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Cabinda reabilita estradas terciárias

Bernardo Capita | Cabinda

Depois de concluídas as vias estruturantes que ligam a capital da província aos municípios, o governador de Cabinda deslocou-se, no fim-de-semana, a Cacongo, Buco-Zau e Belize para o lançamento do projecto de reabilitação das vias terciárias das aldeias das três municipalidades, inoperantes há mais de 30 anos.

A reabilitação da estrada Quissamano/Catabuanga/Condelito vai estimular a prática da agricultura na região do Buco Zau
Fotografia: Rafael Tati

Depois de concluídas as vias estruturantes que ligam a capital da província aos municípios, o governador de Cabinda deslocou-se, no fim-de-semana, a Cacongo, Buco-Zau e Belize para o lançamento do projecto de reabilitação das vias terciárias das aldeias das três municipalidades, inoperantes há mais de 30 anos.
O acto formal para o início dos trabalhos realizou-se na aldeia Caiguembo, comuna de Miconje (Belize), 200 quilómetros a norte da cidade de Cabinda, com uma cerimónia pouco comum, em que o governador Mawete João Baptista, em vez de colocar a primeira pedra, subiu para um tractor e accionou o botão de arranque, simbolizando, assim, o começo das obras.              
A primeira estrada em reabilitação, cujo troço começa na aldeia de Caiguembo e vai até à povoação de Bulo, numa extensão de 74 quilómetros, está a cargo da empreiteira “Meng Engenharia” e custa aos cofres do Estado 18 milhões de dólares. Os trabalhos incluem desmatação, construção de 56 pontes de pequena e média dimensões, terraplanagem, compactação e colocação de burgau.
Apesar das constantes alterações climatéricas no alto Maiombe, onde mesmo em pleno tempo seco chove, o que pode obrigar à paralisação dos trabalhos, o supervisor das obras, Tolentino Paulo, assegurou que o empreiteiro vai cumprir com o prazo contratual de três meses estabelecido entre as partes.
Para dar maior confiança ao governo e poder honrar o compromisso assumido, Tolentino Paulo disse que foram criadas três brigadas de trabalho, compostas por 50 operários, cabendo a cada uma delas executar 23,5 quilómetros.
Depois de Caiguembo, a delegação governamental, constituída também pelo vice-governador para Área Técnica, António Manuel Gime, e secretários provinciais, dirigiu-se ao município de Buco Zau, onde o governador Mawete João Baptista formalizou, num acto idêntico, o início dos trabalhos de reabilitação da estrada entre as aldeias de Quissamano/Catabuanga/Condelito, numa extensão de 25 quilómetros, intransitável desde 1976.          
Esta empreitada, cujos custos não foram revelados, está a cargo da HAL-Lda, empresa de direito angolano, e envolve igualmente trabalhos de desmatação, terraplanagem, compactação e colocação de burgau. A inoperância da via durante todo este tempo provocou o despovoamento em 14 aldeias, cujas populações, com o início dos trabalhos de reabilitação da estrada, já podem começar a pensar no regresso.
O administrador da HAL-Lda, Herculano Amorim, garantiu tudo fazer para que o trabalho saia com perfeição.
 “Faremos tudo, mas tudo mesmo, para que o governo veja que não fez uma aposta em vão”, frisou.
Sob a responsabilidade da HAL-Lda estão também os trabalhos de reabertura da estrada Dinge/Chivovo/Ngomongo/Tchiluti, numa extensão de 35 quilómetros, com a realização de trabalhos semelhantes às das anteriores vias.
A jornada de trabalho do governador terminou no município sede, tendo procedid na aldeia de Buco Ngoio ao lançamento do projecto de reabilitação do troço que começa naquela localidade, passa por Tchinzazi e vai até à povoação de Ntó, numa extensão de 52 quilómetros.
A estrutura física deste troço vai ser diferente das restantes vias em reabilitação, segundo o presidente do Conselho de Administração da empreiteira EMCICA.
Raul Rocha disse que vai ser introduzida uma nova técnica de terraplanagem, utilizada actualmente na África do Sul, que consiste em aplicar nas estradas situadas em zonas bastante arenosas camadas betuminosas de 30 centímetros de espessura para se evitar o desmoronamento de terras.
“Vamos estabilizar a base com produtos adequados e, posteriormente, fazer a sua impregnação para que resista às chuvas”, afirmou.
Raul Rocha referiu ser muito pouco provável que a conclusão dos trabalhos aconteça antes do período chuvoso, embora a empreitada seja a sul de Cabinda, onde chove pouco em relação à zona norte.

Empresários satisfeitos  

O facto do governo da província adjudicar as obras de reabilitação das vias terciárias a empresas de direito angolano que estão em Cabinda foi elogiado pela classe empresarial local, que vê neste gesto forma de capitalizar as empresas nacionais e de dar emprego a um maior número possível de nacionais.
O empresário Francisco Raul Rocha sublinhou que o empreendedorismo, de que muito se fala no país, passa também por dar ao angolano a possibilidade de realizar obras que o ajudem a fortalecer-se no mercado.
“Apostar no empresário nacional, além de constituir uma mais-valia para a economia do país, traz sempre efeitos multiplicadores, pois quando se concede maior favorecimento ao estrangeiro, este coloca o dinheiro na sua terra, enquanto o cidadão nacional, ganhe pouco ou muito, investe os recursos financeiros na sua terra”, disse.
O presidente do Conselho da Administração da EMCICA, Raul Rocha, considerou excelente a estratégia adoptada pelo governador Mawete João Baptista de adjudicar obras a empresas nacionais que tenham demonstrado capacidade.
Qualquer país que queira caminhar para o desenvolvimento, salientou, tem, necessariamente, de apostar no empresário nacional, sem descurar a parceria estrangeira.   José Maria Mbuca, da empresa “Meng Engenharia”, a quem o governo da província adjudicou a maior quantidade de obras de reabilitação e de construção de estradas, também louvou a iniciativa do governador, tendo pedido à população que critique o que esteja eventualmente a ser mal feito para se melhorar a qualidade das obras.
 “Toda obra feita pelo homem nunca é perfeita, é passível de critica, só Deus é perfeito”, referiu. 
 
Apelo do governador

Mawete João Baptista considerou relevante e prioritário o trabalho de reabilitação das estradas terciárias em toda extensão da província. Parafraseando o regedor da aldeia de Caiguembo, António Gimbe, quando referiu que “estrada significa independência e livre circulação de pessoas e bens”, assegurou que o governo vai continuar a prestar especial atenção ao trabalho de reabertura das vias terciárias, mesmo sabendo que o programa vai consumir avultadas somas em dinheiro.
“O objectivo deste trabalho é encontrarmos a satisfação das populações, pelo que devem cuidar, quer dos equipamentos, quer dos técnicos que estão a executar as obras”, pediu o governador aos populares.    
“Não queremos mais que haja alguém a atacar as máquinas e os operários que se dedicam ao desenvolvimento da província e do país em geral, o que queremos é pessoas com espírito solidário, ajudando em bens alimentares (mandioca, banana, jinguba) os técnicos que estão a trabalhar, sobretudo, no alto Maiombe”, disse.
O governo, adiantou, não pode estar indiferente ao sofrimento das populações, quando estas percorrem diariamente mais de 70 quilómetros a pé para usufruírem da escola, saúde e de outros bens sociais.
 “Estamos aqui para resolver os problemas do povo, nomeadamente os da comunicação e desenvolvimento, daí o nosso empenho no projecto de reabilitação das estradas terciárias”, salientou.
Sem estradas em condições, referiu, não pode haver melhoria de vida das populações porque só com elas é possível levar os serviços sociais básicos às pessoas. 
 “Para colocarmos escolas, hospitais, comércio e outros serviços junto da população é preciso que tenhamos estradas”, lembrou.
Mawete João Baptista referiu que o êxito do trabalho para a reabertura das vias terciárias só é possível com “a colaboração das três empresas de construção civil locais escolhidas pelo governo” para a realizarem as obras.
O trabalho, revelou, está a ser feito sem qualquer pagamento antecipado devido à confiança que os empreiteiros seleccionados têm no governo local e por entenderem que o “programa tem como objectivo principal permitir o regresso às áreas de origem de milhares de populares deslocados”, que vivem nos grandes centros urbanos do país e no estrangeiro.  O governador disse que tem recebido cartas de angolanos residentes no Congo Brazzaville e no Congo Democrático a manifestarem a intenção de regressarem.
“Daí a preocupação do governo em criar as condições para que o seu o regresso se processe sem dificuldades”, declarou.      

Fim do calvário  

“Depois de muito tempo de expectativa, eis que chegou o fim do calvário e a vez das populações da aldeia de Caiguembo beneficiarem de uma estrada em condições para circulação”, disse, ao Jornal de Angola, o regedor António Gimbe, que recordou “as décadas em que a via esteve intransitável, os aldeões andavam quilómetros a pé à procura de assistência médica e de educação ou mesmo carregando à cabeça ou às costas cargas para auto sustento”.
O regedor disse acreditar que, com a estrada em condições, vai ser fácil o governo colocar na aldeia os serviços sociais básicos, como escolas e hospitais, para evitar que as populações, incluindo crianças, continuem a deslocar-se à RDC ou Congo-Brazzaville para receberem assistência médica ou para ir à escola.
“A falta de estradas força a população a recorrer aos países vizinhos por serem localidades mais próximas da aldeia do que da sede municipal, onde existem escolas e hospitais, ou mesmo da comunal”, disse.          
O regedor de Buco Zau, Filémon Matoco Bumba, também considerou o trabalho de reabilitação das vias terciárias imprescindível para o desenvolvimento da região porque, frisou, além de facilitar a circulação de pessoas e bens, torna possível a concretização do programa de realojamento das populações deslocadas.
A administradora municipal de Buco Zau, Marta Lelo, declarou que a reabilitação da estrada Quissamano/Catabuanga/Condelito vai estimular a prática da agricultura, pois os camponeses sem estradas em condições encontravam dificuldades no escoamento dos produtos para os grandes centros de consumo.
“A via de Catabuanga foi destruída em consequência da guerra. Esta regedoria é muito produtiva e com a reabertura da via, acredito que vai aumentar a produção agrícola”, frisou.  

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