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Mangal do rio Chiloango arruinado pela poluição

Bernardo Capita|Cabinda

O ambientalista Manuel Gomes, do Grémio Ambiente Beneficência e Cultura (ABC), defendeu, em Cabinda, a necessidade de preservar o mangal da foz do rio Chiloango, por possuir uma fauna cuja biodiversidade se traduz em fonte de alimentos da população e de reprodução de várias espécies animais, entre mamíferos, aves, peixes, moluscos e crustáceos.

A situação no mangal da foz do rio Chiloango exige medidas cautelares para evitar uma catástrofe ecológica na região
Fotografia: Antonio Soares

O ambientalista Manuel Gomes, do Grémio Ambiente Beneficência e Cultura (ABC), defendeu, em Cabinda, a necessidade de preservar o mangal da foz do rio Chiloango, por possuir uma fauna cuja biodiversidade se traduz em fonte de alimentos da população e de reprodução de várias espécies animais, entre mamíferos, aves, peixes, moluscos e crustáceos. As raízes das plantas subaquáticas foram queimadas pelo petróleo em sucessivos derrames. A Chevron limita-se a indemnizar os pescadores afectados pela poluição.
Manuel Gomes está preocupado com a situação no mangal da foz do rio Chiloango, que exige “medidas cautelares” para evitar catástrofe que pode afectar árvores e arbustos da floresta aquática, localizadas na outra margem do rio.
O mangal, disse Manuel Gomes, é uma “comunidade dominada por várias espécies de árvores e arbustos adaptadas a viver em água salgada ou salobra”.
O ecologista revelou que desempenha um importante papel ecológico e o seu habitat é influenciado pelas marés nas zonas baixas dos rios, estuários (desembocaduras), baías e orlas costeiras tropicais e subtropicais. “O mangal é um ecossistema costeiro de transição entre os ambientes terrestres e marinho, numa zona húmida”, sublinhou.
Manuel Gomes deplorou o nível de destruição do mangal do Chiloango, “pela acção negativa do homem” que resulta de dois factores: a estagnação das águas devido à retirada das manilhas que permitiam a circulação com fluidez da água do rio para o mar, quando se construiu a estrada Cacongo-Dinge, e devido os derrames de petróleo que se sucedem frequentemente no mar de Cabinda e de Cacongo.
“A Chevron fez estudos sobre a seca no mangal da foz do rio Chiloango, mas como era de esperar nunca iria condenar-se a si própria, dizendo que a seca resulta dos derrames”, disse Manuel Gomes, questionando os resultados dos estudos apurados.

Importância do mangal

A floresta do mangal, devido à sua própria complexidade, disse o ambientalista Manuel Gomes, é uma zona com muita matéria orgânica em decomposição que serve de base primária para as zonas costeiras, servindo de recife natural (local de reprodução) de muitas espécies de peixes e habitat de crustáceos, moluscos.
“É um ecossistema muito rico em diversidade biológica“, disse Manuel Gomes. Quando se destrói o mangal são atingidas todas as espécies que ali se reproduzem, dificultando com isso a actividade piscatória das populações residentes na zona costeira.
“O peixe quando já não encontra o local apropriado para reprodução, automaticamente a espécie torna-se rara”, esclareceu Manuel Gomes, acrescentando que “ até a própria economia perde com a destruição da floresta do mangal, em razão das comunidades pesqueiras não poderem mais exercer a sua actividade”.
Apesar das árvores e arbustos que compõem o mangal se situarem em zonas com pouco oxigénio devido à decomposição permanente de matéria orgânica, mas como qualquer outra planta superior, diz Manuel Gomes, eles realizam a clorofilina, processo que consiste na purificação do ar através da absorção do dióxido de carbono, substância de extrema importância para a vida de seres vivos.
Para o ambientalista Manuel Gomes, com as mudanças climáticas que ocorrem em todo mundo, onde os países detentores de florestas são chamados a preservá-las, a destruição do mangal, além de ser um atentado ao ambiente, é todo um ecossistema que se danifica de forma irreversível.                
“Hoje, com as alterações climáticas, um dos pressupostos a ter em conta é a protecção das florestas por serem as principais fontes de purificação do ar. A planta tem a capacidade de absorver o dióxido de carbono, substância que provoca o aquecimento global e quanto maior for a floresta, maiores são as quantidades de dióxido de carbono que são absorvidos”, salientou Manuel Gomes.

Fundo carbono

Para tornar o processo de preservação da floresta mais eficaz e permitir que vários Estados desenvolvam políticas sustentáveis de exploração dos recursos ali existentes, o ecologista Manuel Gomes revelou que as Nações Unidas, na busca de soluções tendentes a combater o aquecimento global, concebeu o chamado “dinheiro de carbono”, que visa recompensar os países que protegem as suas florestas.
Para Manuel Gomes, o mangal propicia, essa floresta aquática, juntamente com a do Maiombe, representa uma vasta extensão de plantas, arbustos e árvores capazes de absorver quantidades significativas de dióxido de carbono.  

Petróleo e água estagnada

O agrónomo Tati Luemba disse à reportagem do Jornal de Angola que em 2006 foi elaborado um estudo para determinar as causas que estão na base da seca do mangal na foz do rio Chiloango. Segundo o técnico, o estudo, que integrou especialistas da petrolífera Chevron, concluiu, depois de longos meses de pesquisa, que a danificação do mangal deve-se à acção negativa do homem, consubstanciada em derrames de petróleo, abate indiscriminado de árvores para fazer carvão e a não circulação com fluidez da água para o mar, como consequência da retirada das manilhas que permitiam a movimentação das águas de um lado da estrada para outra margem, quando se construiu a via Cacongo-Dinge, há mais de 30 anos.
Segundo Tati Luemba, o estudo, que visou determinar as causas da degradação do mangal da foz do rio Chiloango, foi uma exigência do Executivo, devido à dimensão dos danos ecológicos, daí a criação do “Projecto dos Mangais da Foz do Rio Chiloango”, programa inserido no protocolo ambiental que o Executivo estabeleceu com a Chevron e que foi subdivido em duas fases.
A primeira fase consistiu no estudo com vista a determinar as causas que levaram à degradação do mangal, e esta fase foi realizada, segundo Tati Luemba, pela Universidade de Atlanta, dos Estados Unidos da América.
“Depois de um trabalho aturado, os técnicos apresentaram publicamente os resultados do estudo efectuado, tendo determinado que as causas da danificação do mangal têm a ver com a estagnação da água”, disse Tati Luemba, recordando que na estrada, há mais de 30 anos, foram incorporados sistemas de passagem de água.
O estudo, de acordo com Tati Luemba, deixou bem claro que os derrames de petróleo também têm estado a contribuir negativamente na destruição do mangal. “Todos esses factores fizeram com que as águas ficassem praticamente mortas, o que retirou oxigénio para sobrevivência das plantas”, esclareceu.
A segunda fase do projecto, de acordo com Tati Luemba, circunscreve-se à recuperação do mangal, uma actividade que ainda não arrancou por falta de dinheiro e devido à extinção do Ministério de Urbanismo e Ambiente, instituição que na altura estava a coordenar o projecto dos mangais da foz do rio Chiloango.
“O projecto era de âmbito nacional, o Ministério de Urbanismo e Ambiente foi extinto, criou-se um novo ministério que é o do Ambiente. A nova ministra esteve cá muito recentemente e visitou o mangal e defendeu que o projecto deve arrancar, mas com dinheiro da província”, explicou.  

Pescadores apreensivos

O presidente da Associação dos Pescadores de Cacongo, José dos Santos, está preocupado com a diminuição gradual dos níveis de captura de peixe que se tem vindo a registar nos últimos tempos.
De acordo com aquele responsável associativo, cuja agremiação tem 1.033 pescadores entre os que exercem actividade piscatória em águas marítimas e continentais, a pouca captura de pescado nas águas de Cacongo deve-se sobretudo à pouca reprodução do peixe no mangal, como consequência da sua danificação, resultante de sucessivos derrames de petróleo e cujos resíduos oleosos decorrentes dessa catástrofe se acumulam em quantidades consideráveis em toda a periferia do mangal da foz do rio Chiloango.
“Por três vezes assistimos com bastante apreensão a volumes consideráveis de petróleo a flutuarem no rio sem que a petrolífera Chevron fizesse alguma coisa para resolver o problema”, disse José dos Santos, acrescentando que o quadro que se desenha para o futuro em termos do mangal da foz do rio Chiloango é “desastroso”, porque “o processo de limpeza dos derrames dentro do rio é extremamente difícil devido à complexidade dessa floresta aquática”.
A verdade é esta, o petróleo está acumulado nos mangais e nunca foi retirado. “Acaba por se dispersar ao sabor da movimentação das águas do rio, atingindo as raízes das árvores”, afirmou José dos Santos, manifestando a convicção de que “a seca que ocorre no mangal é causada pelos sucessivos derrames de petróleo”. O petróleo está a queimas a floresta subaquática dos mangais.
“Estamos seriamente preocupados com essa situação, porque com a diminuição dos níveis de captura de peixe certamente que a actividade piscatória entra em falência e com ela o desemprego de milhares de pescadores”, sublinhou José dos Santos.
O pescador defende que como recompensa aos danos que os derrames causam à actividade piscatória, sejam aumentados os valores das indemnizações. “A Chevron indemniza com a quantia de 150 a 1.500 dólares por pescador prejudicado pelos derrames”, disse José dos Santos, para quem este valor é insignificante para fazer face aos desafios da vida, exigindo da petrolífera americana o pagamento dos artefactos de pesca e indemnizações pelo tempo que ficam paralisados enquanto decorrem os trabalhos de limpeza dos derrames de petróleo. 

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