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Montanhas de lixo cercam os aldeões

Bernardo Capita | Cabinda

Montanhas de lixo, moscas e um cheiro nauseabundo são os vizinhos dos habitantes da aldeia de Mbaca, Povo Grande, desde que foi ali instalado um aterro sanitário a céu aberto pela operadora “Resi”, empresa encarregada pela limpeza da cidade de Cabinda

Lixo depositado a céu aberto a poucos metros da aldeia de Mbaca é um autêntico atentado à saúde pública
Fotografia: Rafael Tati

Montanhas de lixo, moscas e um cheiro nauseabundo são os vizinhos dos habitantes da aldeia de Mbaca, Povo Grande, desde que foi ali instalado um aterro sanitário a céu aberto pela operadora “Resi”, empresa encarregada pela limpeza da cidade de Cabinda e arredores. A viver paredes-meias com o lixo, as populações de Mbaca clamam há muito por um  ambiente mais sadio.
Os habitantes da aldeia de Mbaca (Povo Grande), localidade sete quilómetros a sul da cidade de Cabinda, queixam-se do cheiro nauseabundo resultante da decomposição do lixo depositado a céu aberto a poucos metros de suas casas, num autêntico atentado à saúde pública e ao direito a uma vida sadia em ambiente são.
“Sentimo-nos sufocados com o mau cheiro. Moscas, baratas e ratos invadem as nossas casas, corremos sérios riscos de contrair doenças”, desabafou Florindo João Walter, de 30 anos, morador na aldeia. Acrescentou que já foram feitas reclamações junto da coordenação da aldeia, no sentido de prevenir as autoridades da Administração Municipal sobre a situação, mas a operadora “Resi”, contratada pelo governo para limpeza da cidade e recolha de lixo, continua a depositar os resíduos sólidos junto da aldeia sem qualquer tratamento e a céu aberto.
Para Florindo João Walter, “alguém anda a brincar com a saúde das pessoas e por trás desta situação há interesses económicos inconfessos. Não compreendo como é que uma situação de tamanha gravidade deixa os responsáveis impávidos e serenos”, afirmou, acrescentando que o sentimento de impotência deixa os habitantes de Mbaca tristes e preocupados.
“O lixo quando é exposto a céu aberto, como é o caso, além de ser fonte de poluição do ambiente, ameaça a saúde de todos nós, incluindo aqueles que mandaram cá meter o lixo, porque com as chuvas muito deste lixo vai parar nas zonas urbanas onde habitam”, sublinhou.
Florindo João Walter defende que é preciso queimar o lixo para evitar que muitas pessoas, incluindo crianças, vão constantemente à lixeira em busca de objectos: “a Administração Municipal de Cabinda tem de agir rapidamente. O lixo está a criar muitos problemas aos moradores da aldeia e a outras pessoas que circulam pela localidade em direcção à penitenciária do Yabi e zonas circunvizinhas”, afirmou.
Florindo João Walter revelou à reportagem do Jornal de Angola casos de doenças e até de mortes de cidadãos, com incidência em crianças da aldeia, como consequência da inalação dos gases putrefactos do lixo. Acrescentou que com o início da época das chuvas, o quadro epidemiológico vai piorar, destacando as diarreias, doenças respiratórias agudas, malária e febre tifóide: “faço um veemente apelo à Administração Municipal de Cabinda para remover o lixo que se encontra junto à aldeia”.

Coordenador sem competências

O coordenador da aldeia de Mbaca, João Baptista Costa, também está preocupado com o drama das populações da sua área de jurisdição, mas disse não poder fazer nada, porque não tem competências para suspender o depósito de lixo na aldeia, já que o terreno pertence a um membro do executivo local, “que em princípio devia persuadir a operadora Resi a não deitar mais lixo no referido espaço, mas não o faz”.
Os moradores da aldeia de Mbaca vivem um momento delicado, disse João Baptista Costa, acrescentando que para além do lixo se confrontam também com “os mosquitos que se reproduzem na lagoa de Yteze”. João Baptista Costa teme o agravamento da contaminação do meio: “a vida está difícil, é um autêntico inferno, e não sabemos a quem recorrer em caso de contrairmos doenças por causa da lixeira”, disse.
 
Lixo hospitalar

O lixo hospitalar é perigoso e por isso é incinerado ou tratado em locais apropriados e devidamente preparados. Porém, em Cabinda, as autoridades sanitárias do Hospital Central nem sempre agem dessa forma, permitindo, muitas vezes, que o lixo produzido nessa unidade sanitária seja depositado em contentores, com todos os riscos que advêm dessa prática, e depois atirados para a lixeira de Mbaca. Segundo o secretário provincial da Saúde, Carlos Zeca, a situação já está ultrapassada, na medida em que o lixo produzido actualmente no Hospital Central de Cabinda,       “depois de recolhido, é enterrado numa zona distante da cidade, por falta de uma incineradora”.
Falando a propósito do lixo que se encontra a céu aberto na aldeia de Mbaca, o responsável máximo da saúde condenou o facto, dizendo que constitui um atentado à vida humana, por ser fonte criadora de mosquitos, baratas, ratos, entre outros vectores de doenças.
Carlos Zeca admitiu que a situação é preocupante, mas prometeu que o sector da saúde e a Administração Municipal vão, nos próximos dias, promover uma campanha de limpeza para atenuar o “sufoco” dos moradores de Mbaca e reduzir o nível de propagação da malária na cidade de Cabinda. “Nunca se viu tanto mosquito em plena época seca como se vê actualmente”, lembrou Carlos Zeca, atribuindo o facto à falta de saneamento básico, acumulação de resíduos líquidos e sólidos na aldeia de Mbaca e em diversos bairros da periferia da cidade de Cabinda.   

Remoção de lixo

O governador da província, Mawete João Baptista, visitou o local há um mês para constatar o impacto dos danos que o lixo causa às    populações do Mbaca. Na ocasião deu instruções à Administração Municipal e à operadora Resi para rapidamente transferirem os resíduos sólidos para as imediações da fronteira do Yema. Mas até agora o cenário mantém-se inalterável.
Mawete João Baptista está preocupado com o volume de lixo exposto a céu aberto na aldeia de Mbaca. O administrador municipal de Cabinda, Francisco Tando, disse que o trabalho de remoção do lixo para as imediações da fronteira do Yema, a sul da cidade, onde se prevê a instalação do aterro sanitário, ainda não começou devido à insuficiência de meios de transporte com que se depara a operadora Resi.
“Não temos meios de transportes para de imediato recolhermos o lixo concentrado na lixeira de Mbaca”, esclareceu Francisco Tando, que também se manifestou preocupado com o cenário de insalubridade que se vive naquela localidade.
“Estamos a conjugar esforços para que a população se liberte desse mal”, referiu Francisco Tando. Pediu calma às populações e prometeu que tudo vai ser feito para dar aos habitantes de Mbaca dias melhores e livres da poluição.

Danos ambientais

“Os resíduos sólidos recolhidos na cidade de Cabinda e bairros periféricos são de origem diversa e não sendo na sua totalidade orgânicos e de fácil decomposição, por não serem biodegradáveis, não devem estar expostos a céu aberto”, defendeu o ambientalista Manuel Gomes.
O aterro a céu aberto, explica Manuel Gomes, constitui um atentado à saúde pública e ao ambiente, porque durante o processo da degradação, no caso dos biodegradáveis, ocorre a libertação de gazes tóxicos perigosos para a saúde humana.
Para o ecologista, o lixo que aos poucos vai cercando a aldeia de Mbaca, para além de constituir um perigo para a saúde dos moradores, representa uma ameaça geral por se situar bem próximo “à grande bolsa de negócios da província, o mercado São Pedro, onde a maior parte da população de Cabinda compra os seus alimentos no dia-a-dia”.
Durante a época das chuvas é notório observar-se moscas e outros vectores transmissores de várias doenças no mercado, recordou Manuel Gomes, para quem a lixeira existente na aldeia de Mbaca é a fonte de todos esses vectores de doenças.
Manuel Gomes questionou o comportamento da operadora Resi, ao dar o dito pelo não dito, depois de garantir publicamente, há um ano, que ia remover a lixeira para uma outra área, facto que até à data não aconteceu.
O responsável do Grémio Ambiente Beneficência e Cultura (ABC) deplorou também a prática de queima de lixo hospitalar que é feita por esta empresa, numa clara transgressão aos princípios ambientais aplicados universalmente.
“É lamentável o que acontece na aldeia de Mbaca. Quando visitamos o local vemos constantemente crianças a brincarem com o lixo, e isto é um perigo, porque temos tristes memórias do passado recente quando assistimos na famosa Rua do Intoxico ao rebentamento de uma velha botija soterrada no lixo e depositada com substâncias tóxicas de origem petroquímica e que matou pessoas”, recordou o ambientalista.

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