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Cheias desalojam famílias

Estanislau Costa| Lubango

A cinco metros das margens do rio Mukufi estão centenas de casas de blocos de adobe, a maioria cobertas com chapas de zinco. Numa das casotas vive um casal com os primogénitos Hossi e Jamba, gémeos de 7 anos.

As chuvas estão a destruir muitas casas na província da Huíla deixando ao relento centenas de famílias que clamam por apoio
Fotografia: Estanislau Costa

A cinco metros das margens do rio Mukufi estão centenas de casas de blocos de adobe, a maioria cobertas com chapas de zinco. Numa das casotas vive um casal com os primogénitos Hossi e Jamba, gémeos de 7 anos.
Hossi e Jamba jamais imaginaram que o perigo da área onde está a casa que habitam, há sensivelmente seis anos, escondia-se no riacho, cujo insignificante fio de água, no Cacimbo, dava para brincar. Com pequenos barcos de papel ou de esferovite.
Brincadeiras que, geralmente à tarde, cativavam outros garotos do bairro. Na água turva que vai desaguar ao rio Caculuvar, enquanto as crianças se distraem, os adultos aproveitavam para cuidar da higiene corporal, do vestuário e das plantas. Os gémeos tiveram de agir rápido, na quarta-feira, para se refugiarem sobre a mesa, por causa da inundação provocada pela água do riacho resultante das enxurradas verificadas na cidade do Lubango.
 “A água do rio começou a entrar e quando chegou na altura do sofá ficámos com medo e subimos rápido na mesa. A força da água arrastou a casa de banho de fora e levou as plantas e a roupa que a mamã estendeu no capim”, contaram os garotos.
Quando a enchente do riacho se registou, no período da tarde, os gémeos e tantas outras crianças estavam sozinhas nas casas porque era hora de expediente. Por isso, várias famílias viram, entre outros males, os haveres destruídos, as casotas parcialmente danificadas.
Centenas de pessoas que ergueram as casas nas margens dos rios Mucufi, Caculuvar e outros riachos da cidade do Lubango foram afectadas pelas águas.
Agora, depois do primeiro susto, nesta altura, estão a procurar recompor-se e insistem em viver no leito dos rios.
As águas, que chegaram a atingir um metro e meio de altura, inundaram casas em várias zonas, como os bairros da Minhota, Lage, Sofrio e Revolução de Outubro.
Há quem atribua culpas das inundações a vizinhos que construíram nos locais de passagem de água.
O soba Elias disse que “a maioria das casas afectadas estão mesmo na passagem do curso normal das águas”, o que inviabiliza a drenagem apropriada, não só da água das chuvas, mas também das residuais.
A cidade do Lubango, salientou o soba, tem o privilégio de estar numa área com vários declives, o que facilita a drenagem natural das águas. A forma natural de retirar as águas desvirtuou-se por causa as construções em zonas impróprias.
           
Zonas afectadas

Em vários pontos da província da Huíla, há relatos de estragos causados pelas chuvas. A comuna de Capunda Cavilongo, município da Chibia, está isolada da sede. A força das águas destruíu as pontes.
A interrupção da circulação de pessoas e mercadorias inviabiliza o curso normal das aulas, pois a maioria dos professores vive na sede da Chibia, e a ida de bens do campo para a cidade e outras actividades essenciais ao desenvolvimento da comuna.
Os táxis só conseguem chegar à margem da ponte da via principal. A partir dai, é feito o transbordo dos passageiros para outras viaturas que estão na outra margem do rio.  O taxista António Fundão, que diariamente faz o percurso sede da Chibia-Capunda Cavilongo, disse que o trajecto está encurtado até as águas baixarem e libertarem a ponte.  “Transportamos os passageiros até a uma margem da ponte. Depois, as pessoas atravessam em canoas para outro lado, para apanhar outro táxi”, relatou ao Jornal de Angola.
 “Há três anos, o troço da Capunda Cavilongo foi terraplanado e a circulação tornou-se mais veloz e cómoda. Agora, as chuvas estão a criar ravinas no troço, lamaçal, provocando muitos transtornos durante a circulação”.
 
Prenúncio de perigo

Com a intensidade das chuvas, as casas de adobe e cobertas com chapas de zinco, que estão nas margens dos leitos dos rios e riachos do Lubango, são um perigo, principalmente para quem lá mora.
O engenheiro José Abílio esclareceu que a maioria das casas não está em condições de suportar a força das águas, devido ao material utilizado na construção.
           
Realojamento à vista
 
As autoridades da província da Huíla já prepararam um programa de realojamento de um número considerável de famílias que construíram casas onde não deviam. Vão ser realojadas no Chavola, arredores da cidade.
As mais de três mil famílias contempladas no realojamento já foram registadas. Destas, 115 receberam lotes de mil metros quadrados e tendas.
 O novo bairro, numa área de desenvolvimento urbano, dispõe de 58 hectares destinados às famílias por realojar.
Os deputados da Assembleia Nacional do ciclo provincial da Huíla do MPLA visitaram há dias o local que vai acolher as famílias. Os deputados recomendaram ao governo local a melhoria das condições dos novos bairros sociais.
Encabeçada por Marcelino Typingi, a delegação considerou que o processo de realojamento das famílias deve continuar porque visa a requalificação urbana, a melhoria do saneamento básico da cidade e mudança das pessoas das zonas de risco para outras mais seguras.  “Mas, é necessário que as novas áreas tenham as condições essenciais que conferem dignidade à população, como água, energia, saúde, segurança, educação e outros serviços, visto que estamos numa época chuvosa.

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