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Saúde em Cabinda próxima do cidadão

Bernardo Capita | Cabinda

O secretário da Saúde em Cabinda, Carlos Zeca, referiu, esta semana, ao Jornal de Angola, como estratégia prioritária do seu mandato, a concretização do projecto de expansão da rede primária de saúde em toda a província, de modo a prestar ao paciente, na sua aldeia, comuna ou município, uma assistência médica mais personalizada.

O novo secretário da Saúde de Cabinda quando falava sobre o seu plano de acção
Fotografia: Rafael Tati

O secretário da Saúde em Cabinda, Carlos Zeca, referiu, esta semana, ao Jornal de Angola, como estratégia prioritária do seu mandato, a concretização do projecto de expansão da rede primária de saúde em toda a província, de modo a prestar ao paciente, na sua aldeia, comuna ou município, uma assistência médica mais personalizada.
Na primeira declaração pública, depois de ter sido nomeado pelo governador Aníbal Rocha, no âmbito do novo quadro orgânico da província, resultante do Estatuto Especial atribuído a Cabinda, o novo titular da Saúde promete levar assistência médica “ali, onde está o cidadão”.
Sem descurar a hipótese de, futuramente, haver a figura de “médico de família”, já experimentada, com êxito, em muitos países, Carlos Zeca acredita que, com o “modelo de funcionamento” que tenciona concretizar, o Hospital Central de Cabinda (HCC) vai ficar mais desafogado e a população passa a sentir-se melhor assistida, sem ter que percorrer longas distâncias.
Todos esses desafios, referiu, “passam, necessariamente, numa primeira fase, pela elaboração de um diagnóstico profundo do sector”, para se inteirar do funcionamento das várias unidades sanitárias espalhadas pela província.
 Além disso, frisou, “é urgente reunir com a classe médica e outros profissionais do sector para que o projecto encontre os necessários consensos”.
“Os resultados que o diagnóstico produzir irão permitir à Secretaria Provincial da Saúde elaborar o seu plano de acção, estabelecer uma relação mais profícua entre a população e médicos, enfermeiros e outros técnicos do sector e resgatar os valores éticos e deontológicos, de forma a criar entre o paciente e o trabalhador da saúde uma relação mais afectiva”, declarou.
“Se nós conseguirmos colocar em alguns centros de saúde condições técnicas e humanas capazes de permitir que essas unidades sanitárias efectuem, pelo menos, pequenas cirurgias, como, por exemplo, a uma hérnia ou a um quisto simples de ovário, podemos personalizar a assistência médica”, sublinhou.

Medicamentos

Carlos Zeca pensa, também, num futuro breve, imprimir nova dinâmica no sistema de atendimento em medicamentos aos doentes internados nas unidades hospitalares, para, disse, “evitar certas queixas”.
A assistência medicamentosa intra hospitalar, referiu, deve ser melhor cuidada porque tem características específicas.
O secretário da Saúde de Cabinda sublinhou que deve ser dada prioridade ao doente internado, sem descurar o doente ambulante: “A deontologia médica aconselha-nos que no caso de pacientes ambulatórios, depois da consulta, o médico emite a receita para este adquirir os fármacos no circuito extra-hospitalar, o que não acontece com o doente internado, a quem o hospital tem a obrigação de dar os medicamentos”.
Essa questão, lembrou, nem sempre encontra compreensão por parte da população, que entende que o hospital tem a obrigação de dar os medicamentos receitados, mesmo que o paciente esteja em tratamento ambulatório.
“Por um lado, vamos fazer um trabalho de fundo para saber da essência das lamentações da população e, por outro, sensibilizá-la para entender as regras de gestão de medicamentos”, sublinhou.
Carlos Zeca assegurou que assume a chefia do sector num “bom momento da vida da província, que conta com a maior parte de especialidades médicas e um corpo clínico à altura das solicitações”.

Serviços de ortopedia

Carlos Zeca mostrou-se preocupado com os Serviços de Ortopedia, que, salientou, “precisam de mais médicos”: ”Vamos propor ao Governo local que reforce esta área com mais médicos especializados devido ao grande fluxo de pacientes vítimas de atropelamento”.
A nível dos municípios do interior, declarou que, além de querer personalizar o atendimento aos pacientes, tenciona dotá-las de médicos especializados e dos devidos equipamentos para o atendimento de casos delicados.
As acções, disse, devem estar direccionadas para travarem o excesso de doentes no Hospital Central, colocando especialistas e instalando tecnologia de ponta nas unidades sanitárias de Cacongo, Buco-Zau e Belize.

Pediatria e maternidade

Os Serviços de Pediatria e de Maternidade no HCC são duas áreas que têm preocupado as autoridades sanitárias, devido, sobretudo, ao excesso de doentes nas poucas enfermarias existentes.
O hospital, que já teve 325 camas, viu reduzido esse número para 146 devido às obras em curso no estabelecimento. Não é, por isso, raro ver mais de uma criança ou duas parturientes partilharem um mesmo leito.  
Carlos Zeca está consciente das dificuldades do HCC, onde, durante cinco anos, foi director clínico, e promete trabalhar para que, em breve, se registem melhorias nas duas especialidades, que considera vulneráveis.
Carlos Zeca revelou que é intenção do Governo separar do Hospital Central os “serviços de grande vulto”, construindo duas grandes unidades sanitárias no bairro Primeiro de Maio.

Medicina privada 

Outro problema que Carlos Zeca vai enfrentar é o da venda de medicamentos. A maior parte dos locais onde podem ser adquiridos não tem as condições mínimas e, para pior o quadro, os medicamentos, provenientes de supostos laboratórios da RDC e Índia, são muitas vezes adulterados por contrabandistas.
Carlos Zeca reconhece que a “situação é crítica, mas não impossível de se resolver”. Numa primeira fase, referiu, vai promover um “levantamento exaustivo do sector” e depois “estabelecer regras de trabalho de cumprimento obrigatório por parte dos proprietários desses locais”.
“Vamos submeter um plano de trabalho a todas unidades sanitárias privadas, onde estão inseridos critérios de funcionamento de cumprimento obrigatório”, disse Carlos Zeca, para quem esta estratégia visa, acima de tudo, “criar o sentimento de que não devem só olhar para o dinheiro, mas tratar os doentes com a dignidade que as pessoas merecem”.
A venda anárquica de medicamentos e intervenções cirúrgicas em unidades sanitárias privadas sem qualificações, esclareceu Carlos Zeca, vão ser combatidas de forma implacável.  
  
Hospital 28 de Agosto

O Hospital 28 de Agosto, no bairro Cabassango, é uma das mais modernas unidades hospitalares da província e de referência nacional. Está dotado de tecnologia de ponta que permite efectuar exames de especialidade nas áreas de cardiologia, estomatologia, optometria/oftalmologia, nefrologia e diabetologia.
Mais recentemente, o hospital foi equipado com um moderno sistema que abarca exames de tomografia computarizada (TC), ressonância magnética por imagem (RMI), mamografia, ecografia, raio x convencional e tomografia por emissão de positrões (PET).
O objectivo que levou o governo da província a investir no projecto, que custou cerca de seis milhões de dólares na reabilitação, reequipamento e formação do pessoal na África do Sul, é o de diminuir os gastos com a transferência de doentes para unidades hospitalares especializadas em Luanda ou para o estrangeiro.
E como não há bela sem senão, a população local tem-se manifestado contra os preços praticados no Hospital 28 de Agosto. O secretário provincial da Saúde justifica o facto com a lei da comparticipação hospitalar.
Carlos Zeca afirmou que os preços dos serviços praticados no Hospital 28 de Agosto não são especulativos porque os valores cobrados são aplicados na manutenção do imóvel e dos equipamentos.
“É preciso que a população entenda que a tecnologia disponível no Hospital 28 de Agosto é de ponta e a utilização daqueles serviços não pode ser de forma completamente grátis”, disse.
“Vamos criar um incentivo para que a comparticipação não prejudique nem a direcção do Hospital, nem a população. Acredito que vamos encontrar um meio termo”, disse.        

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