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Canal ferroviário garante circulação com segurança

Adalberto Ceita| Malange

A circulação regular dos comboios de passageiros e de carga passa a ser uma realidade na linha-férrea de Luanda a Malange, nos próximos cinco meses.

Populares numa das estações da via ferroviária Luanda/Malange a presenciarem a chegada do comboio
Fotografia: João Gomes

A circulação regular dos comboios de passageiros e de carga passa a ser uma realidade na linha-férrea de Luanda a Malange, nos próximos cinco meses. A fase experimental, que visa dar estabilidade ao canal ferroviário e estruturas da linha, decorre desde o início deste mês. Em breve Luanda e Malange ficam mais próximas com viagens diárias para passageiros e cargas
A chegada à estação de Malange do comboio experimental proveniente de Luanda foi uma festa. Milhares de pessoas ficaram junto à linha a ver passar o comboio. A composição tinha carruagens de passageiros e vagões de carga. Saiu de Luanda às cinco e meia da manhã, percorreu 424 quilómetros e efectuou paragens nas estações de Catete, Barraca, Zenza do Itombe, Ndalahui, Luinha, Canhoca, Ndalatando, Lucala e Cacuso antes de chegar à estação de Malange, pouco antes das 21 horas. Apesar de ser noite, centenas de pessoas esperavam o comboio. Em breve pessoas e mercadorias têm um meio de transporte seguro e barato para se deslocarem a Luanda. Os comerciantes já fazem contas à vida porque com as viagens regulares de comboio, as perspectivas de negócio são excelentes e os lucros vão aumentar.
Comerciantes e consumidores vão beneficiar com o comboio, porque os custos dos transportes vão ser muito menores e os preços finais dos produtos vão descer.
Os maquinistas levaram o comboio em velocidade moderada porque a via está em fase experimental. A segurança está acima de tudo e é preciso averiguar todos os aspectos técnicos da via. Quando funcionar em pleno, o comboio vai circular a uma velocidade máxima de 100 quilómetros por hora.
Homens de negócio já falam em ganhos. Manuel Gota, comerciante, realça que a circulação do comboio vai fortalecer as trocas comerciais e desenvolver o sector agrícola.
Fátima Borges vive próximo da estação da Canhoca. Por falta do comboio, a população é obrigada a caminhar diariamente três quilómetros a pé para chegar à paragem mais próxima dos autocarros ou dos táxis. Camponesa, como quase todos os habitantes da região, perdeu a conta aos produtos colhidos mas que apodreceram por falta de escoamento. A laranja, o milho, ginguba e a mandioca são os produtos mais cultivados na Canhoca: “com a chegada do comboio, facilmente vamos a Luanda onde os nossos produtos são bem vendidos”, disse Fátima Borges.
Apesar de ainda ser uma criança naquela época, Fátima Borges recorda os acontecimentos que se seguiram às eleições de 1992, e que obrigaram à paralisação do comboio. Os camponeses da região ficaram arruinados e passaram a viver em total isolamento. Mas Fátima Borges nem quer pensar nesses tempos. Ela diz que “o comboio está aí, é bonito, vai mudar a nossa vida porque podemos receber na Canhoca tudo o que nos faz falta e mandar para os mercados de Luanda os nossos produtos que têm muita qualidade”.
A passagem do comboio nas aldeias, comunas e municípios entre Luanda e Malange, apanhou muita gente de surpresa. E quando a locomotiva apitava, havia aplausos. Os mais velhos olhavam para o comboio com alguma emoção à mistura.
A curiosidade dominava as pessoas. Todos queriam saber as condições de acesso e de transporte nos comboios. A data do seu funcionamento, os horários de partida e chegada e o preço do bilhete.
O soba do bairro do Ritondo, Pedro Fiete, disse que para trás ficam anos de sofrimento: “a demora foi longa, mas sempre acreditei no regresso do comboio porque é o meio de transporte que mais facilita a movimentação das populações”. O soba deixou um apelo: “vamos todos preservar ao máximo este importante bem público”.

Novas estações

Ao percorrer o traçado ferroviário entre as províncias de Luanda e Malange, as novas estações saltam à vista. Todas têm salas de espera, gabinete do chefe da estação, um gabinete de controlo, bilheteiras, armazéns, instalações sanitárias e algumas têm casas para os ferroviários em trânsito.
A par da construção das estações, faz parte do programa de reabilitação dos CFL a modernização e apetrechamento dos cais com meios apropriados para as cargas e os passageiros.
As manobras manuais estão ultrapassadas. O chefe da área técnica da estação de Malange, Victor Geraldo, explicou à nossa reportagem que a instalação de um aparelho de controlo das manobras de parqueamento e de apoio à circulação do comboio veio simplificar o trabalho. Agora o processo é automático e os técnicos que vão manusear o aparelho estão em fase final de formação.
Além dos avanços tecnológicos introduzidos, foram substituídas todas as travessas e os carris e a construção de pontes e pontões. O novo traçado dos CFL apresenta excelentes condições técnicas para a circulação permanente de comboios.

Negócio na linha

Apesar de todo o esforço que tem vindo a ser feito pela administração e por técnicos dos CFL para “pôr o comboio nos carris” e tornar viável o seu funcionamento, volta e meia são registados actos de vandalismo ao longo do percurso e as pessoas “invadem” o canal ferroviário.
No mercado da Xauande, por exemplo, algumas vendedoras realizam as vendas mesmo em cima da linha-férrea. O mercado, que é considerado o maior na província de Malange, divide os bairros de Carreira de Tiro e Campo de Aviação. As vendedoras admitem que já foram notificadas para abandonarem o local, mas continuam com os seus “negócios” em cima da linha o que pode provocar acidentes graves e até o descarrilamento do comboio.
Para inverter a situação, a administração dos CFL avalia com as autoridades de Malange a melhor forma de pôr fim ao acesso aos carris. “Às vezes nos correm daqui, mas como não temos espaço para vender acabamos sempre por voltar”, disse à nossa reportagem a vendedora Mingota.
Ao longo do canal ferroviário as autoridades têm detectado cortes propositados nas comunicações entre as diferentes estações. Grupos organizados andam a roubar os cabos de fibra óptica. Victor Geraldo disse que, até ao momento, foram roubados quatro mil metros, na região do Lombe, que dista 13 quilómetros da cidade de Malange.

Regresso à normalidade

O governador da província do Kwanza-Norte, Henrique Júnior, disse que a circulação do comboio marca o regresso à normalidade nos transportes ferroviários e vai trazer “enormes benefícios à população”.
Henrique Júnior, que falava depois da chegada do comboio à estação de Ndalantado, referiu que “a partir de agora aumentam as opções no transporte de pessoas e mercadorias e vamos registar grandes avanços no processo de reconstrução nacional em na província”.
O governador do Kwanza-Norte disse que “o comboio vai trazer também grande alegria às populações porque os alimentos vão passar a chegar a um custo acessível”.
O Kwanza-Norte fica privilegiado com a circulação do comboio, disse Henrique Júnior, que salientou o avanço no trabalho em curso de melhoramento das estradas: “o processo de reconstrução nacional está vivo aqui na província, tendo sempre em linha o programa do Executivo”, disse.

Circulação permanente

Os CFL estão a criar as condições para que o comboio volta a circular permanentemente a partir de Dezembro próximo, garantiu o seu presidente do conselho de administração, Lobo do Nascimento. Esclareceu que a empresa vai continuar a trabalhar para ultrapassar os constrangimentos que foram identificados durante a viagem experimental: “vamos repor a circulação do comboio dentro dos prazos estabelecidos”.
Lobo do Nascimento lamentou os actos de vandalismo em alguns pontos do traçado ferroviário. Apontou com indignação a área circundante à estação de Ndalatando, onde foram destruídos os sinais verticais de sinalização.
A empresa tem falta de pessoal para preencher os postos técnicos em todas as estações. Neste aspecto, os CFL pensam ultrapassar a situação com recrutamento de novos quadros, mas a administração também está a analisar a situação dos antigos funcionários que se encontram fora da empresa. “Os que demonstrarem capacidade de trabalho podem ser novamente enquadrados”, disse o presidente do conselho de administração dos CFL.
Lobo do Nascimento disse que o novo traçado do caminho-de-ferro entre Luanda e Malange apresenta boas condições técnicas para a circulação permanente de comboios de passageiros e de cargas.
“A linha está reabilitada até Malange e na viagem experimental viajámos a uma velocidade entre 40 e 70 quilómetros por hora. Por isso, creio que está tudo bem com a  linha”, rematou.

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