Províncias

Sida em Cabinda na linha vermelha

Joaquim Suami | Cabinda

O Programa de Luta contra HIV-SIDA, na província de Cabinda, registou, em 2009, 1.564 novos casos positivos, num total de 30.945 pessoas que efectuaram o teste de despistagem, em vários centros hospitalares da região.

Campanha de luta contra o vírus do HIV/Sida mobilizou milhares de pessoas na cidade de Cabinda
Fotografia: António Soares

O Programa de Luta contra HIV-SIDA, na província de Cabinda, registou, em 2009, 1.564 novos casos positivos, num total de 30.945 pessoas que efectuaram o teste de despistagem, em vários centros hospitalares da região. O responsável do Programa de Luta contra o HIV-SIDA, José Vada Júnior, disse ao Jornal de Angola estar profundamente preocupado com o aumento do número de casos e revelou que das 1.945 pessoas diagnosticadas com o vírus, apenas 511 foram para os centros de aconselhamento, e 1.058, que não aceitaram o resultado do teste, continuam sem acompanhamento médico. 
José Vada Júnior referiu que das 7.722 pessoas que efectuaram o teste de HIV, no primeiro trimestre do ano em curso, 329 receberam resultados positivos. Acrescentou que das 3.405 mulheres, principalmente grávidas, que efectuaram o teste de HIV, no mesmo período, 72 estão infectadas. 
O responsável do Programa de Luta contra HIV-SIDA disse que o município de Cabinda, por ser o que possui maior número de habitantes, registou mais casos positivos, com 88,3 por cento, seguindo-se o município de Cacongo, com 7,8 por cento, Buco-Zau, com 3,1, e Belize, com 0, 7 por cento.
“A situação do HIV-SIDA na província de Cabinda é preocupante. Senão vejamos: num ano tivemos 1.564 casos positivos e se multiplicarmos este número por 10 poderemos concluir que, a continuar a propagação da doença a este ritmo, daqui a 10 anos teremos um número elevado de seropositivos no nosso meio, o que é um perigo para a sociedade. Por isso, cada um deve reflectir e fazer o seu teste de forma voluntária, para que saiba, o mais cedo possível, qual o seu estado serológico”, aconselhou.
O Programa de Luta contra o HIV-SIDA tem estado a desenvolver, em todos os municípios de Cabinda, actividades que pretendem sensibilizar as pessoas para os cuidados a ter na prevenção da doença. Em Maio, no âmbito das suas acções, o programa apresentou aos estudantes de diversas universidades locais os dados do HIV-SIDA na província, tendo aconselhado os alunos a reflectirem sobre os perigos que a enfermidade representa na sociedade.
 
Abertura de novos centros

Com vista a expandir as suas actividades em todas as localidades da província mais a Norte de Angola, o Programa de Luta contra o HIV-SIDA anseia pela abertura de novos centros de aconselhamento, principalmente nas zonas rurais, de modo a aumentar as acções de testagem voluntária em todas as comunidades.
Vada Júnior disse que o objectivo principal do Programa é levar as acções de aconselhamento a todos os cantos da província, por existirem pessoas que ainda duvidam da existência da doença, continuando a ter práticas sexuais de risco.
O Programa, segundo fez questão de frisar, também desenvolve acções de aconselhamento e de sensibilização nas regedorias da comuna do Tando Zinze, onde o trabalho é desenvolvido em conjunto com as autoridades tradicionais, para que estas falem do HIV-SIDA e dos perigos que representa nas comunidades.
O Programa de Luta contra o HIV-SIDA vai continuar a desenvolver as actividades de aconselhamento e sensibilização, com vista a esclarecer as populações dos perigos da doença e as formas de prevenção. Vada Júnior acrescentou que levar permanentemente a mensagem até junto das comunidades vai fazer com que muitas pessoas, mesmo aquelas que são preconceituosas, tomem conhecimento da importância de fazerem o teste voluntário para que saibam qual o seu estado serológico.
O hospital do Povo Grande é o centro de referência do programa, sendo aqui que se desenvolvem as actividades de aconselhamento, sensibilização e acompanhamento. Os hospitais municipais do Cacongo, Chinga, Belize, Buco-Zau e da comuna do Necuto possuem todas as condições necessárias para se fazer o acompanhamento útil das pessoas seropositivas, acrescentou o responsável.
“No passado, as pessoas com HIV-SIDA precisavam de uma junta médica para fazerem o tratamento no estrangeiro, mas, hoje, quem morrer com Sida, em Cabinda, morre por ignorância, porque temos todas as condições necessárias, tanto de fármacos como de acompanhamento para as consultas”, esclareceu.

Trabalhos de investigação

Um grupo de seis alunas do Instituto Médio João Paulo II, que frequentam a 10ª classe no curso de Comunicação Social, está a realizar trabalhos de investigação sobre HIV-SIDA, que vão ser apresentados no final do ano lectivo naquele estabelecimento de ensino.
A aluna Telma Emílio, de 20 anos, disse que o trabalho de investigação que estão a realizar visa sensibilizar os jovens da sua escola, em particular, e da província de Cabinda, em geral, para os perigos do HIV e sobre os cuidados a terem para se prevenirem do contágio. Referiu que os jovens, como garante do futuro do país, devem conhecer os perigos que representa para a sociedade o  HIV-SIDA e terem noções básicas para sensibilizarem os seus familiares, amigos e vizinhos no sentido de se protegerem da doença.
Maria Funzito, de 17 anos, disse que o factor que motivou o grupo a escolher o trabalho sobre HIV foi o facto da província de Cabinda possuir muitos casos de seropositividade “e os dados apresentados sobre o alastramento da doença serem preocupantes”.
Por outro lado, “também estamos a fazer este trabalho de investigação para sabermos mais sobre a doença e as suas consequências. Com os conhecimentos que tenho, procuro sempre aconselhar as pessoas a prevenirem-se e fazerem o teste voluntário, de modo a saberem do seu estado serológico”, acrescentou a jovem.
Lourdes Yele, igualmente de 17 anos, também quis participar deste grupo de trabalho por pretender saber mais sobre a doença, referindo que já fez várias vezes o teste voluntário. Por isso, tem estado a aconselhar raparigas da sua idade e outros jovens para se documentarem sobre a doença, os cuidados a terem e as formas de prevenção. “Estamos a fazer este trabalho de investigação com o objectivo de sensibilizar os jovens para fazerem o teste voluntário, usarem sempre a camisinha em relações sexuais ocasionais e serem fiéis, terem apenas um parceiro ou uma parceira”, disse.
De 16 anos, Ivanira Almeida realçou que o trabalho de investigação que levam a cabo vai permitir ao grupo adquirir mais conhecimentos sobre o HIV e com isso sensibilizar os alunos, professores e a própria sociedade cabindense dos perigos da doença e as formas de prevenção. “A província tem muitos casos de seropositivos e existem pessoas escondidas, que se negam a fazer o teste, o que é mau. O Instituto Médio João Paulo II é uma instituição que tem ajudado os jovens na realização de palestras de sensibilização para os perigos do HIV e de outras doenças de transmissão sexual, o que tem estado a permitir aos alunos ter mais conhecimentos sobre a doença”, disse.        

Cabinda na linha vermelha

O director executivo da Associação dos Amigos Seropositivos (AAS), Evaristo Lucas Kanica, afirmou que a província é uma das regiões do país que se encontra na linha vermelha em relação à doença, devido ao elevado índice de casos positivos de HIV-SIDA.
Para ele, os dados que Cabinda apresenta são preocupantes e, por isso, defende o aumento de acções de aconselhamento e de sensibilização para que os habitantes da região possam prevenir-se e travar o alastramento do contágio no seio das populações.
“Todas as províncias de Angola que fazem fronteira com outros países possuem índices elevados de HIV-SIDA e Cabinda não foge à regra. Por isso, aconselhamos as pessoas a terem o máximo cuidado, porque todas as formas de prevenção já são conhecidas. O HIV-SIDA é uma doença que ainda não tem cura e se conseguirmos travar o contágio, a sociedade fica a ganhar”, disse.
O responsável da AAS referiu que a organização que dirige tem estado a apoiar as pessoas portadoras de HIV-SIDA, no âmbito do seu programa de advocacia, aconselhamento, sensibilização e de acompanhamento dos seropositivos. Realçou que a organização tem 450 associados e 525 portadores de HIV-Sida recebem apoio com anti-retrovirais.
Evaristo Lucas Kanica disse que a AAS precisa, todavia, de mais patrocínios da USAID, do governo da província e de algumas ONG´s internacionais para poder desenvolver as suas actividades sem sobressaltos. “No âmbito das nossas acções, temos feito prevenção primária com os alunos de várias escolas de Cabinda, dentro e fora do recinto escolar, e também trabalhamos com as profissionais do sexo e no acompanhamento da pessoa portadora de HIV-SIDA. A nossa província é vulnerável e a entrada de estrangeiros no país, sem o devido controlo, contribui para o aumento do contágio da doença na região”, disse, pedindo às autoridades da migração que intensifiquem as suas acções nas fronteiras da província.
 

Tempo

Multimédia