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Milhões de dólares para projectos agro-pecuários

Leonor Mabiala | Cabinda

A província de Cabinda recebeu, este ano, do Executivo um valor estimado em 350 mil dólares para financiar projectos ligados à actividade agro-pecuária, afirmou, na quarta-feira, ao Jornal de Angola, o secretário provincial da Agricultura.

Camponeses vão ser apoiados com sementes e instrumentos de trabalho para poderem aumentar a produção nas comunidades
Fotografia: Rafael Tati | Cabinda

A província de Cabinda recebeu, este ano, do Executivo um valor estimado em 350 mil dólares para financiar projectos ligados à actividade agro-pecuária, afirmou, na quarta-feira, ao Jornal de Angola, o secretário provincial da Agricultura.
João Tati Luemba afirmou tratar-se de uma acção do Governo, enquadrada na atribuição de novo pacote sobre “crédito agrícola”, cujo objectivo é apoiar financeiramente as cooperativas agrícolas, as associações de camponeses e as famílias inseridas na zona rural.
“Criámos equipas a nível de base e foram já indicados os responsáveis municipais e comunais que vão fazer parte do processo. Aguardamos a vinda da comissão nacional, para capacitar as pessoas sobre as normas de atribuição deste crédito rural”, disse.        
No quadro dos projectos de desenvolvimento do sector agrário em Cabinda, João Luemba prevê, na actual campanha agrícola 2010/2011, iniciada em Setembro, implementar dois programas, um de Desenvolvimento Rural (PDR) e outro ligado ao fomento agrário.
Os programas, inseridos no plano estratégico do Executivo, destinam-se a combater a fome e a pobreza nas comunidades rurais, com o aumento do rendimento individual dos camponeses e melhoria da condição de vida das famílias.
A Secretaria da Agricultura colocou à disposição dos camponeses 51.214 hectares de terra, que vão ser trabalhados por 27 mil famílias, no âmbito do programa de desenvolvimento rural, e por 7.194 camponeses que se vão dedicar ao projecto de fomento agrário.
“As sementes existem e temos apenas problemas ligados à mecanização dos campos. O governo provincial tem alguns tractores e todo o esforço converge para que sejam usados racionalmente na presente campanha agrícola 2010/2011”, disse João Luemba.  
Constam ainda dos projectos em carteira, afirmou, a revitalização do cultivo de palmeiras, para a produção de óleo de palma, e do café com a instalação de todos os equipamentos indispensáveis – descasque, torrefacções e classificação – e a reposição de estruturas de fiscalização nas áreas de exploração de madeira.

Pesca continental

O fomento à pesca continental, visto que a região possui muitas lagoas, a construção de um terminal pesqueiro para a secagem do peixe e outra estrutura para a atracagem de embarcações de médio porte, a revitalização da actividade pecuária na região, com a importação de bovinos resistentes às doenças, constam também do leque de acções futuras.
“Achamos ser importante a instalação destas estruturas, pois vão contribuir no aumento da produtividade na região e equilibrar a dieta alimentar da população”.    
Em termos de dificuldades, o secretário da Agricultura disse que, a par da questão financeira, o sector enfrenta problemas ligados à falta de infra-estruturas apropriadas para assegurar o pleno funcionamento da instituição.
A outra questão é a carência de meios de transporte. Actualmente, a instituição dispõe apenas de uma viatura, que foi atribuída ao seu responsável máximo, estando os representantes municipais e os de nível intermédio a enfrentarem sérios problemas de locomoção.  “A agricultura faz-se no campo e para tal precisamos de meios de transporte para lá chegarmos. Trabalhamos em locais impróprios, pois a nossa sede está degradada e precisa ser reabilitada, para que todos os técnicos e funcionários tenham condições mínimas de trabalho”.

Feiras agro-pecuárias
O programa de realização de feiras de promoção e venda de produtos agrícolas, suspensa há mais de um ano, por dificuldades financeiras, vai ser retomado em breve, com o intuito de facilitar o escoamento da produção do campo para cidade, disse, ao Jornal de Angola, o presidente da Federação das Associações de Camponeses e Cooperativas Agro-Pecuárias (UNACA), Francisco Manuel Chocolate.
A suspensão do programa, por dificuldades financeiras, deveu-se à crise económica mundial.  “Dado que o país já revelou sinais de recuperação económica, o governo provincial está a empreender esforços para o reinício desse evento nos próximos meses”, disse Francisco Chocolate.
A promoção de feiras de venda de produtos agrícolas é um programa assumido pelo governo provincial, desde de 2006, que tem como propósito apoiar os camponeses no processo de escoamento e comercialização da produção.
As feiras de promoção agrícola, frisou, permitiram revelar o potencial agrícola da região, contrariando opiniões de alguns cépticos, segundo as quais a riqueza da província é centralizada em petróleo e os seus habitantes estão virados para o exercício do comércio.
“A província possui terras férteis para o desenvolvimento da agricultura, para garantir a auto-suficiência alimentar das suas populações e criar excedentes para comercializar”, disse.     Francisco Chocolate referiu que as 24 edições realizadas permitiram a arrecadação de cerca de 104 milhões kwanzas. O volume de produtos expostos foi de 3.250 toneladas, que contaram com a participação de 8.759 expositores, provenientes dos quatro municípios.
A banana pão, mandioca, amendoim, feijão macunde, batata-doce, nhame, taró, dendém, óleo de palma e hortícolas, com destaque para a couve, tomate e pimenta, são os produtos mais cultivados na província.     
 “Com a realização das feiras agro-pecuária de promoção e venda de produtos agrícolas era visível a satisfação dos camponeses, pois ajudava-os a escoar e vender os produtos sem pagar qualquer valor relativo ao transporte e adquiriam outros produtos que lhes melhorava a sua a dieta alimentar”.

Dificuldades

Sobre o processo de escoamento da mercadoria do campo para os centros de venda, Francisco Chocolate referiu a falta de meios de transporte, sobretudo do sector “público, como a principal dificuldade que os camponeses enfrentam.
Esta situação leva ao mau aproveitamento da produção, resultando na sua deterioração nas zonas de cultivo, após as colheitas, o que cria enormes prejuízos aos camponeses.
Para inverter a situação, a população recorre ao aluguer de viaturas, vulgo para transportar a mercadoria para os centros de comercialização.   
Produção de hortícolas
A Cooperativa Kuvata, criada em 2008, agrega cerca de cem agricultores e tem o seu trabalho virado para a produção de hortícolas, com destaque para o tomate, couve e pimenta.
O presidente da Kuvata disse que os níveis de produção da cooperativa “vão de vento em popa”, sobretudo nesta altura do ano em que a província regista baixas temperaturas.
Inácio Maria lamentou o facto de haver problemas sérios relacionados com comercialização dos produtos, já que actualmente muitas pessoas criam pequenas hortas.  “Este facto contribui para a redução do número de clientes, agravando o tradicional problema relativo à carência de compradores”, lamentou.
Além de produzir hortícolas, a cooperativa estabelece parcerias com outros produtores para comercializar produtos agrícolas, tendo em conta as dificuldades que enfrentam no escoamento da mercadoria.
“A nossa cooperativa não vende apenas produtos dos associados, somos também facilitadores na venda de artigos de outros agricultores”, referiu. Quanto ao processo de comercialização, sublinhou ter como clientes tradicionais os agentes ligados ao sector hoteleiro, quitandeiras de mercados paralelos e alguns “catering” da Chevron (pequenas empresas de prestação de serviços à petrolífera no ramo alimentar).

Escoamento de produtos

O presidente executivo da Kuvata lamentou a atitude das Catering do campo petrolífero de Malongo, que preferem comprar tomate e pimenta na região de Ponta Negra.
Esta atitude, disse, cria constrangimentos no seio da classe, porquanto a cooperativa tem os produtos à venda nas câmaras instaladas na sede da organização.
“Se uma companhia sedeada em Cabinda vai a Ponta Negra comprar tomate e pimenta, não participa no desenvolvimento da agricultura na província. Por isso, pedimos o apoio do governo para se reverter este quadro”, declarou.    
A direcção da cooperativa está a desenvolver contactos junto das Forças Armadas Angolanas (FAA) e da Polícia Nacional para que estas instituições passem a ser clientes.                          
“A prática de horticultura em Cabinda é uma actividade desenvolvida apenas na estação seca ou no Cacimbo devido as baixas temperaturas que a região oferece, onde a produtividade é alta não só para a cooperativa como para outras pessoas que aproveitam fazer pequenas hortas”, referiu. 
Durante a época chuvosa a produção diminui devido às altas temperaturas que oscilam entre 33 a 32 graus Celsius. As quedas pluviométricas são constantes e violentas, o que dificulta a produção de hortícolas ao longo do ano, tal como noutras regiões do país.  “Nesta estação, o calor aumenta e as quedas pluviométricas não se compadecem com o cultivo dos vegetais, por isso vamos criar outras condições de estruturas, como as estufas ”, anunciou. 
O investimento em sistema de estufas acarreta recursos financeiros, em Cabinda não há crédito agrícola e um agricultor desprovido de valores monetários não consegue realizar estes investimentos, salientou.
Outro facto embaraçoso, disse, é a falta de câmaras frigoríficas para a conservação de produtos, meios de transporte que possam facilitar o transporte da mercadoria e deslocação de técnicos aos campos de cultivo.  Sobre o sistema de conservação, afirmou que o organismo tem cerca de seis câmaras frigoríficas. Este equipamento foi uma oferta da Chevron, cedido ao projecto Acada, em 2006, e a manutenção tem sido onerosa, fase ao avançado estado de degradação.
A falta de meios de transporte também dificulta o andamento dos trabalhos da organização. A cooperativa dispõe de três viaturas, uma das quais funciona em sistema alternado (serve para apoiar a área técnica e a administrativa) e as outras, já velhas, servem para transportar os artigos do campo até à sede da instituição.  
Para manter a cooperativa em pleno funcionamento, garantiu Inácio Maria, são necessários cerca de 17 mil dólares por mês, para garantir a manutenção dos equipamentos (viaturas e câmaras de refrigeração) e para pagar ao pessoal de base.
A instituição, sublinhou, tem sido apoiada pela Secretaria Provincial da Agricultura, sobretudo em adubos, sementes e instrumentos de trabalho, como catanas, enxadas, limas, tractores para a lavoura e preparação do solo.  

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