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Fábrica de tijolos eleva a produção

Bernardo Capita | Cabinda

A cerâmica de Sassa Zau, em Cabinda, paralisada há 19 anos, vai começar a produzir 20 mil tijolos por dia, depois das obras e de receber novos equipamentos, num investimento de seis milhões de euros.

Investimento inteiramente público do governo da província permitiu a reabilitação e reequipamento da cerâmica de Sassa Zau
Fotografia: António Soares

A cerâmica de Sassa Zau, em Cabinda, paralisada há 19 anos, vai começar a produzir 20 mil tijolos por dia, depois de ter beneficiado de obras de reabilitação e recebido novos equipamentos num investimento de seis milhões de euros, no âmbito do Programa de Investimentos Públicos (PIP) do Governo Provincial.
A unidade fabril, dotada de alta tecnologia, eleva a sua capacidade de produção para 20 mil tijolos dia, contra os anteriores três mil. O governador Mawete João Baptista, que visitou o empreendimento e ficou satisfeito com a qualidade das obras, reiterou que se trata de um investimento público para servir as populações de Cabinda.
A indústria de materiais de construção em Cabinda começa a dar sinais de renascimento, mesmo depois da falência declarada da fábrica de tintas e da unidade fabril de chapas de zinco onduladas.
Depois de 19 anos de paralisação, a cerâmica de Sassa Zau, vocacionada para a confecção de tijolos, telhas e cumeiras, matéria-prima utilizada em obras de construção civil, foi totalmente reabilitada pelo governo da província e já retomou as suas actividades.
A cerâmica de Sassa Zau tem uma superfície total de 6.500 metros quadrados. Além da nave fabril, o empreendimento tem um refeitório, casa para os técnicos e um edifício administrativo.   
O valor aplicado na recuperação da unidade fabril permitiu também a compra de modernos equipamentos, incluindo dois grupos geradores de energia eléctrica de 550 e 650 KVA para assegurar o pleno funcionamento da fábrica.
José Correia, director técnico da cerâmica, disse à reportagem do Jornal de Angola que a actual produção pode aumentar para 70 mil tijolos dia, já que a unidade fabril está dotada de condições técnicas capazes de elevar a sua produção. Garantiu que tudo depende da concorrência no mercado, um facto que, porém, não teme, em virtude do produto ser de excelente qualidade e com padrões internacionais de qualidade.
A cerâmica situa-se a escassos metros da famosa lagoa de Sassa Zau, principal fonte hídrica que, segundo José Correia, vai sustentar a unidade fabril. Quanto à argila, José Correia disse que esta matéria-prima imprescindível ao fabrico de tijolos está disponível em grandes quantidades na aldeia de Sassa Zau.
“A argila é extraída aqui bem próximo da unidade de produção e pela sua qualidade vai permitir que a unidade fabril produza, além de telhas e cumeiras, três tipos de tijolos e como inovação o mosaico bruto”, explicou José Correia.
O director técnico da cerâmica manifestou a sua satisfação com a conclusão das obras de reabilitação da cerâmica, uma empreitada por si dirigida e que vai trazer de volta emprego aos seus trabalhadores e o sustento para as suas famílias, depois de muitos anos de sufoco.
“A cerâmica tem um dispositivo técnico de ponta que certamente é uma mais valia para elevar e manter as capacidades de produção”, disse José Correia, para quem o segredo do sucesso está no novo sistema de queima de tijolos suportado por equipamentos movidos a gasóleo, contrariamente às modalidades utilizadas no passado, em que o processo era feito em fornos a lenha.
 
Confiança dos trabalhadores
 
O reinício das actividades laborais na cerâmica de Sassa Zau, situada 20 quilómetros a Nordeste da cidade de Cabinda, é para a maior parte dos antigos operários daquela unidade de produção um motivo de grande regozijo.
José Macosso Bussuco, que foi chefe de produção antes da paralisação da cerâmica, disse que a visita do governador Mawete João Baptista e o anúncio da retomada dos trabalhos na cerâmica fez renascer as esperanças de todos os antigos trabalhadores, que escutaram atentamente o governador da província.
“Estamos satisfeitos com a visita do governador, esperamos que o reinício dos trabalhos não venha demorar mais, porque muitos de nós somos chefes de família e vivemos muitas dificuldades durante esse período de paralisação”, disse José Macosso Bussuco, recordando com nostalgia os bons velhos tempos em que chefiou os operários da cerâmica.

Rumores de privatização

O governador da província de Cabinda, Mawete João Baptista, desmentiu rumores postos a circular em Cabinda segundo os quais o dinheiro investido nas obras de reabilitação da cerâmica é de privados.
“O investimento é inteiramente público, o governo da província investiu os recursos, seis milhões de euros, nas obras de reabilitação e reequipamento da cerâmica”, esclareceu Mawete João Baptista, sem afastar a possibilidade do governo estabelecer parcerias com o sector privado para a gestão da cerâmica.
Para o governador Mawete João Baptista, “não podem existir equívocos, mentiras, nem tão pouco espaço para manobras sobre este projecto, que é inteiramente do governo, que investiu seis milhões de euros na recuperação total da unidade e na compra de equipamentos”.
O governador de Cabinda disse que “no âmbito das parcerias público-privadas, vamos estabelecer vínculos com a empresa que dirigiu as obras no sentido dela gerir a unidade fabril, sem comprometer a estratégia do governo no seu programa de fomento habitacional”, esclareceu Mawete João Baptista.
“Os materiais a serem aqui produzidos devem em primeiro lugar apoiar os projectos sociais do governo e a população de um modo geral”, acrescentou.
O governador de Cabinda é de opinião que com o funcionamento da fábrica, Cabinda vai desenvolver com êxito o seu programa de construção de novas habitações, no âmbito do programa nacional de um milhão de fogos habitacionais até final desta legislatura.
“A cerâmica deve arrancar já, vamos acertar com a empresa que a vai gerir os preços a praticar e a autorização para o reinício dos trabalhos”, defendeu Mawete João Baptista, apelando à direcção da empresa que vai gerir a unidade de produção para readmitir os antigos trabalhadores e enquadrar maioritariamente habitantes da aldeia de Sassa Zau por serem vizinhos da cerâmica.
“O grosso de trabalhadores deve ser da aldeia de Sassa Zau, porque empregando a juventude local o governo reduz o desemprego”, disse Mawete João Baptista.
 
Mercado imobiliário

O mercado imobiliário em Cabinda ainda não apresenta sinais de crescimento que garantam aos habitantes da província a compra de casas com recurso ao crédito bancário.
Em Cabinda pouco ou nada existe em termos de oferta habitacional, tirando as casas sociais mandadas edificar pelo governo da província no bairro Cabassango (Vila Olímpica), hoje transformadas em complexo hoteleiro e turístico, e as do Buco Ngoyo transformadas em casas de função.
O sector imobiliário privado praticamente não existe. Os grandes projectos concebidos para a província ficam nas gavetas, por falta de financiamento e pelos altos custos dos materiais de construção, situação agravada pela falta de um porto de águas profundas em Cabinda.  “Aqui tudo chega mais caro”, disse uma fonte da administração local.
A população interessada em ter casa própria faz das tripas coração para construir. As dificuldades começam na aquisição de terreno. Nas áreas consideradas reservas fundiárias do Estado destinadas à autoconstrução dirigida, Buco Ngoyo, Terra Nova e Simindele, a Administração Municipal tem estado a vender lotes de 750 metros quadrados por 150 mil a 200 mil kwanzas, valores considerados “escandalosos” pelas populações locais.
A obrigatoriedade da apresentação do projecto e o croqui de localização, sob pena de não ser emitida a licença de construção, é outro aspecto que inibe o sector da construção em Cabinda.  O fraco poder de compra das populações aliado aos elevados preços dos materiais de construção civil são outras barreiras que se colocam a quem quer construir uma casa digna para viver.
A falta de um porto de águas profundas reflecte-se directamente nos preços de todos os bens de consumo. Os preços dos materiais de construção também são afectados por esse problema. Não tendo outras alternativas para adquiri-los, o recurso tem sido o mercado de Ponta Negra, no Congo Brazzaville, ou o mercado informal local, onde os preços são de arrepiar.
No circuito oficial a oferta é pouca, contrariamente ao mercado congolês e o informal local, onde se pode encontrar de tudo um pouco, desde tintas, chapas, material eléctrico, cimento, madeira, ferro, loiças sanitárias e de cozinha, mosaicos e toda gama de materiais e equipamentos para construção civil.
O saco de cimento é vendido por 1.150 kwanzas, a chapa de alumínio de seis metros de comprimento por seis mil kwanzas, o balde de tinta de 20 litros 5.500 kwanzas, conjunto de loiça de quarto de banho (bidé, sanita, autoclismo, banheiro e lavatório) por 120 mil kwanzas, lava loiça, 19 mil kwanzas, ferro de oito milímetros por 700 kwanzas, a tábua de seis metros de comprimento e 40 de largura varia entre 1.500 e 2.500 kwanzas, o rolo de fio eléctrico de 100 metros e dois milímetros de diâmetro custa 2.500 kwanzas. São preços acima das possibilidades das pessoas que pretendem fazer casas por administração directa. A cerâmica de Sassa Zau vai fazer descer os preços e os consumidores ficam menos sujeitos à especulação.   

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