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Cateco Cangola volta à normalidade

Adelino Ngunza |Malange

A normalização da administração do Estado em Cateco Cangola, comuna do município de Calandula, na província de Malange, faz prever dias melhores para os sectores da Educação, Saúde e Agricultura, enquanto a comercialização dos produtos agrícolas e as quedas de Mbangoanzenze na região aguardam por investidores

Um grande número de crianças não estuda por falta de salas de aula e professores
Fotografia: JA

 A normalização da administração do Estado em Cateco Cangola, comuna do município de Calandula, na província de Malange, faz prever dias melhores para os sectores da Educação, Saúde e Agricultura, enquanto a comercialização dos produtos agrícolas e as quedas de Mbangoanzenze na região aguardam por investidores

Depois de mais de sete anos sem a presença da administração pública, a vida regressa à normalidade na comuna de Cateco Cangola, a 105 quilómetros da sede municipal de Calandula, na província de Malange.
O ambiente foi de festa, quando, há duas semanas, uma caravana automóvel parou na sede comunal para o acto formal da reposição da administração do Estado na comuna e pouco depois foram apresentados o administrador comunal, Salvador Calunga, e a adjunta, Maria Augusta Armindo.
O administrador municipal de Calandula referiu a importância da normalização da administração do Estado em Cateco Cangola, particularmente nos domínios da educação, saúde, agricultura, saneamento básico e de outros serviços sociais.Manuel Campos assegurou que, doravante, se vão procurar encontrar os mecanismos necessários para solucionar os problemas de Cateco Cangola, de modo a que, nos próximos dias, a vida renasça na comuna.
 
Saúde com problemas

A ausência, durante vários anos, da administração do Estado da comuna do Cateco Cangola provocou inúmeras dificuldades, sobretudo na educação e na saúde.
O responsável comunal da saúde sublinhou que o sector “vive mil e um problemas, desde a falta de medicamentos essenciais para doenças correntes, como a malária, as diarreicas e respiratórias agudas, à ambulância para transporte de pacientes em caso de urgência”.
As estruturas sanitárias, disse, também não são as mais adequadas para um atendimento digno dos doentes, que acorrem, aos magotes, ao pequeno posto médico. Júlio Miguel frisou que “o rosário de dificuldades não se fica por aqui”, alertando que o posto médico de Cateco Cangola não tem enfermeiros suficientes, funciona apenas com um técnico médio e dois promotores de saúde para acudir às necessidades de mais de 14 mil habitantes, e tem falta de antídotos para fazer face às mordeduras de cobras.
Alguns destes problemas, afirmou, podem ser ultrapassados com a intervenção da administração comunal, como é o caso da ambulância, da criação de brigadas de vacinação e a integração de parteiras tradicionais no sistema público de saúde.

Faltam professores

Dos dois mil alunos matriculados no I e II níveis, 800 não têm aulas por falta de professores.Em Cateco Cangola, confirmou o Jornal de Angola, há também falta de manuais de ensino, de livros e, até mesmo, de esferográficas e de lápis.
Manuela José, 12 anos, aluna da 6ª classe, disse à nossa reportagem não estar “nada satisfeita com o rumo do ensino em Cateco Cangola”. E explica porquê: tem apenas uma aula por semana por falta de professores e de material didáctico.
Maurício Manuel também está matriculado e quer ser engenheiro agrónomo mas, com as aulas dia sim, dia não, começa a perder a esperança de vir a realizar o sonho. 
“Tenho 15 anos, ando na quinta classe, quero ser engenheiro agrónomo, mas o meu sonho pode não se concretizar porque os nossos professores faltam muito”, lamentou.
 
Potencial agrícola

 
O sector da agricultura em Cateco Cangola não está rentabilizado, mas pode ser, num futuro próximo, a base do desenvolvimento socioeconómico da comuna, afirmou o chefe da secção municipal da Agricultura de Calandula.
Durante todos esses anos de ausência, disse, todas as acções relacionadas com a agricultura foram assumidas pela Associação de Desenvolvimento Rural e Ambiente (ADRA), uma ONG nacional que trabalha em parceria com o Governo nas áreas rurais. Tomé Dias Soares assegurou que a situação é resolvida nos próximos dias, pois Cateco Cangola vai ter um representante da Agricultura para ajudar as comunidades a resolverem alguns problemas que o sector enfrenta e trabalhar para encontrar mecanismos para o transporte de vários produtos agrícolas armazenados pelos camponeses.Quanto ao apoio mecanizado aos produtores e agricultores, disse não existir qualquer projecto da responsabilidade da administração municipal porque “esse trabalho é da competência da MECANAGRO, empresa sem representação em Cateco Cangola”.
 
Apelo à colaboração
 
O novo administrador comunal do Cateco Cangola pediu, no acto da sua apresentação, a colaboração dos habitantes da região para encontrar soluções para os muitos problemas apresentados.
Salvador Calunga admitiu que é preciso o financiamento governamental para resolver problemas do saneamento básico e outros decorrentes da responsabilidade social dos órgãos do Estado, mas afirmou que outros podem ser solucionados pela comunidade sem ser necessário recorrer a fundos estatais.
 “A limpeza ao redor das nossas casas e a conservação das escolas e do posto médico podem ser feito pela comunidade sem serem necessários grandes recursos financeiros”, declarou.
 
Terra de caçadores

 
Cateco Cangola situa-se 280 quilómetros a norte da sede provincial de Malange e a 105 da sede municipal de Calandula, ex-Duque de Bragança. Faz fronteira, a norte com a província do Uíge, a oeste, com o Kwanza-Norte, a sul com a comuna do Kinge, município de Calandula, e a leste, com o Cuale. A região tem mais de 14 mil habitantes, que estão a regressar, aos poucos, de outras paragens, onde se refugiaram durante a guerra
Os habitantes da região dedicam-se essencialmente à agricultura e em alguns casos praticam a pesca e a caça miúda de animais selvagens.
Cateco Cangola é banhado por quatro rios, dois dos quais de grande caudal, o Lucala e o Lussungungi. Mufumbue e o Cussi são mais pequenos, mas onde também se pratica a pesca. A comuna tem 71 aldeias e igual número de sobas.
Mbanza  Cateco, 70 anos, a autoridade máxima do poder tradicional na região, lembrou, ao Jornal de Angola, a origem do nome “Kateco-Kangola”, surgido no século XIX:
“A localidade era habitada por caçadores liderados pelos irmãos Ngola e Cateco, quando os primeiros portugueses chegaram à região. Perguntaram a Cateco como se chamava a aldeia e ele, que não entendia português, pensou que lhes haviam perguntado o nome e respondeu, em kimbundo, que ele era Cateco e Ngola o irmão”.Foi assim que os portugueses atribuíram o nome de Cateco Cangola àquela localidade, então pertencente ao reino do Ndongo.
O soba Mbanza afirmou que ele é, desde os seus antepassados, o quarto homem que lidera o poder em Cateco Cangola. Mbanza Cateco disse, ao Jornal de Angola, que graças à paz já se respira o ar da liberdade e que, aos poucos, os filhos da terra vão reconstruindo as vidas, com reflexos visíveis na agricultura, pesca e comércio de produtos agrícolas.
A comuna, salientou, é essencialmente agrícola e o seu solo adaptável ao cultivo do milho, feijão, amendoim, inhame, batata-doce e rena, mandioca, e cana-de-açúcar.
A falta da comercialização dos produtos do campo constitui um problema para os camponeses. Por isso, o soba pede aos homens de negócios que “façam o máximo ao seu alcance” para os comprar.

Cartaz turístico
 
A comuna tem também um grande potencial turístico. As cataratas do Mbango-a-nzenze e as suas lindas paisagens encantam quem visita a região.O rio Lucala, hospedeiro das famosas quedas de Calandula, também acolhe as célebres cataratas do Mbango-a-nzenze, a dez quilómetros da sede comunal.
O administrador municipal de Calandula revelou que “existe já um programa para rentabilizar o recinto turístico” e convida os que pretendam investir no comércio, na hotelaria e no turismo que o façam sem demora, porque CKateco aguarda por todos”.

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