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Culturas rentáveis ganham prioridade

António Gonçalves|Benguela

Apesar das intenções em continuar a produzir açúcar a partir da cana, como no passado, a província de Benguela deve dar prioridade, a partir de 2010, à produção de outras culturas, igualmente rentáveis, em substituição daquela que foi uma das riquezas largamente exploradas e que contribuiu para o desenvolvimento socio-económico da província.

A maior parte dos campos dedicados à cultura da cana-de-açucar foram ocupados por outras plantações e por moradias
Fotografia: Reuters

Apesar das intenções em continuar a produzir açúcar a partir da cana, como no passado, a província de Benguela deve dar prioridade, a partir de 2010, à produção de outras culturas, igualmente rentáveis, em substituição daquela que foi uma das riquezas largamente exploradas e que contribuiu para o desenvolvimento socio-económico da província.

Esta mudança deve-se ao facto de, segundo o director provincial da Agricultura e Desenvolvimento Rural, Abrantes Sekeseke, os módulos mínimos actuais para a instalação de uma fábrica exigirem uma área contígua de 20 mil hectares de terra para o canavial, o que a província actualmente não tem disponível.
O engenheiro Abrantes Sekeseke, que apontou a grande densidade populacional no território da província como uma das razões que estão na base desta situação, justificou ter sido essa a razão da inviabilização das açucareiras “1º de Maio”, na Catumbela, e “4 de Fevereiro”, no Dombe Grande, que careciam de área para a sua expansão. 
“Hoje, na província de Benguela, dificilmente encontramos esse espaço de terra de forma contígua, ou seja, um terreno só para o cultivo da cana, sem que existam fazendas, lavras ou currais”, disse. No interior, para onde se podia transferir a produção, o director do Minader diz ser igualmente difícil encontrar áreas contíguas de 20 mil hectares sem que haja outras actividades agro-pecuárias que impedem a área de expansão contígua para a plantação de cana. Abrantes Sekeseke adiantou que, por existirem no país outras áreas para o cultivo da cana-de-açúcar, essa produção deve ser transferida para as províncias de Malanje, Kuando-Kubango e Cunene, uma vez que Benguela já provou não estar em condições de o fazer por exiguidade de espaços para o seu cultivo, dando por isso prioridade à produção de girassol, soja, citrinos e criação de gado.
 
Camponeses auto-suficientes

Fazendo o balanço da actividade desenvolvida pelo sector que dirige durante o ano de 2009, anunciou que, inserido no programa de extensão e desenvolvimento a cargo do Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural, em parceria com o Instituto de Desenvolvimento Agrário, foi distribuído um lote de instrumentos agrícolas e sementes de milho, feijão e sorgo. Lamentou, contudo, o facto de ter havido um decréscimo em matéria de sementes, pois, como justificou, durante a campanha de 2008/2009 o sector distribuiu aos camponeses cerca de 900 toneladas de milho e na presente apenas 200 toneladas por falta de recursos.
Em face disto, o responsável considerou a província apenas auto-suficiente em instrumentos agrícolas, o que já não se pode dizer em relação às sementes, pois se não fossem as reservas criadas pelos próprios camponeses, a campanha 2009/2010 poderia estar comprometida. No entanto, o facto das chuvas continuarem a cair de forma regular no interior está a ajudar os camponeses em tudo o que semearam. 
Abrantes Sekeseke garante que as culturas estão com bom aspecto, graças ao grande empenho dos camponeses, e se as chuvas continuarem a cair regularmente durante o mês de Janeiro, podem vaticinar-se bons resultados para a presente campanha agrícola.
 
Empresários agrícolas pouco criativos

 
A agricultura empresarial em Benguela está longe de alcançar o sucesso que sempre se desejou. Apesar da província possuir um grande potencial a nível agrícola, existe um défice de empresários com capacidade financeira para o seu desenvolvimento. Pesem embora as aberturas surgidas com a criação do Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA) ainda não surgiu uma boa quantidade de agricultores criativos e com capacidade para obter financiamentos, em virtude das exigências que consideram difíceis de satisfazer.
De acordo com Abrantes Sekeseke, a criação, pelo Governo, do Banco de Desenvolvimento, que deveria servir de tábua de salvação à agricultura empresarial, está a ser confrontada com a falta de cultura empresarial no ramo, o que, por sua vez, está a criar alguma timidez no financiamento dessa actividade de risco, transformada em pouco atractiva para a banca, desde que os empresários do ramo não estejam dotados de conhecimentos que garantam fiabilidade.
Por isso mesmo, defende que não basta que haja dinheiro para financiar. “Também é preciso que haja vontade e paixão por aquilo que se quer fazer”, referiu, acrescentando que isso preocupa o sector, uma vez que, com base no financiamento, devem ser criados mecanismos de aprendizagem da actividade empresarial na província. O entusiasmo de muitos tem de estar associado a algum conhecimento sobre a actividade agrícola para que valha a pena o investimento, considerou. “Vamos organizar pequenos cursos sobre como iniciar uma actividade empresarial agrícola, para que os beneficiários do crédito agrícola estejam dotados de conhecimentos que os possibilitem desenvolver esta actividade com maior capacidade e possibilidade de vencer.”
A nível institucional, o director provincial do Minader referiu que foi igualmente criada, por despacho presidencial, uma comissão que vai tratar do crédito agrícola, coordenada pelo Ministro da Economia, em parceria com o Ministro da Agricultura, que está a ultimar o seu regulamento, prevendo-se o arranque da actividade agrícola empresarial na província a partir de 2010, uma vez que os mecanismos a serem criados com base nesse regulamento vão facilitar o acesso dos empresários ao crédito.
 
Desenvolvimento agrário

Apesar de inscritas no Programa de Investimentos Públicos para 2010, a reabilitação das Estações de Desenvolvimento Agrário e experimentais depende da aprovação do novo modelo de investigação agrária em Angola. 
Segundo Abrantes Sekeseke, foi contratada a consultoria da empresa brasileira Embrapa para a reformulação do sistema de investigação agrária no país, com base na qual se poderá redimensionar o tipo de estações existentes em Angola, de forma a servir de suporte à actividade agrícola e pecuária na província.
Refira-se, a propósito, que na província de Benguela existem a Estação Experimental do Cavaco vocacionada para a pesquisa do melhoramento das culturas da manga e da banana; a Estação Agronómica do Alto Capaca, no Cubal, destinada à pesquisa dos cereais; a Estação Zootécnica da Ganda, para o gado bovino e suíno; e a Estação Experimental do Café da Chicuma, na Ganda, para o tratamento do café arábica, todas elas dependentes do Instituto de Investigação Agronómica de Angola (IIAA).
“Se todas as estações fossem reabilitadas e efectuassem o seu trabalho de experimentação podiam estar a ajudar os agricultores a obter as melhores técnicas de produção e, desta forma, aumentar os rendimentos, tanto dos camponeses como dos agricultores”, disse o responsável, que anunciou ter sido inscrito, numa primeira fase, pelo governo, no seu Programa de Investimentos Públicos para 2010, a reabilitação da estação do Alto Capaca, no Cubal, dando início aos trabalhos de investigação e experimentação para apoiar a agricultura na província.
 
Perspectivas

 
Para 2010, o sector na província vai dar prioridade à reanimação da actividade agrícola empresarial e ao fomento do gado, particularmente a suinicultura. 
Um dos grandes problemas com que se debatem os criadores, disse, tem a ver com o abeberamento do gado e com a construção de chimpacas e furos, o que será resolvido no decorrer do ano de 2010.
Outra preocupação é a produção de alimento para o gado, uma vez que nos últimos tempos tem havido pouca chuva na província, o que provoca a seca nas áreas de pasto. Para resolver esta questão, o sector que dirige vai aconselhar os homens ligados à criação de gado a começarem a produzir áreas de pasto, cultivando forragens em épocas críticas, para a manutenção da forma dos seus rebanhos.
Os sistemas de irrigação constam igualmente das prioridades, uma vez que boa parte da província de Benguela se localiza na faixa litoral e de transição para o planalto, onde geralmente as quedas pluviométricas são irregulares, o que faz com que a actividade agrícola nesta área seja sustentável através dos sistemas de irrigação. 
Outra frente de trabalho vai ser a organização a nível da província de zonas agro-pecuárias em função da especialidade de cada uma delas, onde o investimento será efectuado com o objectivo de se obterem os maiores rendimentos, uma vez que estará associado ao programa de aldeias rurais. Foram já projectadas quatro a nível da província, a primeira das quais a ser erguida na comuna do Casseque, no município da Ganda, cujas garantias de financiamento são para este ano de 2010.
“Se conseguirmos eleger, ainda este ano, as zonas agro-pecuárias por excelência, associando a isso a construção das aldeias rurais, daremos um grande passo para a melhoria da situação socio-económica da população das zonas rurais e, desta forma, reduzimos o fosso de desenvolvimento existente entre o campo e a cidade”, conclui o director provincial do Minader.

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