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Descem as águas estragos à vista

Yara Simão |

Agora que parou de chover são visíveis os estragos que as chuvas torrenciais causaram ao Cuvelai. Na comuna de Mukolongondjo foram atingidas 321 famílias, 15 quimbos e 34 casas desabaram.

Indiferentes à tragédia as crianças nadam e pescam nas lagoas da chuva
Fotografia: Kindala Manuel

O nível das águas das cheias do Cunene está a descer nas localidades mais afectadas pelas chuvas e as populações sinistradas, sobretudo no Cuvelai, enfrentam agora o atraso na chegada de alimentação, medicamentos, tendas e chapas, para reconstruir as casas dos desalojados. Os acessos por terra são impossíveis. Abastecimentos só por via aérea, mas faltam combustíveis para os helicópteros. Mas aos poucos tudo volta à normalidade. O problema é que ainda há muitos dias de chuva pela frente.
Agora que parou de chover são mais visíveis os estragos que as chuvas torrenciais causaram ao município do Cuvelai. Na comuna de Mukolongondjo foram atingidas 321 famílias, 15 quimbos e 34 casas desabaram. Dezenas de lavras estão inundadas e as plantações perdidas. Cinco escolas foram inundadas e o material didáctico ficou destruído.
Na comuna do Cubate as cheias desalojaram 453 pessoas e inundaram 186 lavras. O número de casas destruídas aumentou, mas ainda não foram divulgados os números oficiais pelos responsáveis da Protecção Civil.
Kalonga é também uma zona afectada pelas cheias. Os Bombeiros informaram que 455 pessoas foram desalojadas e 30 quimbos ficaram submersos pelas águas. Em Kalonga,17 casas, uma escola e uma igreja foram destruídas. Neste momento, estão 203 alunos sem estudar.
As cheias ainda amedrontam as populações do Cunene, porque o tempo ainda é de chuva. O sol brilha sobre o Cunene mas a qualquer momento podemos ouvir “o barulho dos tambores de São Pedro”, que é a chuva torrencial a bater nos telhados.
E sempre que chove, as populações da zona do Cuvelai sofrem, porque o rio transborda. Está lá a fonte principal de todas as inundações, mesmo depois da construção de alguns diques de protecção. A ponte de pedra, construída em 1961, até agora tinha resistido às cheias mas desta vez não aguentou.
As águas em fúria do rio Cuvelai conseguiram fazer um buraco bem no centro da ponte, o que impede a circulação automóvel. A ponte precisa urgentemente de uma reabilitação, porque já constitui uma via de risco, principalmente para os camionistas, que passam sobrecarregados de pessoas e bens. As populações que vivem nos arredores da ponte do rio Cuvelai, estão mais informadas sobre os perigos de pescar e nadar. Apesar de haver crianças que continuam a nadar nas águas barrentas, indiferentes ao perigo. Durante o dia, a área está a ser controlada por oficiais da Polícia Nacional para evitar que crianças e adultos se exponham a perigos.

Educação e saúde

Apesar das dificuldades que as comunas do município do Cuvelai enfrentam, principalmente as mais críticas, Evale e Mupa, os alunos já retomaram as aulas, na segunda-feira. No Cuvelai todas as crianças estão a estudar, apenas aquelas que estão nas comunas de difícil acesso não conseguem ir à escola. Simone Marcos está feliz porque as águas baixaram e pode voltar à escola. “Estou satisfeito por voltar a estudar, porque ficámos praticamente um mês sem ir à escola. Ainda tenho o meu caderno, e a mochila, são coisas que não deixei a chuva levar. Mas a administração municipal tem de pedir ao Governo cadernos e livros porque muitos dos meus colegas perderam tudo”, disse Simone Marcos.
Na comuna do Evale o nível da água baixou bastante e os professores reabriram as escolas. Algumas aulas ainda decorrem nas tendas, porque ainda há muitas salas encharcadas. Elias Morais é residente da comuna do Evale e sente-se feliz por ter regressado à escola. Segunda-feira as aulas recomeçaram, umas nas salas das escolas e outras nas tendas, porque algumas escolas foram destruídas. “Aqui no município todos os jovens estavam preocupados com as aulas. Não queremos perder o ano lectivo. Só precisamos que o Governo nos apoie com material didáctico, porque as águas levaram os nossos livros”, disse Elias Morais.
Sobre a construção de escolas, a administração municipal considera que este é um assunto que vai ser levado às instâncias superiores e para que as crianças não percam o ano lectivo, vão estudar nas tendas gigantes que estão a ser colocadas nas comunas. Em Ondjiva também é notória a falta de salas de aulas, porque alguns alunos estão a estudar debaixo das árvores.
No que diz respeito à saúde, faltam medicamentos no hospital, porque há cada vez mais pacientes no banco de urgência. Com as chuvas as coisas pioraram, como afirmou à nossa reportagem o chefe da enfermagem, João Baptista. “Os medicamentos aqui nunca são suficientes e com as cheias aumentou o número de doenças, por isso não estamos em condições de acudir a todas as pessoas necessitadas. Apelo ao nosso Governo para apoiar com mais medicamentos e mosquiteiros, porque ainda vamos ter mais chuva e precisamos de estar preparados”.
 João baptista disse que por dia são atendidos na urgência 70 pacientes e as patologias mais frequentes são a malária, tosse, doenças urinárias, e diarreias. O Hospital Municipal do Cuvelai tem três enfermarias, o banco de urgência e a maternidade.

Administração preocupada

Lopo Bravo, administrador municipal do Cuvelai, disse que o apoio do Governo está a chegar muito tarde no município. “Temos todo o apoio do Governo para acudir à população, só que tudo está concentrado na capital da província e chega muito tarde às comunas”, disse Lopo Bravo.
 “Nós ainda temos muitas dificuldades. Ainda há lavras inundadas, casas a cair todos os dias e aumenta o número de desalojados. Muitas crianças estão a estudar debaixo das árvores. As áreas do Mwi, Kachtiava e dos Chinganos, na comuna da Calonga, as lavras estão inundadas”, disse o administrador, acrescentando que “precisamos de sabão, mantas e mosquiteiros, porque há muita água parada”.
 Joaquim Domingos António, comandante dos serviços da Protecção Civil no Cunene, disse que a logística está com algumas dificuldades, porque os “stocks” são reduzidos, sobretudo em termos alimentares. Para se fazer uma ideia do problema, existem 12 mil pessoas necessitadas de todo o tipo de ajuda. Joaquim António disse que as populações estão a ser apoiadas há um mês e “todos os dias damos orientações às autoridades comunais, no que concerne à distribuição dos alimentos e outros bens. A prioridade é para aqueles que perderam tudo”. O comandante da Protecção Civil no Cunene informou que para acudir às populações durante dois meses são necessárias 500 toneladas de bens alimentares. “Nós estamos a gerir 90 toneladas para 12 mil pessoas. Estamos a gerir com muita calma para ver se conseguimos abranger as populações mais necessitadas. Estamos com problemas de acessos, há vastas zonas onde só é possível chegar de avião. Por isso, a comuna do Cubate está sem o mínimo apoio alimentar. As populações receberam somente medicamentos e material didáctico”. Joaquim António disse que esta é a grande preocupação: “temos orientações dos Governo da província, estamos a fazer todos os esforços para que a Sonangol, a partir da região sul, nos coloque combustível suficiente para as aeronaves poderem levar os apoios constantemente. Há vastas áreas onde só é possível fazer abastecimentos por via aérea”.
O ministro da Reinserção Social, João Baptista Kussumua, garantiu à nossa reportagem que o Governo está preparado para acudir a todas as populações sinistradas no Cunene.

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