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Instalações da Ombala Belmonte em avançado estado de degradação

José Chaves | Cuito

As instalações da Embala Belmonte, na cidade do Cuito, no Bié, construídas há 178 anos, estão abandonadas e encontram-se em avançado estado de degradação, com relatos de moradores dos bairros Ombala e Hoje Ya Henda a lamentarem a vandalização do espaço.

Fotografia: DR

Várias pessoas contactadas pelo Jornal de Angola afirmaram que as autoridades competentes devem recuperar a infra-estrutura, para que possa voltar a contribuir no desenvolvimento cultural.
A população apela ao Governo Provincial, através da direcção provincial da Cultura Turismo Juventude e Desportos, a recuperação urgente da Embala Belmonte, um dos postais da cidade do Cuito, que turistas nacionais e estrangeiros deviam visitar para conhecer a história da antiga cidade de Silva Porto. A Embala Belmonte deu origem à actual cidade do Cuito, num pacto de fidelidade com a Ombala de Ekovongo, antiga capital do reino VIYE.
O espaço, indicam relatos da população, “está permanentemente ocupado por marginais e aloja, a tempo inteiro, várias actividades nada recomendáveis”, como afirma Fernanda Gamo, moradora do bairro Embala, há mais de 30 anos.
Maria Sofia denunciou que, regularmente, grupos de 30 ou mais pessoas aparecem no local para saquear o pouco que resta nos edifícios construídos dentro do recinto da ombala. “Estes grupos vêm sempre dispostos a levar qualquer objecto” afirmou, acrescentando que “no local, o muro de protecção está danificado e os portões vandalizados, diversos objectos deixaram de existir e só se ouve o coaxar das rãs e o zumbido dos mosquitos e meninos a brincar”.
Os escritórios e balneários foram transformados em casas de banho públicas. Actualmente, é difícil utilizá-los, devido aos dejectos ali existentes, que deitam um cheiro nauseabundo. Com os portões vandalizados e sem ninguém para os assegurar. Os vidros, janelas e portas estão danificados.
A Ombala Belmonte beneficiou de obras de reabilitação em 2003, enquadradas no Programa Especial Mínimo de Reconstrução do Cuito (PEMIRC), aprovado pelo Governo, visando repor a antiga imagem da capital biena.
A via de acesso à embala encontra-se completamente danificada e os moradores do bairro passam por dificuldades nos dias de chuva, principalmente para chegarem ao centro da cidade. As dificuldades aumentaram nas artérias não asfaltadas e com buracos.
O director do Gabinete Provincial da Cultura, turismo, Juventude e Desporto, Domingos Nilton Capama, disse que o Governo tem ajudado a reconstruir as infra-estruturas que foram danificadas durante o conflito armado. “É justo que o Estado dê apoio total à reconstrução de diversos edifícios. Cabe aos moradores e à população preservar esses bens, para o benefício de todos.”

Instalações centenárias

A Ombala Belmonte, que deu origem à antiga cidade de Silva Porto, foi construído há 178 anos, num acordo de fidelidade entre os nativos do reino do Viyé e o sertanejo Silva Porto(europeu). Durante este período albergou vários sobas e regedores e é o símbolo do poder tradicional.
O complexo possui uma área aproximada de 2000 metros quadrados. O recinto está rodeado por árvores de eucalipto e molembeiras e possui uma estufa. Antigamente existiam no local várias plantas.
Várias famílias bienas tinham o local como ponto de lazer, devido às condições que lá existiam: era o lugar ideal para a realização de “passeios”. Vários estudantes aproveitavam o espaço para estudar. Os casais tinham um local ideal para namorar e trocar juras de amor.
A ombala possui igualmente um forte que se encontra abandonado. Actualmente, alguns crianças que residem nos bairros circunvizinhos à ombala, designadamente os bairros Hoje ya Henda, Cangoti e da Rua Cidade de Luanda, transformaram o recinto em campo de futebol.
Durante as manhãs e período da tarde várias crianças, com idades compreendidas entre os cinco e quinze anos, fazem do local a seu campo de de futebol.

Sobas da região clamam
pela devolução da Embala

As autoridades tradicionais da província do Bié clamam pela devolução da embala de Silva Porto (Poloto), situado no bairro Embala, arredores da cidade do Cuito, sob tutela do Governo, há mais de oito anos.
O soba Afonso Vity afirmou que a infra-estrutura, que sempre pertenceu às autoridades tradicionais da região, foi-lhes retirada pelo Governo em 2005, depois da sua recuperação.
Precisou que, terminadas as obras, em 2010, as entidades governamentais decidiram, temporariamente, colocar a funcionar no local o sector da Cultura e um gabinete da Policia Nacional.
“Estamos sem instalações para resolver os problemas do Direito Costumeiro da província, daí que urge a necessidade da devolução da antiga embala, com vista também a conferir maior dignidade ao Poder Tradicional nesta parcela do país”, sublinhou.
A administradora municipal adjunta do Cuito, Angela Ucuenhanga, interpelado para pronunciar-se sobre o assunto, reconheceu as dificuldades que passam as autoridades tradicionais para o exercício da sua actividade, tendo prometido envidar esforços no sentido de se devolver a infra-estrutura aos sobas.

Um retrato escrito da província

A província do Bié situa-se no Centro-Sul de Angola. A cidade do Cuito é a capital, também conhecida por cidade invicta, devido ao cerco que sofreu em 1993-94, após a realização das primeiras eleições multipartidárias em Angola.
Bié possui nove municípios (Cuito, Cunhinga, Catabola, Camacupa, Cuemba, Chinguar, Chitembo, Andulo e Nharêa) e uma superfície 70.314 quilómetros quadrados.
A população, estimada em dois milhões de habitantes, é maioritariamente camponesa, sendo os produtos mais cultivados o milho, feijão, café, arroz, bata rena e doce, trigo e a massambala.
As línguas mais faladas são o português, umbundo, tchokwe, nganguela, luimbi e songo. O clima é tropical húmido e de altitude, com duas estações: chuvosa e seca A temperatura média anual é de 19 graus Celsius.
A flora e a fauna são diversificadas. A província possui uma rede hidrográfica extensa, com destaque para os rios Kwanza, Luando, Kunhinga e Cunene.
Joaquim Kapango é o nome do aeroporto do Cuito. Existem cinco linhas rodoviárias, que ligam a província ao Huambo, Cuanza-Sul, Cuando Cubango, Malanje e Moxico.Pereira Alfredo é o actual governador provincial.

Fundação da Ombala

António Francisco Ferreira da Silva Porto nasceu no Porto, Portugal, a 24 de Agosto de 1817 e morreu, segundo alguns historiadores, entre 31 de Março a 1 de Abril de 1890. Foi um comerciante e explorador português que se notabilizou no interior de África. Durante décadas foi o único europeu que as populações do planalto do Bié conheciam, porque muito antes dos exploradores europeus atravessarem a África já se tinha estabelecido como comerciante em pleno sertão angolano.
A sua experiência foi preciosa para os comerciantes e aventureiros que depois demandaram o interior de Angola. Foi figura icónica do colonialismo português em Angola, dando o nome à cidade de Silva Porto (Angola), a actual cidade de Cuito. Tendo fixado residência entre os Ovimbundo, no reino do Bié, aí fundou a Ombala Belmonte (1841), onde criou uma grande “família” e viu crescer os filhos.

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