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" Temos tudo montado para apoiar sinistrados"

Yara Simão |Ondjiva

Os estragos que as cheias deixaram no Cunene, pelo terceiro ano consecutivo, estão a atrasar, e de que maneira, o desenvolvimento da província. No ano passado estavam para ser construídas casas para as vítimas de 2008 mas com o aumento dos sinistrados das cheias de 2009 e deste ano, a situação piorou.

António Didalelwa falou ao nosso jornal
Fotografia: Kindala Manuel

 
Os estragos que as cheias deixaram no Cunene, pelo terceiro ano consecutivo, estão a atrasar, e de que maneira, o desenvolvimento da província. No ano passado estavam para ser construídas casas para as vítimas de 2008 mas com o aumento dos sinistrados das cheias de 2009 e deste ano, a situação piorou. O governador da província, António Didalelwa, garantiu, em entrevista exclusiva ao Jornal de Angola, que tudo vai ser feito para que até ao fim deste ano, as pessoas que estão nos centros de acolhimento tenham uma casa para viver.

Jornal de Angola - As cheias voltaram a castigar o Cunene. O crescimento e desenvolvimento da província ficam postos em causa? 

António Didalelwa
– O que estamos a sentir não são as chuvas, mas as suas consequências. Foram levados pelas enxurradas casas, celeiros, culturas agrícolas e animais. As águas destruíram lavras e inundaram tudo. Estamos com um acumulado de três anos, o que significa que, para além do plano de desenvolvimento da província, temos de fazer um plano de emergência para apoiar a população. Só este ano, temos 11.817 pessoas desalojadas, 22.130 pessoas afectadas, 74 escolas inundadas, 8.705 alunos sem aulas e uma estrada cortada. Isto é um balanço provisório, porque as chuvas ainda não acabaram, e também porque as águas estão a baixar e os estragos vão estando cada vez mais descobertos.

Jornal de Angola – O alojamento dos sinistrados é difícil? 

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- Para além das pessoas afectadas deste ano, temos as que foram desalojadas nos anos anteriores. No ano passado tínhamos 22 mil pessoas, muitas das quais decidiram refugiar-se nas casas de familiares, mas continuam registadas como pessoas sem casa. Temos também os desabrigados de 2008. Para estes, identificámos uma área na zona do Nacumba, onde começámos a fazer a implantação das casas em lotes de 600 metros quadrados. Esses lotes vão ser entregues às famílias. Vamos dar o terreno e o material de construção mas a mão-de-obra tem de ser delas. Vamos entregar os lotes com um anexo feito de adobe, que é o material utilizado para a construção de casas no interior da província. Esse trabalho já começou e vamos fazê-lo em pouco tempo. Esse projecto vai ser desenvolvido também na zona de Ocachila.

JA – As casas não são demasiado fracas?

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- No interior da província há montanhas e colinas e a estrutura morfológica dos solos é elevada. Quando chove, as águas levam as casas por causa do declive, não é por serem feitas de adobe. Mas onde vamos construir as casas é diferente. Não há possibilidade da água destruir as casas. Antes de escolhermos a área fizemos um estudo. O Governo Central tem um projecto de casas e a província do Cunene foi abrangida com 12 mil unidades. Como são casas pré-fabricadas, vamos colocá-las em frente aos anexos. O projecto vai facilitar a vida das populações, porque nós vamos ajudar. É nosso propósito dar casa a toda a gente dos centros de acolhimento, até Dezembro.

JA – Os sinistrados dos centros de acolhimento em Ondjiva dizem que não têm casas, nem tendas novas. A situação vai mudar?

AD –
Substituímos as tendas por duas vezes. Levámos 150 tendas a dois centros. O problema está nas pessoas que dão as informações. Mas nós temos uma estrutura bem montada, temos o chefe do centro e cada bloco tem um chefe. A comida quando chega é entregue aos chefes dos blocos. Alguns vendem a comida e depois vão dizer aos jornalistas que não estão a receber ajuda. Nós mandamos uma ficha para as pessoas assinarem, esse documento é que nos guia na distribuição das casas. Todos assinaram, por isso sabem que o Governo está a fazer alguma coisa. Reconheço que as pessoas que estão nas tendas não estão a viver em boas condições, porque eu próprio já fiquei algumas horas dentro das tendas e sei o que as nossas populações estão a sofrer. Mas nós estamos a trabalhar.

JA – Existem também projectos habitacionais para as populações sinistradas este ano?

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– Na sede do Cuvelai não houve necessidade de colocar centros de acolhimento, porque os desalojados eram provisórios. O ano passado as casas estavam em áreas baixas. Mas depois de passar o período das chuvas eles mudaram para outra área, porque as pessoas que vivem no meio rural não aceitam deixar os bois, cabritos e galinhas. Vivem da pastorícia e é difícil tirá-las dos campos. As 12 mil casas que vão ser construídas na província vão abranger todos os municípios. Nós já temos 125 áreas localizadas, para distribuir casas a todos os sinistrados das cheias.

JA – Os administradores comunais reclamaram a falta de alimentos. Consegue explicar para onde vão os apoios dados pelo Governo e as organizações não governamentais?

AD
– Nas comunas do Evale e Mupa, a cada dia que passa, aparecem novos casos. Para estes não há comida de imediato. Todos os dias aumentam os casos e os dados são actualizados, só depois contamos com esses sinistrados na distribuição de alimentos.  O problema é que quanto mais aumenta o número de pessoas os apoios tornam-se escassos. Mas tudo está a ser feito para apoiar dignamente todos os sinistrados.

JA – As cheias só vão terminar quando for regularizada a bacia hidrográfica do rio Cuvelai. O que falta para começarem as obras?

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– Os trabalhos já começaram, no mês de Outubro. Estão feitos três diques que protegem o centro da cidade. No ano passado já existiam, mas não eram tão fortes, porque foram feitos de emergência. Agora não temos problemas porque recrutamos uma empresa experiente, que está a fazer um bom trabalho. Contamos com várias passagens hidráulicas em 14 áreas, para facilitar a saída das águas para o rio Etocha, na Namíbia.

JA – A cheias atrapalham, mas o plano de desenvolvimento continua. Quais os projectos em curso na província?

AD –
A nossa prioridade é erradicar a fome e a pobreza na província. Temos um projecto agrícola, em que vamos abrir cooperativas de dez pessoas. O trabalho vai ser feito em conjunto. O Governo entra com o terreno, o material, as sementes, os transportes e os camponeses com a mão-de-obra. Vão ser distribuídos 20 hectares por família. Cada família, para além de receber um salário no valor de 18 mil kwanzas, vai receber alimentos. As pessoas não vão precisar abandonar as suas lavras individuais. Esta é a forma de acabar com a fome e a pobreza. Este projecto já começou. A partir do próximo mês, vão começar as consultas nas aldeias, para proporcionarmos uma vida melhor às nossas populações. Queremos levar os bens e o desenvolvimento para junto do povo. Vamos construir escolas, centros médicos e casas para os enfermeiros. O Governo está a criar urbanizações que futuramente vão ser cidades.

JA – São projectos de longo prazo?

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– Já existem alguns centros habitacionais com centros médicos, que para além de estarem interligados aos hospitais municipais, vão estar ligados às aldeias. Aí entra o projecto de construção das vias terciárias, para facilitar a circulação de pessoas e bens. Estamos a mudar a vida das pessoas no meio rural, mas isso não quer dizer que vamos acabar com as suas casas de pau a pique. É também nossa intenção trabalhar com privados e pessoas singulares. O mais importante não é ver muitas cidades no Cunene, mas sim ver as pessoas com casas, água potável, luz e uma vida estável.

JA – Os projectos de que falou têm a ver com a nova cidade de Ondjiva?

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– Não é a nova cidade de Ondjiva. Mas dentro da cidade de Ondjiva temos reservas fundiárias, na comuna do Ecuma, que já foram consignadas. Em seis meses a empresa pretende acabar o projecto, que vai albergar 1.200 casas sociais. Esse projecto foi assinado pelo Ministério do Urbanismo e Construção.

JA – O problema do abastecimento de água e luz na província está a ser resolvido?

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–A nossa energia vem da Namíbia. Até aqui temos recebido cinco megawatts, que não chegam para alimentar a cidade toda. Por isso acertamos com o Ministério da Energia para que o abastecimento seja complementado com um grupo gerador. O trabalho está em curso e brevemente vamos receber grupos geradores. Existem outros postos de energia que estão a ser edificados e vão trazer, ainda este ano, energia da Namíbia, para aumentar a potência. Quando essa energia vier vamos ter o problema de Ondjiva, Santa Clara e Namacunde resolvido. Existe um projecto do Ministério da Energia para levar a energia da Namíbia para outras comunas, onde, por enquanto, trabalhamos com geradores e a iluminação pública é feita com energia solar.

JA – Existe água para todos?

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– Em relação à água temos três projectos em preparação. Há uma empresa que está a trazer a água do Itembe para os grandes depósitos, para depois fazê-la chegar à casa do consumidor. Este projecto abarca também outras comunidades fora da cidade de Ondjiva. O outro projecto visa trazer a água da Namíbia. Nós já tínhamos feito um trabalho de instalação de tubagem da fronteira para Ondjiva. Negociámos com a Namíbia e pagamos para ter a água. Mas o que acontece é que aquele país tem dado pouca água. Logo, o povo fez ligações ilegais na conduta para tirar água, até ao ponto de estragá-la. Vamos rever a situação. 

JA – Quais são os projectos na área da saúde?

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– Temos centros planificados na nossa agenda. Uns já foram feitos. Temos hospitais municipais na Cahama, Xangongo e Namacunde. Temos centros de saúde, e estamos a criar condições para abrir hospitais nos municípios de Cuvelai e Curoca.
 Em Ondjiva estamos a construir um novo hospital, mas o nosso maior desafio, agora, é formar pessoas na área da saúde. Por isso é que abrimos o ensino superior, com cursos de enfermagem e análises clínicas e laboratoriais. Vamos montar um laboratório no hospital de Ondjiva para os alunos terem aulas práticas. Não interessa construir hospitais e não ter pessoal para trabalhar. Vamos primeiro formar técnicos e depois aumentar o número de hospitais na província.

JA – E na Educação, quais são os projectos?

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– Fizemos um pedido ao Ministério da Educação para que seja criado um calendário escolar especial para os alunos que ficaram sem aulas por causa das cheias. Queremos que o Ministério da Educação tenha uma atenção especial a esses alunos.
No que diz respeito aos projectos locais, pretendemos construir mais escolas, para tirarmos os alunos debaixo de árvores. Vamos construir mais salas de aulas e casas para professores no meio rural. A formação de professores também consta do pacote.

JA – Todas as obras são de iniciativa local?

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– Não. Existem também obras do Governo Central, com destaque para os projectos de 1.200 casas, transporte de água do Xangongo para Ondjiva, de grupos geradores e de ampliação da estrada de Ondjiva a Xangongo, que devido à crise financeira foram transferidos para este ano. Os restantes s projectos de que falei são de âmbito local.

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