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Leprosaria de Ondjiva clama por reabilitação urgente

Quinito Kanhameni | Ondjiva

Adélia Tomás já vai nos seus 70 anos, 30 dos quais vividos na Leprosaria de Oifidi, a cinco quilómetros a oeste da cidade de Ondjiva.

A leprosaria de Oifidi alberga muitos idosos retirados das ruas e outros tantos abandonados à porta da instituição pelo seus familiares
Fotografia: Venâncio Amaral

Adélia Tomás já vai nos seus 70 anos, 30 dos quais vividos na Leprosaria de Oifidi, a cinco quilómetros a oeste da cidade de Ondjiva. É cega e portadora de deficiência, provocada pelo bacilo de hansin, vulgarmente conhecido por lepra. Ela conta que sofre da enfermidade há muitos anos e em consequência disso perdeu todos os dedos, situação que lhe cria sérias dificuldades na locomoção e preparação das refeições, uma vez que são os próprios internados que confeccionam os seus alimentos, por falta de uma cozinha colectiva.
A anciã conta que está curada da doença, mas prefere continuar a viver no centro com o apoio do governo, até a sua morte, por pertencer a uma família pobre.
“Ninguém vai suportar a minha condição de deficiente, vou manter-me aqui onde as condições mínimas de alojamento e alimentares são garantidas. Se eu sair daqui ninguém me vai sustentar, porque as minhas duas filhas estão desempregadas”, disse a idosa.
José Sabonete, outro ancião vítima do bacilo de hansin, vive no centro desde 1975, proveniente do município do Cuvelai. Está igualmente curado. Perdeu a visão há três anos, mas apesar disso faz pequenos trabalhos com a ajuda de um guia.
Único homem entre os cinco idosos internados, o ancião apresenta fortes cicatrizes nas pernas. Outras marcas são também visíveis noutras regiões do corpo.

Cozinha colectiva

O supervisor provincial de lepra, António Messene, defende a criação de uma cozinha colectiva para o centro, de modo a facilitar os deficientes que ali residem e que não se podem aproximar ao lume, mas a falta de verba condiciona a contratação de um cozinheiro para o efeito.
“Um leproso sem membros e ao mesmo tempo cego a beira do fogo para preparar os seus alimentos representa um grande perigo”, advertiu o supervisor, acrescentando que a única idosa que possui os membros completos é que tem se encarregado de cozinhar para todos.

Novos casos

Segundo o supervisor provincial de lepra, durante o primeiro semestre deste ano foram registados seis novos casos da doença, sendo dois no município do Kwanhama e quatro em Ombadja.
António Messene disse que o surgimento de novos casos de lepra preocupa as autoridades sanitárias da província do Cunene, numa altura em que há já um mês se regista rotura de stock de medicamentos. “Temos muitos doentes que procuram os nossos serviços, mas devido a escassez de medicamentos não damos resposta satisfatória aos pacientes”, adiantou.

Apoios

O centro conta com apoios da Direcção Provincial da Reinserção Social e de algumas igrejas. Durante o ano a Leprosaria de Oifidi recebeu vários donativos das igrejas Católica, Universal do Reino de Deus e União, que se consubstanciaram em roupa usada, cobertores, arroz, fuba de milho, óleo alimentar, peixe fresco, entre outros meios.
Construídas na década 70, as sete casas que compõem o centro, isto é, o posto médico e as residências, apresentam estado avançado de degradação e são visíveis várias fissuras nas paredes, abertura nos tectos e ausência de portas e janelas.
O posto médico é assegurado por dois enfermeiros, coadjuvados por auxiliar de limpeza, que também presta assistência no curativo dos doentes.
O posto funciona no escombro descoberto, em condições impróprias, com o risco iminente de desabar, o que obriga, no período chuvoso, a interrupção dos trabalhos, dada a penetração das águas a partir do tecto.
A Direcção Provincial da Saúde construiu, em 2007, no local, cinco residências de pau a pique, cobertas de chapas, para realojar as famílias ali residentes e possibilitar a reabilitação das antigas, o que até agora não se registou, por falta de dinheiro.
Passados quase quatro anos, o cenário é o mesmo, porque as novas casas construídas já estão degradadas, sem o mínimo de segurança para as pessoas que lá moram. Os deficientes queixam-se de frio, poeira e outros males.
“Estamos como se estivéssemos ao ar livre, porque as nossas casas não oferecem condições, entra água quando chove e também estamos a passar mal com o frio e poeira, o salalé tomou conta dos paus das casas”, lamentou uma deficiente.

Energia e água

No local foi instalado um sistema de captação de água que bombeia, através de um sistema de energia solar, o líquido para um tanque com capacidade de 5.000 litros, que abastece as pessoas em regime do lar e dos arredores. António Messene disse que à volta do centro existe um vasto terreno com condições para a prática da agricultura de vários cereais, que uma vez exploradas tais potencialidades vão contribuir na dieta alimentar dos doentes que ali vivem e dos técnicos da saúde.
A direcção provincial da Saúde no Cunene tem o registo de 12 pacientes em tratamento nos centros de leprosaria de Oifidi e do Chiulo e oito deficientes físicos de bacilo curados, mas que preferem manter-se nos respectivos locais, onde, segundo eles, se sentem protegidos.

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