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Exploração florestal regista nível baixo

Bernardo Capita | Cabinda

Os níveis de exploração florestal em Cabinda, apesar do garimpo, ainda são muito baixos, comparativamente ao período colonial.

Principal pulmão florestal do país apresenta bons níveis de sustentabilidade na opinião dos ambientalistas
Fotografia: Jornal de Angola

 
Os níveis de exploração florestal em Cabinda, apesar do garimpo, ainda são muito baixos, comparativamente ao período colonial. Na década de 1960, de acordo com uma fonte oficial a que o Jornal de Angola teve acesso, a média de produção era de 160 mil metros cúbicos ano. Hoje, produz-se cerca de 20 mil metros cúbicos ano. “Estatisticamente, o que se tira hoje da floresta do Mayombe oferece muita margem de segurança ambiental e dos próprios recursos florestais”, garantiu a fonte.

O ambientalista Alfredo Gabriel Buza considerou, em Cabinda, preocupante a “falta de conforto ambiental” que se observa em vários projectos habitacionais em curso na província. Segundo ele, a inexistência de estudos de impacto ambiental faz com que os promotores dos projectos imobiliários excluam o lado vegetal, afinal um pressuposto indispensável para a vida humana. 
Alfredo Gabriel Buza, que falava em exclusivo ao Jornal de Angola, acrescentou que pelo facto de não se incluírem espaços verdes nas novas áreas residenciais, a incidência de raios solares sobre as superfícies lisas é maior, provocando uma alteração significativa da temperatura.
“É importante que os projectos arquitectónicos prevejam sempre uma área verde para a protecção da vida humana. Não é aconselhável o que temos visto. Primeiro derruba-se tudo para depois plantar. É errado. Ao conceber o projecto deve-se logo reservar o espaço natural do local, fazendo apenas a multiplicação em termos de arborização”, disse. Para ele, a componente ambiental envolve uma acção multidisciplinar, para a qual é necessária a participação de vários actores sociais. 
Segundo o ambientalista, existem cinco aspectos a considerar na avaliação ambiental, nomeadamente, saneamento básico, recursos hídricos (rios e mares), recursos naturais (exploração petrolífera, florestal e inertes), gestão do solo (terra) e, por último, o conforto ambiental, ou seja, o aspecto ambiente em relação à habitação. Estes cinco aspectos são – garante – fundamentais para analisar a realidade ambiental da província de Cabinda, que considera “normal”, face à preocupação da população e das autoridades locais na preservação do ambiente.
“Apesar dos esforços, há indicadores que nos mostram que a actividade ambiental nesta região ainda é normal”, disse Alfredo Buza, para quem os problemas de desrespeito ambiental, em Cabinda, predominam com maior incidência na área do saneamento do meio. “Por falta de contentores nos bairros periféricos da cidade, a população deposita os resíduos domésticos ao relento, e isso significa má preservação de detritos”.
Ocorrem também irregularidades no domínio da preservação dos recursos hídricos, já que os banhistas, e não só, deitam nas praias os resíduos de produtos que consomem durante o piquenique. “Esse lixo provém das pessoas que usam as praias sem, no entanto, as preservarem. Isso reflecte, por um lado, a falta de consciência ambiental por parte da população e, por outro, a ausência de condições para recolha do lixo existente nas praias”, sublinhou.  As irregularidades também são notórias na utilização dos recursos naturais, pois, por exemplo, às empresas de exploração madeireira não tem sido exigido o reflorestamento das áreas onde abatem as árvores. A taxa cobrada a essas empresas é tão irrisória que não permite ao Instituto de Desenvolvimento Florestal (IDF) efectuar a acção de reflorestamento. E há a considerar, também, a população, que faz uso dos recursos vegetais para uso costumeiro ou comercial sem cumprir os pressupostos necessários.
Gabriel Buza diz que a má utilização dos recursos vegetais é comparável à má exploração dos inertes e outros materiais de construção. “Não são obedecidos os critérios tecnicamente estabelecidos, em termos de reposição, o que põe em perigo o ambiente. Quando se retira a cobertura vegetal cria-se o pressuposto para a existência de ravinas”, afirmou.

Poda de árvores

A poda de árvores em largos e artérias da cidade, que é feita em períodos chuvosos pela Administração Municipal de Cabinda, foi condenada por Alfredo Buza. Para o também engenheiro agrónomo, a poda de árvores que foi feita há poucos dias no Largo do Ambiente foi negativa, “porque impossibilita o processo fotossintético, que é feito por via das folhas, que também foram atingidas pela poda”.
Quem também reprovou o modo como está a ser feita a poda das árvores foi o responsável pelo ambiente da Secretaria Provincial do Ordenamento do Território, Tati Luemba. Segundo ele, a Administração Municipal já foi aconselhada pelos técnicos do IDF, através de um estudo realizado sobre a forma como o processo de poda das árvores deve ser feito. “Muitas podas que são feitas não se enquadram, do ponto de vista técnico, no estudo elaborado pelo IDF”, disse Tati Luemba. 
O ambientalista Alfredo Buza defende que, para maior e melhor aproveitamento dos resíduos sólidos e protecção do ambiente dos efeitos poluentes desses detritos, “é imprescindível a instalação, em Cabinda, de uma indústria de reciclagem multi-funcional”. Essa indústria, na sua óptica, deve estar virada para a reciclagem de papéis e resíduos orgânicos, fundição de ferro (carcaças de viaturas e latas de cerveja), pneus para asfaltagem de estradas, entre outros fins. A ser concretizada, tal indústria não só vai criar mais postos de trabalho, como também vai diminuir a quantidade de lixo colocado a céu aberto e que cria sérios problemas à saúde pública.
“Hoje o tratamento de resíduos sólidos acaba por ser uma mega indústria que propicia emprego a centenas de pessoas”, disse o ambientalista. 
A queima de gás, que ainda se observa na indústria petrolífera angolana, também contribui para a degradação do ambiente. “As consequências derivadas desse processo são notórias, a longo prazo. Por exemplo, a planície de Malembo, situada bem próximo do complexo petrolífero de Malongo, não tem a mesma aparência que ostentava há 30 anos, em termos da presença de vegetação”, referiu Alfredo Buza.
O derrame de petróleo no mar ou em terra é outra das consequências colateralmente negativas da indústria petrolífera. Mas o engenheiro agrónomo e ecologista mostra-se optimista quanto ao futuro. “O próprio Estado está preocupado em controlar as actividades florestais e a frequência dos derrames. Por outro lado, já se trabalha no projecto de reaproveitamento de gás actualmente queimado em plataformas, através do mega projecto “Angola LNG”, em curso no município do Soyo, província do Zaire”.

Projectos ambientais

O responsável do sector do ambiente da Secretaria Provincial do Ordenamento do Território revelou ao Jornal de Angola que o Governo leva a cabo um conjunto de investimentos no domínio ambiental, com realce para o estudo do rio Lucola, principal bacia hidrográfica que sustenta a cidade de Cabinda. O estudo, de acordo com Tati Luemba, visa obter indicadores para a sua requalificação, já que o rio corre sérios riscos de desaparecer, em virtude das construções anárquicas e da poluição com resíduos líquidos (lubrificantes de viaturas). 
Outro projecto que mencionou prende-se com o do aterro sanitário, que muita falta faz à província, uma vez que o lixo produzido pela população é actualmente depositado a céu aberto, em áreas habitacionais. “Essa situação constitui um atentado contra o ambiente”, disse, para justificar a importância de entulhar os resíduos sólidos.
Outros problemas ambientais que inquietam as autoridades provinciais são o avanço das águas do mar nas zonas do Lombolombo e Lucola, a exploração desenfreada de inertes e a agricultura itinerante.

Exploração florestal

A exploração de madeira, feita na floresta do Maiombe, não representa qualquer perigo para o ambiente, uma vez que a actividade é fiscalizada pelo Instituto de Desenvolvimento Florestal (IDF), revelou ao Jornal de Angola o director regional da instituição, Simão Zau.
De acordo com ele, as empresas que exercem a actividade de exploração madeireira são obrigadas, por força da actual lei, a efectuarem um estudo prévio de avaliação do impacto ambiental. Só depois da obtenção da licença ambiental e de exploração florestal, segundo Simão Zau, é permitido aos madeireiros o abate das árvores, de acordo com as espécies e nos perímetros concedidos.
O “garimpo” (exploração ilegal) de madeira, feito por singulares, é apontado pelo director como a principal fonte de devastação florestal, porque “a população abate todo o tipo de árvore que lhe aparece à frente”.
Apesar disso, esclareceu, os níveis de exploração florestal em Cabinda são baixos, comparativamente ao período colonial. Na década de 1960, segundo Simão Zau, a média de produção era de 160 mil metros cúbicos ano. Hoje, produz-se cerca de 20 mil metros cúbicos ano.
“Estatisticamente, o que hoje se tira da floresta oferece muita margem de segurança ambiental e dos próprios recursos florestais”, garantiu.

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