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Obras na cidade impedem ravinas

Bernardo Capita | Cabinda

O governo da província de Cabinda está a realizar um conjunto de obras para a reabilitação de estradas e para resolver o problema das ravinas na cidade e nos bairros periféricos.

Governador Mawete João Baptista (à direita) quando percorria uma ravina que está agora a ser transformada em estrada
Fotografia: Rafael Tati

O governo da província de Cabinda está a realizar um conjunto de obras para a reabilitação de estradas e para resolver o problema das ravinas na cidade e nos bairros periféricos.
As obras, que devem estar concluídas antes da época chuvosa, que começa oficialmente em 15 de Agosto, têm como objectivo dotar a cidade de Cabinda e bairros periféricos de condições que permitam a circulação de pessoas e bens sem grandes constrangimentos, solucionar o problema das ravinas para permitir a “reestruturação da cidade” e criar sistemas de drenagem que facilitem o rápido escoamento das águas pluviais.  
As obras de construção do sistema de drenagem das águas pluviais, orçadas em 14 milhões de dólares, começaram há dois anos e consistem na criação de valas a céu fechado, com uma extensão de aproximadamente dois quilómetros, abarcando a rua das Forças Armadas, a zona do Hospital Provincial e o interior do bairro 1º de Maio, desembocando no Luvassa Sul. A vala a céu aberto, de um quilómetro de extensão, entre os bairros A Vitória é Certa e 1º de Maio, já foi testada pelas chuvas, dando garantias que está bem feita. Neste momento, ultimam-se os trabalhos de colocação de tampas, do perímetro do hospital 1º de Maio até ao interior do bairro com o mesmo nome.
Resolvida que está, praticamente, a questão das inundações causadas pelas enxurradas, que muito contribuíam para a insalubridade das zonas mais afectadas, o governador Mawete João Baptista concebeu um programa de reabertura de vias terciárias e de combate às ravinas.
O programa já permitiu a reabilitação da estrada que vai da aldeia de Tchizo ao bairro Lombe, intransitável há mais de 20 anos, a construção da auto-estrada Lombe/Tchizo/Santa Catarina e a instalação da rede de iluminação pública.
O custo da empreitada constante do programa, a cargo da empresa chinesa “Meng Engenharia”, não é de domínio público, mas Mawete João Baptista assegurou que começou “sem qualquer pagamento antecipado”, dada a disposição da empresa em auxiliar, numa primeira fase, o governo da província.
As populações do perímetro em que estão inseridas as obras mostram-se satisfeitas com o melhoramento das vias e a instalação do sistema de energia eléctrica nas áreas de residência.
As pessoas podem agora circular mais à-vontade e a escuridão, que fomentava a delinquência, é passado.
Adérito de Jesus Macamba, 11 anos, morador no bairro Lombe, disse, ao Jornal de Angola, que nunca pensou que o local onde vive pudesse, um dia, ter energia eléctrica e uma estrada em condições e sem ravinas. “Vezes sem conta vi colegas a caírem nelas”, recordou.
“Para irmos à escola tínhamos de atravessar as ravinas com muito cuidado. Agora, estamos satisfeitos”, referiu o estudante da 4ª classe.
Vicente Manguebele, 64 anos, autoridade tradicional da aldeia de Tchizo, quase não cabia em si de contente e não encontrava palavras para agradecer ao governo da província, pois, disse, a população da sua área de jurisdição “desde o alvorecer da independência nacional” (1975) que se vinha debatendo com o problema da estrada.
“A população está satisfeita com as obras em curso na aldeia. Desde a independência, que não víamos coisa igual. Já temos estrada em condições, com iluminação pública. Decorrem trabalhos de canalização para a água potável. Tudo isso devido à dinâmica do governador”, afirmou.
Tchizo, situado numa montanha de cerca de 300 metros de altitude, na periferia da cidade de Cabinda, é uma localidade com forte organização tradicional, administrada por um sistema patriarcal, em que o poder passa de pai para filho. Vicente Manguebele é o actual chefe da aldeia devido ao falecimento do pai. 
Vicente Manguebele disse, ao Jornal de Angola, que o que aflige actualmente a população é a poeira que está a poluir o meio, atingindo até as casas, devido ao aumento do tráfego rodoviário na estrada ainda não asfaltada.

Grande desafio

O grande desafio do governador é resolver o problema das duas enormes ravinas nos bairros Simulambuco, Cabassango e Vale Quem Tem - trabalho a cargo da empresa “China Jiangsu” - que ameaçam engolir aquelas zonas.
As obras, orçadas em oito milhões de dólares, circunscrevem-se a dois projectos, de características diferentes. A de Simulambuco/Vale Quem Tem, que envolve mais recursos financeiros devido à grande dimensão da erosão, está a ser já entulhada e compactada com terra. Depois desta fase dos trabalhos, vai ser construída, ao longo da sua trajectória, uma estrada.
Víctor Saraiva, assessor da Secretaria Provincial de Obras Públicas, declarou que no caso da ravina do bairro Vale Quem Tem, o projecto prevê a construção de uma plataforma de 25 metros e de um aqueduto para escoamento subterrâneo das águas.
As obras, referiu, estão a ser feitas de modo a permitir, mal terminem, que se possa começar a construir uma estrada devidamente estruturada que vai desembocar ao mar.
“Se conseguirmos uma plataforma até 25 metros de comprimento, a estrada pode ser estruturada com duas vias de acesso à praia, com seis metros cada uma”, salientou.        
Para verificar a evolução dos trabalhos, e face ao aproximar da época chuvosa, o governador Mawete João Baptista não se tem poupado a esforços. Todas as sextas-feiras, visita estes empreendimentos.  Na recente jornada de campo, manifestou-se satisfeito com o trabalho já realizado, que, sublinhou, está a conferir outra imagem à cidade de Cabinda.
“O trabalho que estamos a fazer agora já devia ter sido feito há bastante tempo, mas, infelizmente, não houve o tratamento devido e as ravinas foram progredindo e ameaçando até a estrutura central da cidade”, lamentou.
O governador garantiu que o trabalho vai prosseguir para proteger a estrutura arquitectónica da cidade.
“Estamos satisfeitos por o nosso trabalho ser bem visível e constituir motivo de grande orgulho da população, apesar dos custos que envolve, desde o próprio investimento às indemnizações às populações”, referiu.  O vice-governador para Área Técnica, António Manuel Gime, revelou que o valor das obras na ravina do bairro Vale Quem Tem é de oito milhões de dólares, afiançando que vão terminar antes do tempo chuvoso, visto que “a empresa a quem o governo adjudicou a empreitada tem estado a trabalhar sem medir o tempo”.

População expectante

Os moradores do bairro Vale Quem Tem agradecem o trabalho de intervenção nas ravinas. Ao longo dos anos foram muitos os casos de desabamento de casas e mortes, por afogamento, de crianças levadas pela corrente das águas das chuvas.
Maria de Lourdes, 46 anos, moradora no bairro há mais de 20, transporta a memória da morte de um ente querido, de 8 anos, na manhã de 24 de Outubro de 2006, depois de uma forte chuva.
“Ele tentou transpor a ravina, no intuito de ir para a outra margem apanhar mangas. Foi arrastado pela corrente das águas”, recordou, ao Jornal de Angola.
 “Quando chove, a pressão da água aumenta dentro da ravina. Não há criança, nem mais velho que consiga atravessar para a outra margem. Custou, mas mais vale tarde do que nunca”, disse Maria de Fátima Pemba 
Por um lado, as obras de combate às ravinas alegram as populações, mas por outro preocupam, já que não sabem qual o tratamento que as autoridades vão dar às famílias atingidas pelas demolições em consequência da requalificação da área.
“Peço ao governo que transfira, com urgência, as populações para áreas mais seguras”, pediu.
O governador afirmou que o governo vai distribuir aos lesados lotes de terra, chapas e outros materiais de construção.       

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