Províncias

Juventude do Cunene voluntária

Adelaide Mualimusi | Ondjiva

Um grupo de jovens de Namacunde, Cuanhama e Ombandja, na província do Cunene, preparou-se para desenvolver o activismo na luta contra o vírus da sida.

Jovens da província do Cunene durante a acção de formação sobre medidas preventivas de combate ao vírus da sida
Fotografia: Venâncio Amaral

Jovens dos municípios de Namacunde, Cuanhama e Ombandja, na província do Cunene, estão aptos a desenvolver o activismo na luta contra o vírus da sida, com a conclusão, esta semana, de um seminário em matéria de sensibilização à população sobre a doença, promovido pela Cruz Vermelha de Angola.
João Chililo, 23 anos, da comuna de Chiedi, município de Namacunde, disse estar feliz com a acção de formação porque na sua localidade pouco ouvia falar sobre a sida e outras doenças transmitidas sexualmente.
O jovem disse que na comuna nunca teve quem o informasse das formas como se transmite o vírus da sida e como se usa o preservativo.
João Chililo revelou que na sua aldeia muitos jovens não usam o preservativo, não por falta de conhecimento, mas por não estarem sensibilizados para o seu uso e quanto à testagem voluntária “não há noção do que isso seja e das vantagens individuais e colectivas quando se tem conhecimento da infecção”.
O jovem revelou que na aldeia existe o hábito de usar a mesma lâmina em mais de uma pessoa para cortar o cabelo, o que para ele representa um grande perigo de contaminação da sida. “Nas nossas zonas, o uso da lâmina é frequente para cortar o cabelo porque lá não há energia eléctrica para utilizarmos as máquinas, nem outras coisas modernas. Tem acontecido usarmos a mesma lâmina para várias pessoas, e só a desinfectamos com petróleo quando este existe”, rematou João Chililo.
O jovem afirmou que quando surgiu a oportunidade da formação em matéria de prevenção da sida foi logo inscrever-se e com isso ganhou conhecimentos que vão servir para aconselhar e sensibilizar outros jovens da aldeia para fazerem a testagem voluntária e usarem todos os métodos de prevenção contra a doença. Na formação que a Cruz Vermelha de Angola ofereceu aos jovens voluntários foi muito focado o uso do preservativo nas relações sexuais ocasionais. Ficou a promessa de usá-lo como mandam as regras e aconselharem as suas companheiras a terem a coragem de se dirigir a um Centro de Aconselhamento e Testagem Voluntária para o teste do HIV.
“Ao tomarmos conhecimento do nosso estado serológico temos a hipótese de não transmitir a doença, em caso de sermos seropositivos, ou tomarmos todos os cuidados para não a contrair, se somos seronegativos”, disse a concluir João Chililo.
Simão Joaquim, estudante da 11ª classe no Instituto Médio Politécnico de Ondjiva, apela às instituições competentes a criarem programas de palestras mensais ou trimestrais sobre a sida, para os alunos do ensino médio, porque “existem muitos jovens que ignoram completamente a sida, por isso há altos níveis de prevalência da sida na nossa região. A Namíbia e África do Sul lideram a lista de pessoas seropositivas. Face a esta situação, os jovens do Cunene devem beneficiar dos programas de educação sobre a sida”, salientou.

Testes positivos

A jovem Maria Gaudêncio, de 29 anos, do município de Ombandja, disse que a sua missão, depois da acção de formação, é apoiar as pessoas que vivem com sida e são discriminadas, aconselhando-as a fazerem o tratamento e aconselhar a juventude a aderir ao teste voluntário.
O secretário provincial da Cruz Vermelha do Cunene, António Ipohameni, disse que o órgão que dirige forma jovens em matéria de sida e outras doenças sexualmente transmissíveis. Salientou que o projecto nasceu nos últimos anos quando os resultados dos centros de testagem voluntária na região estavam a registar um grande número de casos positivos.
António Ipohameni referiu que outrora nos centros de aconselhamento e testagem voluntária a maioria dos testes positivos era de mulheres grávidas, e por causa destes resultados a organização começou a trabalhar com os jovens na sensibilização e formação sobre a doença.
António Ipohameni informou que a Cruz Vermelha tem formado pessoas dos 18 aos 40 anos para poderem passar os seus conhecimentos de uma forma correcta e mudarem o comportamento das pessoas no dia a dia nas suas localidades.
    
Muitos novos casos
 
Um total de 242 casos, de um universo de 1.859 testes realizados no primeiro trimestre deste ano no Hospital Geral de Ondjiva, deram positivo.  Entre os testes, 1.610 são negativos enquanto sete foram tidos como indeterminados.
De acordo com o documento, dos casos positivos oito foram de crianças dos 18 meses aos 14 anos e já estão a ter o acompanhamento médico para o tratamento adequado. Actualmente, o hospital de Ondjiva acompanha 95 crianças que recebem AZT oral (aleitamento artificial).
O centro acompanha o tratamento com retrovirais de 217 adultos dos 19 aos 60 anos, 114 dos quais começaram há dias. Durante o primeiro trimestre deste ano, o centro registou 22 casos de óbitos de pacientes que seguiam o tratamento com retrovirais.
A coordenadora do Instituto Nacional de Luta Contra a Sida no Cunene, Cândida Alcina, disse que a luta contra a doença não é apenas uma responsabilidade do Ministério da Saúde, mas de toda a população, que deve dar resposta à situação endémica em que a província do Cunene se encontra.
Das acções levadas a cabo, Cândida Alcina realçou que o Cunene é a província que tem registo da mais baixa seroprevalência a nível do país nos últimos meses.
A responsável da Saúde sublinhou ainda que a província do Cunene tem 42 unidades a prestarem serviços de aconselhamento e testagem voluntária, que são insuficientes para o bom desenvolvimento da actividade, razão pela qual é necessária a colaboração de outros ministérios para combater eficazmente a doença na região.
“Nós vamos instalar salas de aconselhamento e testagem voluntária em diferentes ministérios da província do Cunene, para combater a sida, principalmente na zona fronteiriça, onde a contágio é maior, dada a proximidade com países como a Namíbia e a África do Sul”, ressaltou.
Defendeu a necessidade da instalação dos serviços nos marcos fronteiriços onde estão presentes os efectivos dos Serviços de Migração e Estrangeiros, da Polícia de Guarda Fronteira e Fiscal para terem a possibilidade de saber o seu estado serológico e se prevenirem da doença.
 
Distribuição de preservativos
 
O Jornal de Angola fez uma ronda por bares, lanchonetes, pensões, restaurantes e hotéis da região e constatou que em todos estes lugares é fácil encontrar preservativos aos balcões.
Júlia Vitória, empregada da lanchonete “Kelli Silva”, em Ondjiva, disse que distribuir preservativos é uma maneira de reduzir as doenças venéreas e controlar a sida.
A Direcção da Saúde do Cunene trabalha com algumas ONG a nível provincial, destacando-se a OMS, UNICEF, Cruz Vermelha de Angola, Mafico, Unicida e a ADPP.
O coordenador nacional do projecto do HIV/SIDA, João Brandão, considerou que os jovens do Cunene precisam de aprender muito mais, principalmente os do meio rural, na sensibilização das mulheres para que o ciclo da transmissão seja cortado.
João Brandão acrescentou que “todos jovens devem lutar contra a sida e ser informados sobre a doença para que possam incentivar outros das suas aldeias e que os tragam a nós para acções de refrescamento de conhecimentos sobre a matéria”.
Admitiu que a ideia é que as ONG façam mais palestras, formação e sensibilização no meio rural, porque muitas pessoas não têm ainda a cultura da testagem voluntária e da sua importância para travar o alastramento da doença.
 “Muitas pessoas do meio rural quando ficam doentes preferem procurar um curandeiro e não conseguem detectar o que realmente têm e acredito que se levarmos a sensibilização a essas áreas, a população do meio rural vai mudar de mentalidade”, sustentou.
Outra questão colocada por João Brandão é o problema do estigma a que muitos seropositivos podem estar sujeitos junto das comunidades e que devem ser combatidos, porque a sida, apesar de não ter cura, é uma doença como qualquer outra e todos estamos sujeitos a contraí-la, de forma voluntária ou involuntária. “Não nos esqueçamos nunca que a sida pode ser transmitida das mais diversas formas e nem sempre somos os culpados pela situação”, disse, apontando, como exemplo, as transfusões de sangue que são efectuadas sem os cuidados laboratoriais necessários, a utilização de utensílios cortantes não esterilizados e utilizados por alguém que tenha o vírus e não raras vezes as relações extraconjugais podem transmitir a sida ao parceiro inocente com quem se vive.
“Combater o estigma deve ser outra grande aposta dos jovens da província do Cunene”, concluiu.

Tempo

Multimédia