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Missão do Chicumbi clama por reabilitação

José Chaves| Andulo

A Missão católica do Chicumbi, localizada no município do Andulo, província do Bié, é considerada uma das maiores em extensão da África Austral e carece de reabilitação das  infra-estruturas. Várias individualidades, que exercem diversas actividades em diversos ramos e sectores do país, tiveram a sua formação nesta missão pertencente à Igreja católica.
Situada a 13 quilómetros da cidade do Andulo, com uma extensão de 5000 quilómetros quadrados, antes da independência a missão era habitada por 90.000 pessoas, das quais 60 por cento católicas, uma grande parte de cristãs evangélicas e restantes pertencentes a outros credos.
Zona planáltica de anhara, de transição para altas montanhas com terrenos para criação de gado, agricultura e até cultivo de algodão, a localidade é atraente para o turismo. Ainda por explorar a bacia hídrica do rio Kunhinga, tem grandes cursos de água para irrigação e construção de barragens hidroeléctricas. Actualmente habitada por poucas pessoas, as suas estruturas clamam por uma reabilitação completa para poder mostrar as suas capacidades anteriores. Em tempos idos já foi considerada principal “celeiro” de quadros do planalto central.

A estrutura
 
É uma obra grandiosa que deixa estupefacto o visitante. Na sua construção tudo obedeceu a um projecto geral que se executou a pouco a pouco. Ao centro, a enorme igreja em tijolo denominada “burro”. A infra-estrutura é composta por missão feminina, com escolas, internatos, hospital e casa do curso doméstico (obra das noivas), residência dos missionários, dos professores, internatos e pavilhão de aulas. Em acabamento, o último pavilhão escolar, estando lançados os alicerces do grande pavilhão polivalente gimnodesportivo, edifícios modernos, cheios de luzes e bem arejados, palácios de vidro, de causar inveja em qualquer grande cidade. Os grandes edifícios corresponderiam a grandes obras de formação cristã e promoção social. Por tudo isto, a missão era para os bispos a “menina bonita” e para a Administração a “sala de visitas da cidade do Andulo”.

Promoção humana e educação
 
Sempre primou a Missão por levar o ensino às populações. Sem instrução/educação não há desenvolvimento. Por isso, levou-se a escola a toda zona e uma grande rede escolar possibilitou o acesso de todas as crianças ao ensino sem discriminação. Havia uma grande prática de vida cristã pela recepção do sacramento, baptismo, confissões, comunhões, casamentos, grande concorrência nas festas de Natal. Na Páscoa era cuidada a formação cristã com reuniões e retiros. A pastoral de presença era o segredo da animação cristã, com visitas dos missionários, programadas ao longo do ano, à comunidade.

 Responsáveis da Missão apostam na reabilitação

O padre Estêvão Mukinda, responsável da direcção da Missão, está a dar os primeiros passos rumo à reabilitação deste “gigantesco” empreendimento.
Nesta primeira fase estão em reabilitação quatro estruturas: o hospital da Missão de Chicumbi, cujas obras estão no fim, a Casa de Formação Feminina, Escola do I Ciclo e o Magistério Feminino.
As obras, a cargo de duas empresas locais de construção civil, a Sombreiro Comercial e a Secanjo e Filhos, num financiamento do Governo Provincial do Bié, estão num ritmo lento. A Missão católica do Andulo carece de apoios da sociedade para recuperar completamente esta majestosa infra-estrutura social que pode contribuir para o desenvolvimento da província e do país em geral.
 O padre Estevão Mukinda afirmou à reportagem do Jornal de Angola que a instituição está aberta a todas as pessoas de boa-fé e parceiros sociais que queiram ajudar na reconstrução deste empreendimento. “A igreja está aberta para receber apoios de pessoas singulares, instituições estatais e privadas”.
 O sacerdote lamenta o facto de algumas pessoas se distanciarem da Igreja católica mesmo sabendo que ela desempenha um grande papel na construção da sociedade. Desta forma, aconselha a que as pessoas se aproximem junto da instituição religiosa para que em conjunto possam levar avante o projecto de reconstrução da Missão católica do Andulo.
A reabilitação das infra-estruturas, em destaque o hospital e escolas, vai ajudar a melhorar a assistência médica e inserir todas as crianças no sistema normal de ensino, podendo assim contribuir para a formação profissional de vários jovens espalhados neste imenso e belo país.
 
Hospital da Missão  foi reabilitado

 
O hospital da Missão foi o primeiro edifício a ser completamente reabilitado. Actualmente, as obras de recuperação já estão concluídas, aguardando apenas pela sua reinauguração. Entra em funcionamento em Fevereiro de 2011. Com as obras que decorreram num período de três anos, foram fechadas fissuras, buracos nas paredes, colocadas novas portas, janelas, tecto e instalados sistemas de iluminação e água canalizada.
Com nova pintura, a estrutura está a proporcionar uma imagem agradável de se ver. O hospital possui banco de urgência, consultórios para as especialidades de obstetrícia e puericultura, farmácia, salas de medicina para homens e senhoras e pediatria. Tem capacidade para 50 camas. 
O hospital da Missão de Chicumbi nesta fase funciona em instalações provisórias. A assistência sanitária é assegurada por uma médica e apenas dois técnicos médios. As doenças respiratórias, hipertensão, epilepsia, parasitoses intestinais e paludismo são as mais frequentes na comuna de Chicumbi.
 
Recuperar o tempo pedido
 
O padre Estêvão Mukinda disse que está determinado a recuperar o tempo perdido. “Vamos trabalhar para que a instituição ganhe o protagonismo perdido no tempo, por culpa da guerra fratricida que o país viveu”. Estêvão Mukinda lamenta a guerra que dilacerou o município, em particular e o país em geral. Apesar das dificuldades, o padre promete trabalhar em prol do desenvolvimento e do resgate da mística perdida. “Com a paz definitiva, queremos inverter o quadro. Vamos voltar a ser um dos principais ‘celeiros’ da formação académica e profissional de muitos jovens angolanos”. O responsável da missão disse igualmente que tem em carteira projectos económicos e sociais que visam proporcionar o bem-estar dos habitantes do município.

Mais apoio precisa-se

O padre Estêvão Mukinda disse também que a instituição que dirige precisa de mais apoios da sociedade, dada a sua especificidade, que transcende o âmbito religioso. “É preciso sensibilizar a sociedade para ajudar na recuperação desta magnífica estrutura. A recuperação desta estrutura pode ajudar no crescimento do nosso país. É preciso que não se olhe apenas para a Igreja como único responsável. Todos devemos contribuir com ideias para o seu melhoramento”, exorta. O padre aproveitou para apelar à Direcção Provincial da Cultura e ao Ministério da Cultura para que a Missão seja considerada património nacional.

Localização geográfica
 
A Missão do Andulo fica situada no norte da província do Bié e da Diocese do mesmo nome. Confina a nascente com as Missões Kunhinga e Nharea, poente com a Missão de Calussinga, a norte pelos rios Kunhinga e Kwanza, fazendo estes a divisão com a Missão do Luquembo (da província de Malange e Diocese de Malange), a sul com a Missão do Kunhinga.
A sua configuração é de um triângulo de 70 quilómetros de altura, delimitado por quatro rios: Kune, Kunhinga, Kwanza e Cutato, a 13 quilómetros da cidade do Andulo, na direcção poente, via Andulo-Malange e a dois quilómetros da povoação de Chicumbi, que lhe dá o nome. Ao longo da sua existência transformou-se numa grande referência nacional e internacional. Fundada em 1933, deu grande contributo na formação académica e profissional de vários quadros que estão a servir o país em diversas áreas. Era formado por diversos serviços: religioso, educacional, saúde e formação feminina. Passados 77 anos desde a sua inauguração, a instituição procura resgatar a mística perdida ao longo do tempo, mas as coisas não estão fáceis. Corria tudo de vento em popa mas foi sol de pouca dura, porque após a conquista da independência nacional em 1975, o país enfrentou uma guerra que destruiu parcialmente as principais estruturas da instituição.

Antigos estudantes lamentam o actual quadro da infra-estrutura
 
Maria Teresa Ingrata, funcionária do Ministério de Educação, antiga aluna da Missão de Chicumbi, disse à nossa reportagem que está magoada com o quadro sombrio em que se apresenta a Missão do Andulo. “É doloroso ver este grande empreendimento em mau estado. É preciso que as autoridades de direito ajudem a instituição a recuperar esta Missão para poder contribuir no desenvolvimento do país”, realçou Teresa Ingrata. Palmira Chaves, gestora de empresa, ex-estudante da Missão, disse que a Missão de Chicumbi deve ser recuperada para poder dar o seu contributo na formação de quadros da província e do país. A antiga estudante afirmou que está triste com o grau de destruição que sofreu a Missão.
Por isso, apelou aos órgãos competente no sentido de se recuperar este grande “monstro” adormecido. António Eduardo Chandenguele, professor universitário, outro ex-estudante da Missão católica de Chicumbi, disse estar bastante triste com o cenário de abandono a que está votado o empreendimento.
 O docente realça a importância de se recuperar a estrutura para dar o seu contributo no desenvolvimento educacional de Angola. Para António Chandenguele, a Missão de Chicumbi pode voltar a ser o “celeiro” dos quadros do planalto central.

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