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Época chuvosa anima agricultura

Miguel Gomes | Cuito

É uma capital de província onde a actividade económica demonstra sinais de enorme estagnação e falta de oportunidades. As ruas do Cuito estão cheias de semáforos funcionais mas poucas viaturas. São as crianças, os jovens estudantes e a vida administrativa que seguram o dia-a-dia. Mas as verdadeiras oportunidades estão na agricultura.

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Fotografia: Fernando Cunha Edições Novembro

Já não são visíveis os prédios e as casas derrubadas pela força do desentendimento que virou guerra civil. A cidade-mártir já renasceu e agora chega a fase de cuidar do que está feito e programar o que está por vir. 

Desde o início de Setembro já caíram duas boas e promissoras cargas de água - a última aconteceu de sábado para domingo - quando estamos no início de mais uma campanha agrícola.
Não havendo indústrias nem os grandes investimentos privados ao nível da prestação de serviços (até porque não há poder de compra no mercado local) a prioridade deve estar no desenvolvimento agrícola e na interligação logística com outras províncias (Huambo, Benguela, Moxico, Cuando Cubango). Depois de terem sido investidos mais de 70 milhões de dólares para recuperar a cidade dos escombros no pós-2002, o processo de desenvolvimento entrou em estagnação, sobretudo depois de 2004. A crise económica e financeira que o país vive limita as perspectivas de futuro.
Um dos maiores problemas é a falta de estradas, dizem-nos, ainda que algumas ligações com os municípios estejam operacionais, o que acaba por limitar o progresso económico na região.
Factores como o Caminho-de-Ferro de Benguela, historicamente importante no último século e que atravessa a província, não têm grande impacto na vida dos 1,7 milhões de habitantes do Bié (mais de 550 mil pessoas vivem no município do Cuito).
São ainda poucas as viagens que a empresa ferroviária disponibiliza entre os diversos pontos estratégicos ao longo da linha. Mesmo assim é um cenário mais agradável do que a paralisação total do serviço, como aconteceu durante uma boa parte do período de conflito militar.
Chegar à sede do município do Cuemba, por exemplo, pode representar cerca de 5 horas de carro para um percurso de 160 quilómetros. Chega-se bem ao Andulo apesar de um ou outro incoveniente pelo caminho.

Só o comércio resiste
Não é fácil encontrar um restaurante ou acomodação de boa qualidade e preço justo na cidade do Cuito. Acabada a era dos grandes investimentos públicos para restaurar a vida normal, sobrou apenas o pequeno comércio em forma de cantina ou mini-mercado e o comércio de materiais de construção.
Fora deste contexto só mesmo uma ou outra excepção, como a abertura, em Dezembro de 2018, de um hotel de três estrelas na capital provincial.
Até no mercado municipal, no centro da cidade, é por estes dias difícil de encontrar produtos frescos. Sobra a banana, a jinguba, algumas tangerinas de preço elevado, a melância, as ramas e o tomate. Há mais bancadas de produtos acabados do que frescos. Também regista-se pouco movimento de clientes para uma segunda-feira a meio do mês.
Apesar dos escombros terem desaparecido dos olhares mais atentos, muitos dos edifícios antigos - a cidade foi fundada, oficialmente, em 1935, mesmo que a presença humana seja bem anterior - continuam a necessitar de cuidados intensivos. Alguns prédios viram o andar térreo recuperado mas os restantes pisos continuam tracejados pelas balas e outros projécteis.
O prédio mais alto da cidade ainda deve ser o Gabiconta, agora quase totalmente recuperado e habitado.
Não havendo redes funcionais de transportes públicos, ganham as motorizadas e os táxis colectivos - com prejuízo para os cidadãos, que chegam a pagar 2500 kwanzas por pessoa apenas para chegar à cidade do Huambo, a pouco mais de 150 quilómetros do Cuito.

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