Províncias

A esperança renasce em cada novo dia

Filipe Eduardo |

A esperança dos jovens da cidade do Andulo, província do Bié, ávidos de ganhar a vida de forma honesta, renasce todos os dias. Cada um à sua maneira, dirigem-se para os habituais locais do ganha-pão, logo de manhã cedo. Estão disponíveis para prestar um serviço qualquer, entre kupapata, carregador de bagagem, vendedor ambulante ou outra actividade. Algo que lhes permita aguentarem-se enquanto aguardam a oportunidade de um emprego digno ou uma vaga na escola, para prosseguir os estudos interrompidos pela guerra.

Angariar mais um cliente não obedece à ordem de chegada do kupapata mas sim à rapidez de cada um deles
Fotografia: Jornal de Angola

A esperança dos jovens da cidade do Andulo, província do Bié, ávidos de ganhar a vida de forma honesta, renasce todos os dias. Cada um à sua maneira, dirigem-se para os habituais locais do ganha-pão, logo de manhã cedo. Estão disponíveis para prestar um serviço qualquer, entre kupapata, carregador de bagagem, vendedor ambulante ou outra actividade. Algo que lhes permita aguentarem-se enquanto aguardam a oportunidade de um emprego digno ou uma vaga na escola, para prosseguir os estudos interrompidos pela guerra.
Com um capacete azul na cabeça, atento ao frenético movimento dos companheiros que descem e sobem as ruas do Andulo com mais um passageiro, Luís Sondjanga acaba de chegar no local onde habitualmente apanha os passageiros que leva ao seu destino. No local, estão também seis companheiros à espera. Angariar mais um cliente não obedece à ordem de chegada do kupapata, mas sim à rapidez e ao “galanteio” do taxista, aliados à preferência do passageiro.
Sondjanga acedeu a falar com a reportagem do Jornal de Angola, mas sob a condição de não perder muito tempo e interromper o diálogo caso apareça um passageiro, porque, diz o jovem que aparenta ter 20 anos, um segundo é suficiente para perder uma “fezada”.
Estudante do Instituto Normal de Educação, alimenta a esperança de vir a ser professor dentro de três anos. Enquanto isso não acontece, trabalha como kupapata para pagar os estudos, uma vez que o seu pai possui outros filhos menores. 
A motorizada de marca KTM foi comprada por 85 mil kwanzas e Sondjanga agradece o apoio dado pelo pai, lamentando o facto de muitos jovens não poderem exercer essa actividade por não possuírem sequer dinheiro para comprar a motorizada.
Na sua opinião, os bancos deviam ajudar os jovens que têm vontade de trabalhar. Grande parte dos kupapatas tem um patrão ao qual prestam contas, entregando-lhe semanalmente cinco mil kwanzas. 
Há dois anos a trabalhar nesta actividade, diz que o negócio rende, sobretudo para aquelas pessoas que trabalham o dia inteiro.
No seu caso, entra em acção às 12h30, após as aulas. Em geral, não tem problemas com os passageiros e o segredo para isso é ser compreensível, porque onde se ganha dinheiro há sempre problemas. Pela corrida, o jovem cobra cem kwanzas, mas há quem pague 50 quando a distância é curta. Tudo passa por uma conversa prévia para evitar complicações.
“Nós que desenrascamos e aqueles que esperam por oportunidades temos todos esperança de uma vida melhor mas, enquanto isso, devemos pautar-nos por um comportamento digno”, afirma o jovem Sondjanga, para quem a esperança continua acesa. 
Kupapata, termo em língua nacional umbundo, provém da palavra upapata, que significa revistar ou vasculhar nos bolsos. A designação surge, segundo a explicação de Sondjanga, devido a um movimento comum de todos os clientes dos moto-taxistas que, ao chegarem ao destino, descem e depois vasculham, quase sempre, nos bolsos, à procura de dinheiro para pagar. Os clientes nunca sabem ao certo onde está o dinheiro, upapata (procuram) sempre e daí o nome de kupapata, a pessoa que sempre vasculha.

Levar o produto ao consumidor

Eugénio Kassola, sentado no encosto do banco, aguarda, no largo da Marinela, pelas últimas empreitadas. São 18h00, altura em que as senhoras saem do mercado e solicitam os seus préstimos e dos companheiros, para transportarem algumas mercadorias, para fechar o dia. No total, 1.500 kwanzas foi quanto amealhou o jovem durante a jornada de trabalho, que começou por volta das 6h00.
Apesar do dia de trabalho ainda não ter terminado, Kassola diz que as coisas não correram bem, talvez por ser segunda-feira. Admitiu que, por norma, a esta hora do dia, amealha qualquer coisa como dois mil.
“Os preços estão quase estabelecidos. A grade de cerveja ou gasosa custa 30 kwanzas, pelo saco de cimento, arroz ou de açúcar, cobramos 200, mas tudo pode variar em função da distância”, disse. Jorge Miguel trabalha há cerca de dois anos como carregador de mercadorias e o seu local de concentração é o largo da Marinela, onde os clientes vão contactá-lo sempre que precisam dos seus préstimos.
A conversa com a reportagem do Jornal de Angola decorria de forma animada. De repente, o jovem saltou do banco, pegou no seu carro de mão e pôs-se a correr. Minutos depois, Jorge estava de regresso. Explicou que tinha sido chamado por uma cliente que pretendia transportar 30 sacos de cimento.
“O meu dia vai começar bem amanhã’, afirma o jovem que esfrega as mãos de contente. Com 27 anos, que se confundem no tempo e no sofrimento, Eugénio Kassola, que actualmente vive com os pais no bairro Silva, a escassos metros do largo da Marinela, tem o sonho de ter um bom emprego, para depois ter mulher.
Diz que aos clientes com os quais trabalha nunca deixou de apresentar a sua preocupação e acredita que pelos contactos feitos, ainda este ano o sonho de conseguir melhor ocupação será realizado. “Tenho esperança que as coisas vão melhorar”, afirma o jovem que aprecia uma cerveja em lata.

 

Tempo

Multimédia