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" Depois do meu mandato vou cumprir o Efico

Rosalina Mateta

Delma Delque, 19 anos de idade, é a miss Cunene 2011. Enquanto representante da beleza das mulheres da sua província ela procura  levar para onde quer que vá um pouco dos hábitos e costumes  da sua região.

Delma Delque, 19 anos de idade, é a miss Cunene 2011. Enquanto representante da beleza das mulheres da sua província ela procura  levar para onde quer que vá um pouco dos hábitos e costumes  da sua região. Neste capítulo Delma exibe com orgulho as fotos onde aparece com um traje típico.  Para lá das  atribuições inerentes ao seu mandato, Delma  mostra preocupação com as vítimas das cheias no Cunene, com a perda dos valores morais e cívicos que afectam principalmente a juventude.  Esta estudante do 13º ano do curso médio de Ciências Físicas e Biológicas considera que conciliar os estudos com o mandato é uma tarefa “ muito difícil”. Mas, esforça-se porque futuramente pretende “mudar totalmente” o rumo da sua formação e tornar-se jornalista.
 Se inicialmente Delma Delque era apenas conhecida na sua província, depois que  conquistou o título de Miss Simpatia no concurso  Miss Angola 2011 o seu rosto ganhou visibilidade nacional. Algo que a obriga a ter maior responsabilidade, sobretudo social. Neste capítulo, a  representante do Cunene  trabalha  com crianças desfavorecidas, especialmente,  com aquelas que vivem nas zonas rurais e idosos.   Sabendo que o Cunene é a província angolana com maior índice de prevalência do HIV/ Sida, Delma  também trabalha na sensibilização das pessoas, proferindo palestras nos municípios de Namacunde e Ombajda, onde há muita criança desfavorecida e desprotegida (muitas delas perderam os pais vítimas do vírus).  Na cidade de Ondjiva, onde reside, Delma apoia crianças cujos pais perderam tudo durante a época chuvosa.  Trabalha com uma empresa de saneamento básico na mobilização das pessoas para as campanhas de limpeza e também vai às escolas falar aos jovens sobre os males que causam as drogas e a delinquência.
A miss Cunene queixa-se, pois, vem enfrentando algumas dificuldades para cumprir  cabalmente as suas tarefas. “Infelizmente não temos tido muitos apoios. Mas, agradeço ao governo da província do Cunene, o Minars, a Secretaria dos Antigos Combatentes e alguns empresários  que sempre têm as portas abertas para ajudar, através de mim, aqueles que sofrem. Espero poder contar com outras ajudas”.
Numa perspectiva mais abrangente, Delma  olha para as carências que o seu povo vive e manifesta o desejo de poder ver melhores estradas, mais escolas e  hospitais. “Por causa das cheias, há localidades que não têm escolas nem assistência médica. A falta destas infra-estruturas afecta principalmente as crianças. Sendo elas o futuro não será possível contarmos com elas se não tiverem saúde nem instrução”, recorda Delma, que, apesar das dificuldades, opina que no Cunene já é notório algum crescimento. “A  província do Cunene está em reconstrução e desenvolvimento. As cheias destruíram muita coisa, inclusive residências. Mas o governo da província tem trabalhado muito. O Cunene de ontem já não é o de hoje. Nós todos  juntos vamos transformá-lo”, acredita Delma.

Respeito pela tradição


Oriunda do grupo étnico linguístico Ovambo, Delma garante que respeita  e conserva as tradições do seu povo.  A miss assegura que no Cunene os jovens ainda velam pelos seus hábitos e costumes, de tal modo que  mantêm viva actividades como a pastorícia, a pesca fluvial,  o artesanato, as danças e confecção de trajes típicos. Delma lamenta o facto de não falar Nyaneka Humbi, mas está ansiosa em cumprir com o ritual do “Efico” (cerimónia que marca a passagem da rapariga da adolescência para se tornar mulher e poder constituir família). “Logo que terminar o meu mandato vou fazer o Efico”, promete.
 Delma   frequenta a 13ª classe do curso médio de  Ciências Físicas e Biológicas. Para  ela, neste momento, continuar os estudos é um grande desafio. “É muito difícil conciliar os trabalhos do mandato com as aulas, mas eu tenho tentado fazer as duas coisas”. Depois de entregar a coroa à próxima miss Cunene, Delma quer continuar a dedicar-se  aos trabalhos sociais em prol da criança e formar-se. “Quanto terminar o meu mandato vou mudar totalmente o rumo dos meus estudos. Quero ser jornalista. Por isso vou estudar comunicação Social”. Delma já ganhou o gostinho pela comunicação pelo facto de estar a colaborar como locutora no “Cunene Piô”, um programa de rádio dedicado as crianças.
 Abordando o comportamento da juventude e a preservação dos valores morais e cívicos, Delma Delque deita um olhar crítico e lamenta que a juventude, “não apenas a do Cunene, mas de toda Angola, Infelizmente, está a perder os valores morais e cívicos. Já não têm respeito pelos mais velhos nem valorizam os seus ensinamentos. Mas eu deixo um conselho aos jovens; aprendam e valorizem a boa educação que recebem em vossas casas. Vamos respeitar os nossos pais e os mais velhos. A falta de princípios morais faz com que muitas raparigas se percam. A beleza exterior é como papel, desfaz-se. O melhor é ter conhecimentos, ser inteligente e nos preservarmos mais”.
Delma sabe que os títulos que ostenta são efémeros (miss Cunene e miss Simpatia  no concurso Miss Angola 2011). Por esta razão, ela tem procurado sorver tudo de bom que esta condição lhe oferece. De tal maneira que considera que esta experiência “muito boa” ficará marcada para toda sua vida. “Agradeço em primeiro lugar a Deus por esta oportunidade. A minha família e os amigos pelo apoio e incentivo”.
Mas, no mundo da Miss Cunene, “nem tudo é um mar de rosas”. Delma queixa-se da dificuldade que é conciliar as tarefas do mandato e outros compromissos.” Perdi alguns amigos porque não consigo estar nos mesmos lugares em que eles estão e quando estou ficamos separados por força dos meus títulos. Fico muito tempo longe da minha família. Não participo dos convívios familiares”. Ainda assim, “acho que é muito gratificante poder ajudar os outros. Por isso acredito que foi a melhor coisa que me aconteceu em 2011. Foi bom ter participado no concurso de miss. Fiz novas amizades e aprendi muita coisa”, enfatiza Delma.

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