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De agricultores a pescadores

Todas as manhãs, as duas margens da EN 105 para quem  vai para a Namíbia estão apinhadas de centenas de pessoas a pescar em vastas lagoas que surgiram quer com as inundações, como com intensas chuvas que caíram sobre a cidade de Ondjiva.

Todas as manhãs, as duas margens da EN 105 para quem  vai para a Namíbia estão apinhadas de centenas de pessoas a pescar em vastas lagoas que surgiram quer com as inundações, como com intensas chuvas que caíram sobre a cidade de Ondjiva.
As chuvas trouxeram alguns benefícios para as comunidades autóctones locais, oferecendo inúmeros cardumes de peixes (bagre e sardinha do rio). Cidadãos que se dedicam a captura de peixe usam dentre vários instrumentos a rede mosquiteira, o saco de ráfia, o oshongo (cesto feito de pau - em língua (kuanhama), owanda (armadilha em língua nhaneka-humbe), mutunga (instrumento de espeto) e até catanas são utilizadas na pesca do bagre em pequenas cachoeiras, causadas pela erosão e pelo desnível do relevo. Um quilo de sardinha é vendido a 50 kwanzas e seis bagres médios a 100 kwanzas.
O mesmo cenário repete-se nas valas de drenagem e nos diques de protecção abertos para proteger a cidade das águas das chuvas. Dir-se-ia que em Ondjiva a pesca, agora, acaba por rivalizar temporariamente com a agricultura e a pecuária - os principais meios de subsistência das populações.
Muita gente encontrou na pesca o principal meio de subsistência. “Não é muito, mas dá para alimentar a família”, refere o velho António Canivete, um “pescador” - as aspas vêem a propósito, pois, para além das armadilhas, chegam a recorrer a mosquiteiros impregnados. Diz que “esse peixe é muito bom para o consumo e que ainda não tivemos qualquer problema”. Como ele, muita gente assim pensa, pois, além das inundações, o assunto de momento no Cunene é a pesca. Mulheres e jovens, sobretudo, acenam para as viaturas para comercializarem o peixe, sobretudo o cacusso e bagre.
Atraídos pelo baixo preço do pescado, cidadãos de outras províncias como Huíla, Benguela e Luanda acorrem para os locais de venda. Chegam às dezenas, adquirem a preço de chuva grandes quantidades de bagre que, depois de escalarem, põem a secar, não em tarimbas, como no litoral, mas ao ar livre, em locais improvisados. Depois, vão revender o produto noutros mercados mais competitivos, onde um bagre médio seco chega a ser vendido a 500 kwanzas.
As cheias constituem, assim, um período sazonal economicamente interessante para as comunidades locais, pois, propiciam a oferta de peixe que pode, depois de seco, ser aprovisionado e consumido até a outra estação chuvosa e com os rendimentos das vendas adquirem outros bens essenciais básicos no mercado local e também na Namíbia.
Um quadro que está a trazer abundância alimentar numa região onde o nível de pobreza é ainda acentuado, mas que tem um senão: os afogamentos.
A propósito, Paulo Kalunga refere que, “na ânsia de resolverem o seu problema alimentar, as pessoas recorrem à pesca, não avaliam devidamente os riscos e acabam por perecer em chimpacas que, no passado, foram abertas nos arredores da cidade de Ondjiva e várias outras localidades para serviram de reservatório de água para o abeberamento do gado”.
E mais explícito: “Já no ano passado foram feitos estudos por especialistas que  diziam que o peixe estava em condições de consumo. Mas há sempre o risco de afogamentos, pois as pessoas desconhecem a profundidade dos sítios em que estão  a pescar”. Paulo Kalunga adianta que, preocupado, o serviço de protecção civil e bombeiros está a trabalhar com as forças da ordem na protecção e desencorajamento da pesca nesses lugares.
Mas ele reconhece as dificuldades que esta empreitada envolve: “as zonas de pesca nesta altura são bastante extensas nos arredores da cidade e quando a polícia, por uma razão pontual, tem que se deslocar para outro lugar, as pessoas aproveitam para pescar”, diz.

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