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Hospital em Cabinda sem especialidades

Bernardo Capita | Cabinda

Os principais serviços de especialidade do Hospital 28 de Agosto, em Cabinda, estão suspensos há um mês devido à rescisão unilateral do contrato de parceria pela empresa sul-africana Shara Traning LLD.

Aparelho de TAC avariado por mau manuseamento decorrente da retirada dos técnicos
Fotografia: Rafael Tati

 

Os principais serviços de especialidade do Hospital 28 de Agosto, em Cabinda, estão suspensos há um mês devido à rescisão unilateral do contrato de parceria pela empresa sul-africana Shara Traning LLD.

O Jornal de Angola constatou, no local, que esta situação faz com que as consultas nas especialidades de imagiologia (TAC e raio X), cardiologia, estomatologia, laboratório de cateterismo, optometria e oftalmologia, as mais solicitadas, estejam suspensas.
Os técnicos sul-africanos, portugueses e egípcios, que asseguravam os serviços, regressaram já aos respectivos países.
A maior parte dos equipamentos médicos, de última geração, instalados há cerca de dois anos, está imobilizada, por os técnicos nacionais não dominarem a tecnologia.
O actual corpo clínico, composto por médicos angolanos e cubanos, assegura apenas os serviços de cardiologia e de medicina geral.
O Hospital 28 de Agosto, unidade sanitária de referência nacional, onde o Estado investiu cerca de seis milhões de dólares para o reabilitar, reequipar e formar técnicos angolanos no estrangeiro, enfrenta uma situação difícil. Os cortes constantes de energia eléctrica danificaram alguns equipamentos médicos.
As razões que levaram a empresa sul-africana a romper o contrato estabelecido com o governo provincial não foram divulgadas, mas o Jornal de Angola soube, de fonte oficiosa, que a rescisão foi provocada pelo atraso na renovação do acordo celebrado no tempo antigo governador Aníbal Rocha. 
O director administrativo do hospital, Rafael Filipe Gime, disse que a unidade sanitária “está a atravessar um dos piores momentos da sua existência”.
Pelas cláusulas do contrato, a firma Shara Traning LLD era responsável pela compra de equipamentos e medicamentos e pela contratação e manutenção de técnicos especializados.
Ao governo, referiu Rafael Filipe Gime, cabia a responsabilidade do pagamento dos salários dos funcionários do hospital e de outros pequenos serviços.
A maior dificuldade do momento, afirmou, está na manutenção dos equipamentos, actividade impossível de ser feita por falta de um técnico especializado.
 “O laboratório de cateterismo e o bloco operatório nunca mais funcionaram por falta de um técnico”, disse, acrescentando que, face à saída dos trabalhadores estrangeiros e à consequente avaria de equipamentos, os serviços de estomatologia e oftalmologia funcionam apenas a 40 por cento da capacidade.
O director administrativo do hospital sublinhou que os 800 mil kwanzas que a unidade sanitária recebe mensalmente do OGE, para despesas de manutenção do imóvel, dão para a compra de materiais de escritório e combustível, pagamento de ajudas de custos, de jardinagem e de outros pequenos serviços, “não servem para nada”.
Rafael Gime declarou que dois milhões de kwanzas eram capazes de permitir o funcionamento normal do hospital durante um mês. 
O Hospital 28 de Agosto é uma das unidades médicas que estiveram ao serviço do CAN Angola Orange 2010. Os seus serviços eram procurados até por cidadãos oriundos tanto da RDC como do Congo Brazzaville.

Apelo ao diálogo

O director clínico Paulo Branda defende o diálogo entre as partes, como forma de “encontrar uma solução, onde, acima de tudo, venham a prevalecer os interesses da população”.
“Tudo é feito na base de diálogo. Peço às partes que cheguem a um consenso, respeitando os contratos, os protocolos, os direitos e deveres, para que a população venha a beneficiar”, disse, manifestando a convicção que, “não tarda, as consultas, principalmente de oftalmologia, vão voltar à normalidade”.
A rescisão do contrato pela parte sul-africana, salientou, está a provocar ruptura de stock dos principais medicamentos. 
O governador Mawete João Baptista visitou, no fim-de-semana, o hospital para traçar estratégias tendentes a inverter o quadro que ele próprio considerou preocupante.
“Encarregamos a direcção jurídica do governo a ocupar-se da questão”, disse. A preocupação, referiu, reside também nos danos que se verificam em alguns equipamentos essenciais para o funcionamento do hospital.
“É um investimento caro, preocupa-nos a vida do hospital e dos equipamentos porque estando tudo a funcionar a saúde da população é cada vez melhor”, lembrou.
Mawete João Baptista garantiu que o governo provincial “não vai ficar de braços cruzados face ao  comportamento revelado pela empresa sul-africana”. 
O governador referiu como saída imediata para o caso, a contratação de médicos especializados angolanos e cubanos.
 “Vamos, em colaboração com o Ministério da Saúde, tornar operacional o Hospital 28 de Agosto”, garantiu Mawete João Baptista, adiantando que o governo “não deve ceder a atitudes de chantagem e de desrespeito pelos acordos institucionais”.
 
Obras no Hospital Central

As obras de reabilitação das áreas de maternidade e medicina geral do Hospital Central de Cabinda, iniciadas há dois anos, avaliadas em cerca de 11,5 milhões de dólares, vão ser entregues no segundo semestre de 2010, garantiu Jorge Madeira, director de obras. 
Neste momento, afirmou, estão a ser instalados o tecto falso, a climatização, o elevador, as portas interiores e a electricidade e a serem construídas as fossas sépticas.
A reabilitação, cuja empreitada já está paga em 50 por cento, tem o objectivo de conferir maior conforto aos utentes, sobretudo às parturientes. O investimento do governo da província no sector da saúde inclui o Hospital 1º de Maio, construído de raiz, com um custo de 5,5 milhões de dólares, e o dispensário materno-infantil, que está a ser edificado.
A construção do dispensário materno-infantil está orçada em cerca de seis milhões de dólares.
No hospital, a ser entregue em finais deste mês, vão ter instalados serviços de ecografia, consultas pré e pós natal e de aconselhamento e educação sexual. A garantia da empreiteira, de entregar oficialmente o imóvel até 30 de Maio, surpreendeu pela positiva o governador.Mawete João Baptista manifestou-se satisfeito com a evolução dos trabalhos, na medida em que, sobretudo os serviços da maternidade, medicina geral e pediatria, se “debatem com sérios problemas de internamento de doentes”. “A nossa jornada de campo incidiu na verificação das obras reiniciadas, que estiveram paradas por um longo período de tempo.
Demos o prazo de três meses às empreiteiras para concluírem as obras e quando elas garantam que as vão entregar antes dessa data é motivo de regozijo”, declarou.  “O governo provincial está honrar, escrupulosamente, os compromissos financeiros com as empreiteiras”, garantiu.
O governador revelou que, “dada a dimensão do investimento feito, o dispensário materno-infantil vai ser transformado em maternidade para proporcionar maior conforto às crianças e às mães”.

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