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Serrações mal aproveitadas fazem prosperar venda ilegal

Bernardo Capita | Cabinda

As duas serrações de transformação de madeira instaladas pelo governo da província de Cabinda há dez anos na sede municipal de Buco Zau e na aldeia de Panga Mongo, adjudicadas às empresas privadas Sideman e ao Grupo Abílio de Amorim, estão mal aproveitadas.

O mau aproveitamento de unidades fabris adjudicadas pelo governo a empresas privadas fez disparar o preço da madeira em Cabinda
Fotografia: Jornal de Angola

As duas serrações de transformação de madeira instaladas pelo governo da província de Cabinda há dez anos na sede municipal de Buco Zau e na aldeia de Panga Mongo, adjudicadas às empresas privadas Sideman e ao Grupo Abílio de Amorim, estão mal aproveitadas.
Os dois empreendimentos, com capacidade para produzir diariamente 25 metros cúbicos de madeira serrada cada, avaliados em 127,7 milhões de kwanzas, foram projectados em 2001 pelo governo local no sentido de colmatar a procura de madeira, sobretudo para a confecção de caixões e obras de construção civil. No circuito informal, principal fonte que sustenta o mercado provincial, os preços praticados são excessivamente altos.
O Governo procedeu à adjudicação das duas serrações em regime de crédito reembolsável em cinco anos e um período de carência de um ano para se libertar da gestão de algo que deve ser feito por entidades privadas, mas sobretudo procurou, com isso, ajudar a classe empresarial local a desenvolver-se. Contra todas as expectativas, as duas empresas não têm estado a corresponder com o objecto social que levou o Governo a conceder-lhes as serrações, motivo pelo qual o vice-governador para Área Técnica, Económica e Produtiva, António Manuel Gime, efectuou quinta-feira uma visita ao município de Buco Zau para constatar as dificuldades que estão na base do não funcionamento regular das duas unidades de produção.
Na serração de Panga- Mongo, localizada 80 quilómetros a Nordeste de Cabinda, adjudicada à empresa Sediman Lda, com 50 operários, o vice-governador foi informado por Jorge Raul Sanda, que a grande dificuldade está na falta de licenças de exploração de madeira.
Segundo explicações de Jorge Raul Sanda, toda a documentação já foi canalizada para as estruturas competentes há mais de dois anos para aprovação, “mas, lamentavelmente, até hoje, nem água vai nem água vem”.
Jorge Raul Sanda informou que “encaminhamos o dossier ao Instituto de Desenvolvimento Florestal, mas, se calhar, devido às quantidades de madeira que nos propusemos explorar, o processo está a depender da autorização do governador provincial”, disse Jorge Raul Sanda.
Outra dificuldade apontada pelo empresário Jorge Raul Sanda, a quem foi adjudicada a serração em Agosto de 2008, está no facto de ter recebido somente há pouco menos de dois meses a documentação final que confere a titularidade do empreendimento à Sediman Lda, situação que impossibilitou o funcionamento da empresa.
“Para manter a serração a laborar pelo menos a 40 por cento da sua capacidade, tivemos que estabelecer uma parceria com a empresa Safra Lda, sociedade que permitiu adquirir, entre outros equipamentos, três máquinas Skidrs, três monta-cargas, uma máquina D6R e um grupo gerador de 360 KVA”, disse.
Com estes equipamentos, acrescentou Jorge Raul Sanda, a Sediman Lda. já consegue manter minimamente funcional a serração, tendo como recurso a madeira em toro comprada a outras empresas do ramo não detentoras de áreas de transformação (serração).
Enquanto a serração de Panga Mongo funciona a meio gaz, na serração de Buco Zau o cenário é diferente. Nessa unidade de produção, além de apresentar um decadente estado de abandono, há falta de madeira em toro, equipamentos de trabalho e o capim ameaça engolir as suas instalações fabris.
Durante a visita, o vice-governador António Manuel Gime não encontrou sequer um responsável que pudesse prestar informações sobre o seu funcionamento à comitiva do governo, integrada igualmente pelo secretário provincial da Agricultura e Indústria e de responsáveis do Instituto de Desenvolvimento Florestal (IDF).

Governo insatisfeito

O vice-governador manifestou, por isso, a sua insatisfação face ao subaproveitamento das duas serrações construídas pelo governo da província com fundos públicos para satisfazer as populações e ajudar as empresas privadas do sector madeireiro a crescer.
Segundo António Gime, o não funcionamento das duas serrações não agrada nada ao governo, que quer ver rapidamente o investimento feito a cumprir o seu objecto social.
Para António Manuel Gime, uma das razões que moveu o governo a erguer as duas serrações em Buco Zau era dar emprego aos jovens e combater o comércio informal de madeira, um negócio que tem vindo a prosperar significativamente por falta de carpintarias industrializadas vocacionadas para trabalhos de transformação da madeira.
“Se tivermos uma carpintaria com equipamentos suficientes para produzir janelas, caixões e portas, certamente que isso era muito bom para todos”, disse.
A administradora municipal de Buco Zau, Marta Lelo, chamada a intervir, disse que o não funcionamento das duas serrações localizadas na sua área de jurisdição tem estado a dificultar à população a compra de madeira, sobretudo para confecção de caixões, pelo que o recurso tem sido o mercado informal, onde os preços são muito elevados.
Segundo Marta Lelo, esta situação impossibilita às autoridades do município combater a exploração ilícita de madeira, por ser esta a alternativa que a população encontra para ultrapassar as dificuldades do dia-a-dia.
“Se alguém tiver que fazer garimpo de madeira na floresta do Maiombe, nós não temos como combater isso, porque senão a população é que sofre”, disse Marta Lelo resignada.
 
Sobas pedem ajuda

O regedor Augusto Bianga, da aldeia de Panga Mongo, disse à reportagem do Jornal de Angola que a população daquela localidade atravessa sérias dificuldades para conseguir madeira serrada para caixões e para construção de portas e janelas para as suas casas.
Visivelmente insatisfeito com a Sediman Lda, pelo facto da empresa não ter trazido nada de novo às populações de Panga Mongo, o soba acusou aquela empresa de estar a beneficiar de um investimento do Governo limitando-se a serrar “pranchas” para exportação.
“Neste preciso momento em que vos falo, a regedoria de Panga Mongo sofre com a falta de madeira e barrotes mas a empresa já preparou seis contentores com madeira em prancha para exportar”, queixou-se Augusto Bianga, solicitando a intervenção da direcção da empresa no sentido de empregar mais jovens da aldeia e fornecer também madeira para as populações locais.

Combate ao garimpo
 
O director do Instituto de Desenvolvimento Florestal (IDF), Simão Zau, disse que a instituição que dirige está sem meios técnicos e humanos para fiscalizar a actividade de exploração florestal seja lícita ou ilícita.
Segundo aquele responsável, a falta de uma remuneração adequada para os guardas florestais e de meios de locomoção, “impossibilitam as pessoas que exercem actividade de fiscalização florestal de trabalharem devidamente”.
Simão Zau disse que “o salário baixo decorre do não enquadramento dos fiscais numa carreira própria, que é a categoria de guarda-florestal, o que não existe na actual tabela salarial, factor que criou uma certa discriminação em relação a essas pessoas”. Simão Zau acrescentou que com essa situação os guardas ficam vulneráveis a actos de corrupção.
Outro factor que torna o sector vulnerável, segundo Simão Zau, é a falta de recursos financeiros para custear acções de qualificação profissional.
Para Simão Zau, mesmo com este rol de dificuldades, o Instituto de Desenvolvimento Florestal tem feito das tripas coração para manter funcional a instituição, tendo licenciado durante o ano transacto dez metros cúbicos de madeira.
O mercado ilegal de madeira em Cabinda tem-se tornado em cada dia que passa mais lucrativo, em virtude de propiciar enriquecimento fácil aos seus praticantes. O mercado do bairro Gika, na cidade de Cabinda, é o local onde se procede à venda de madeira proveniente do garimpo. Ali pode encontrar-se toda espécie de madeira, desde ngulo mazi, cambala, pau-preto, undianuni e tola branca, e os preços variam entre 2.500 kwanzas e 3.500 por tábua de seis metros de comprimento e 40 centímetros de largura, dependendo da espécie.

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