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Produtos do Natal começam a escassear em Cabinda

Bernardo Capita |Cabinda

A quadra festiva, que compreende dois importantes momentos de convívio familiar, o Natal e a passagem de ano, já agita a população de Cabinda.

É grande o frenesim na procura de bens alimentares nos supermercados e outros estabelecimentos comerciais da província de Cabinda
Fotografia: Jornal de Angola

A quadra festiva, que compreende dois importantes momentos de convívio familiar, o Natal e a passagem de ano, já agita a população de Cabinda. É grande o frenesim na procura de bens alimentares nos supermercados e outros estabelecimentos comerciais. Os mais avisados adquiriram antecipadamente os produtos alimentares, brinquedos e os “mimos” para a ceia de Natal e a noite da passagem de ano.
Os menos avisados só o fazem agora, adquirindo-os a preços mais elevados. É a lei da procura e da oferta. Quanto mais é a procura e menor a oferta, a tendência lógica do mercado é a subida dos preços. As bebidas, com destaque para a cerveja, refrigerantes e espirituosas, são os produtos mais procurados, sem descurar os géneros alimentícios como os frescos, o bacalhau, ovos e a batata, que já começam a escassear no mercado, devido à pouca oferta.
Os habituais produtos que integram a cesta básica, arroz, feijão, açúcar, sabão, óleo alimentar e leite, também já começam a faltar no mercado. Alguns cidadãos, para consegui-los, estão a recorrer à República do Congo (Ponta Negra), onde o mercado oferece preços mais acessíveis.
Por falta de um porto de águas profundas, Cabinda vê agravados os impostos dos produtos que chegam ao seu porto em razão do processo de baldeação das mercadorias em alto mar. Outro aspecto que encarece as mercadorias que chegam à província está na não aplicação integral, por parte de algumas instituições, do Regime Especial Aduaneiro e Portuário. Assim, nesta época do ano, onde os produtos essenciais sobem em flecha em quase todo o país, em Cabinda chegam a custar três ou quatro vezes mais.
O Regime Especial Aduaneiro e Portuário, aprovado pelo Executivo para Cabinda, é um instrumento jurídico-legal que prevê o desagravamento das despesas referentes ao processo de baldeação de mercadorias no alto mar e a isenção de direitos aduaneiros a produtos de consumo básicos e materiais de construção.
Embora os produtos custem os olhos da cara, o poder de compra da população é nesta altura muito grande, porque as empresas públicas já pagaram aos seus funcionários o subsídio de Natal e o salário do mês de Dezembro, o que está a permitir gastos acima da média anual para a aquisição de produtos para a quadra festiva. O quilo de feijão custa 220 kwanzas, o de arroz 120 kwanzas, de açúcar180 kwanzas, de fuba de bombó 100 kwanzas, sabão em barra 250 kwanzas, leite em pó 1.800 a 2.400, o litro de óleo alimentar está a ser vendido por 220 kwanzas.
 E quanto às bebidas, a grade de cerveja varia entre 2.000 e 2.900 kwanzas e a de refrigerantes de 1.100 a 1.500 kwanzas.
Nem todos os estabelecimentos comerciais possuem os produtos alimentícios, devido ao atraso que se observa no processo de transbordo das mercadorias a partir do porto de águas profundas de Ponta Negra (República do Congo), onde alguns operadores económicos da província preferem descarregar os suas mercadorias em detrimento do porto de Cabinda, por falta de condições de atracagem de navios de alto calado junto à ponte cais.
Amândio Gil Chaves, um empresário da província cuja actividade assenta na importação e venda a grosso e a retalho de mercadorias, disse ontem à reportagem do Jornal de Angola que o seu estabelecimento comercial ainda não recebeu produtos destinados à quadra festiva devido ao atraso que se observa no transbordo das mercadorias a partir do porto de Ponta Negra por parte da agência NDS (Cabinda).
“Há mais de 18 dias que os contentores chegaram à Ponta Negra em trânsito para Cabinda, mas, infelizmente, como o navio não pôde atracar no porto de Cabinda, a agência optou em fazer transbordo, por via de uma barcaça de pequena dimensão”, disse Amândio Gil Chaves visivelmente preocupado, face ao aproximar da quadra festiva.
    
Produtos em abundância

“Estão assegurados os produtos para a quadra festiva, muitos navios vão escalar a província nos próximos dias com muita mercadoria”, garantiu a secretária provincial do Comércio, Turismo e Hotelaria, Mónica Polaco, que aproveitou para tranquilizar a população. “Não há roturas, as mercadorias vão chegar para que todos tenhamos uma quadra festiva sem preocupações”, assegurou.
Entre os navios que se encontram junta à costa, Mónica Polaco destacou duas embarcações que transportam, entre outras mercadorias, bacalhau e a batata, dois dos principais ingredientes para cozido da ceia de Natal.
Mónica Polaco afirmou que o sector que dirige trabalha neste momento com a direcção do Porto, operadores económicos (importadores) e comerciantes grossistas para permitir a descarga célere das mercadorias e o abastecimento às populações no momento ideal. Os produtos, lembrou Mónica Polaco, além de assegurarem a quadra festiva, vão servir de stock para o primeiro trimestre de 2011.
Quanto aos custos adicionais resultantes das operações de baldeação de mercadorias do alto mar para o porto, reivindicado por operadores económicos, Mónica Polaco desdramatizou a questão, garantindo que o Porto de Cabinda, ao contrário do que se diz, tem estado a cumprir o estipulado no Regime Especial Aduaneiro e Portuário aprovado pelo Executivo para a província de Cabinda.
“O porto tem obedecido ao Regime Especial Aduaneiro e Portuário para Cabinda, que está estipulado no Decreto 04/2004 e os importadores têm beneficiado dessa prorrogativa”, esclareceu Mónica Polaca, desmentindo os argumentos do aumento do preçário evocado por agentes económicos.
Mónica Polaco disse estar consciente que nesta altura da quadra festiva é o período em que vários agentes económicos pouco escrupulosos aproveitam as condições de pressão no mercado para especular. Mas, a responsável do Comércio deixa um aviso aos prevaricadores: quem for apanhado a especular vai sentir a mão pesada da lei. “Foram criadas duas equipas a nível do sector do Comércio, sendo uma para acompanhar a previsão de stocks e a chegada de navios e a outra exclusivamente destinada a fiscalizar a estrutura de preços aplicados pelos grossistas e outros agentes retalhistas, e quem for apanhado a cometer qualquer infracção é fortemente sancionado”, avisou.

Falhas de energia
 
Para a secretária provincial do Comércio, Hotelaria e Turismo, Mónica Polaco, o que a deixa particularmente preocupada é a falha constante de energia eléctrica em zonas onde muitos empresários instalaram câmaras frigorificas para conservação dos produtos perecíveis.
“Em nome dos agentes económicos que vendem produtos perecíveis, nomeadamente carne, peixe, frangos e ovos, peço à Empresa Nacional de Electricidade (ENE) para garantir o fornecimento de energia eléctrica às áreas onde estão concentrados os contentores frigoríficos, como são nos bairros 1º de Maio, Chiweca, Uneca e 4 de Fevereiro”, disse.
Para Mónica Polaco, a falta de energia eléctrica pode comprometer o abastecimento às populações de produtos perecíveis em condições para consumo humano durante a quadra festiva e também provocar prejuízos aos agentes económicos.
 
Descarga de mercadorias

O porto de Cabinda elaborou um programa especial para permitir o acesso rápido à zona costeira da província de todos os navios que transportam carga destinada à quadra festiva.
O programa, segundo o presidente do conselho de administração do Porto de Cabinda, Manuel Nazaré Neto, tem como objectivo evitar embaraços e constrangimentos nas operações de descarga de mercadorias a ser feita por baldeação, a 60 milhas da costa, um processo considerado de risco.
As operações de baldeação, além de provocarem enormes prejuízos financeiros ao Porto, devido às despesas de sobre estadia de navios junto à costa e aos custos adicionais aos operadores económicos, sobrecarregam o consumidor, que arca com todos esses custos, ao ser forçado a comprar produtos a preços duas ou três vezes mais elevados.
“Todos os navios com mercadorias destinadas à quadra festiva vão merecer atenção especial e descarga rápida”, assegurou Manuel Nazaré Neto, apelando aos agentes económicos e importadores para contactarem antecipadamente os serviços operacionais do Porto, dando indicações claras sobre a data de partida e de chegada dos navios com mercadorias para a quadra festiva.
O responsável do Porto de Cabinda recordou que o apelo é no sentido de agilizar antecipadamente o expediente referente ao Porto e os serviços aduaneiros.

Condenação do consumismo

O vigário-geral da Diocese de Cabinda, Milan Esteban, disse que a Igreja Católica condena o consumismo durante o período da quadra festiva, em que muita gente, em vez de prestar a devida homenagem ao Filho de Deus, “mete-se em altos convívios gastando muitos recursos financeiros”.
O prelado, de nacionalidade húngara, condena, também, a atitude dos agentes económicos que se aproveitam do Natal e da festa da passagem de ano para vender mais e a preços exagerados.
Milan Esteban é de opinião que todo o convívio que se fizer à volta do dia 25 de Dezembro deve ser de “reflexão por tudo quanto passou Jesus Cristo e pelo facto Dele estar sempre presente em nós”.
“Se o filho de Deus veio a nós para dar-nos alegria, era reconfortante que todas as famílias celebrassem o dia 25 com alegria e amor, sem recurso a muita bebida para depois gerar desentendimentos”, disse o vigário-geral da Diocese de Cabinda, para quem a Igreja Católica não é a favor do consumismo, mas sim por uma celebração digna.
Milan Esteban recordou que o programa elaborado pela Igreja Católica para saudar o Dia do Nascimento de Jesus Cristo reserva, entre outras actividades, a novena de Natal e presépios em todas as capelas.

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