvimento das mesmas.
O comportamento dos industriais da construção civil já mereceu o veemente repúdio do presidente da Associação dos Agricultores de Benguela, Manuel Monteiro, que efectuou investidas junto do Governo Provincial de Benguela. As coisas, porém, continuam na mesma.

O rio secou

Foi com a produção do Vale do Cavaco que Angola exportou banana, no período anterior à Independência. O Cavaco alimentou os mercados de Luanda e de outras cidades, por altura do conflito armado. Está difícil acreditar que hoje o Vale do Cavaco está entregue a máquinas retro-escavadoras e picaretas e aos apetites da gente do ramo imobiliário.
O rio Cavaco tem característica intermitente. A estiagem que a região viveu afectou duramente o fluxo de água subterrânea, que irrigava toda a extensão de terra cultivável.   
Benguela hoje está sem as rosas de porcelana, sem a banana seca do  Ginha Faro. Secou a nascente do rio e aos poucos acabou a cintura verde do Cavaco.
Os terrenos foram ocupados anarquicamente e seguiu-se a febre da sua venda ilegal. O verde esperança do campo deu lugar ao betão armado, a produtividade agrícola entrou em decadência e os consumidores deixaram de contar com a antiga fonte de produtos agrícolas de qualidade. 
Toneladas de alimentos, que antes eram produzidos no perímetro agrícola, deixaram de fluir para o mercado de Benguela e não só. Benguela e Lobito passaram a ser abastecidos predominantemente a partir dos municípios do interior e das províncias do Huambo, Huíla, Bié e da República da Namíbia.
Actualmente, o que o Cavaco produz só serve para a subsistência familiar. O remanescente é vendido às quitandeiras. “Os produtos da cintura verde do Cavaco eram vendidos de forma fluida, sem transtornos. Agora temos adversário. O cliente pretende, primeiro, saber se o produto é nacional ou estrangeiro.   Este tipo de pergunta, por vezes, torna-se incómoda”, disse a vendedora Maria Joaquina.  
Jone Cachapa, 35 anos, disse à reportagem do Jornal de Angola que o perímetro agrícola do Cavaco “já foi uma pérola do campo em Angola”. “Tínhamos, no Vale do Cavaco, um grupo de frutas que mandávamos como oferta aos nossos familiares em Luanda e noutros pontos do país e do mundo, por altura da quadra natalícia. Agora a nossa banga acabou, temos de comprar fruta, hortícolas e outros produtos”, lamentou.
Jone Cachapa acrescentou que antigamente o vale também servia para o lazer. “Da cidade, íamos passar o fim-de-semana no Cavaco, onde tínhamos mil e um atractivos. Apresentávamos as plantas aos filhos e amigos, caçávamos rolas e outros pássaros. Encontrávamos no local momentos reconfortantes para uma vida saudável, livres do stress próprio da vida urbana”.  
No Cavaco era possível produzir quase todo o tipo de culturas agrícolas ao longo dos 12 meses do ano. Legumes, musgos, rosas e mesmo as ervas mais simples, para não falar do cartão postal que era a banana, faziam parte da lista dos produtos cultivados no chão do Cavaco. A isto acrescentamos a goiaba, a manga, a batata-doce, o milho e o feijão.
A morte do perímetro agrícola do Cavaco é também a morte de todo um mundo carregado de simbolismo, presente na memória de várias gerações e que foi tão bem sublinhado por poetas da terra como Carlos Gouveia (Góia). Parafraseando o falecido poeta, quando voltarão os sonhos de menino perdido nas hortas do Cavaco, na caça implacável aos seripipis e janjans, no meio das espinheiras e amendoeiras em flor, com as gajajas amarelinhas em cachos a baloiçar na árvore da Vida?

Produção do algodão

A província de Benguela prepara-se para relançar a produção do algodão e, com isso, reactivar a indústria têxtil e proporcionar milhares de postos de trabalho à juventude local.
Em declarações ao Jornal de Angola, o presidente da Associação dos Agricultores de Benguela, Manuel Monteiro, disse estar seguro de que o relançamento da produção do algodão trará um forte impacto à economia da província.
Acrescentou que os empresários ligados ao ramo da agricultura aguardam, com grande expectativa, pelo arranque do programa de cultivo do algodão. Disse que, com o cultivo do algodão, milhares de famílias no campo vão sair do desemprego e também vai proporcionar o regresso de muitos jovens ao campo.
O líder associativo apontou múltiplas vantagens para os empresários dos sectores da camionagem e do comércio, que aguardam por uma oportunidade para desenvolverem as suas actividades, criando assim mais empregos e aumentando o poder de compra das pessoas.
“Com a produção do algodão em grande escala, não há dúvidas de que surgirão novos pólos de desenvolvimento nos domínios da agricultura e da indústria”, disse Manuel Monteiro.   
De acordo com o empresário, o programa de relançamento da produção do algodão vai ser um sucesso, já que se espera que o parceiro do projecto, o Japão, traga para a efectivação do programa tecnologia de ponta.
“O sector camponês na província de Benguela vai ganhar muito com o programa de relançamento do cultivo do algodão, devido ao emprego de milhares de famílias na execução dos projectos”, afirmou.  
A nossa fonte adiantou que a implementação do projecto do algodão vai ser acompanhada por acções de formação. “No campo existe muita mão-de-obra, maioritariamente jovem, que vai aprender a lidar com as novas tecnologias”, salientou.  
Com a produção do algodão em Benguela, Manuel Monteiro assegurou que vão estar criadas as condições para a reactivação da fábrica África Têxtil, paralisada há muitos anos.
Manuel Monteiro garantiu que o programa do Executivo, de revitalização do sector algodoeiro no país, que já arrancou no Kwanza-Sul, vai abranger milhares de hectares de terra, mas alertou que para o seu êxito é necessário que sejam criadas todas as condições de abastecimento técnico e material, “para que o algodão tenha qualidade e seja competitivo no mercado”.     

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