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Mupa lança grito de SOS

Yara Simão | Mupa

As chuvas que desde Fevereiro caem quase ininterruptamente na província do Cunene estão a causar estragos que configuram já uma situação de crise humanitária.

Populações da Mupa atravessam momentos difíceis
Fotografia: Mota Ambrósio

As chuvas que desde Fevereiro caem quase ininterruptamente na província do Cunene estão a causar estragos que configuram já uma situação de crise humanitária. Na comuna da Mupa milhares de cidadãos estão inteiramente dependentes da ajuda do Governo e da solidariedade colectiva e individual para sobreviver.

A situação ambiental na província do Cunene não é nada animadora. Ventos e chuvas com intensidade fora do normal têm causado estragos avultados desde Fevereiro. A enchente que mais uma vez atingiu o município do Kuvelai, desta vez com epicentro na comuna da Mupa, a 97 quilómetros da cidade de Ondjiva, deixou sete mil famílias, sem contar com as que partiram para outras localidades, sem abrigo. Apenas cinquenta famílias estão alojadas em centros de acolhimentos criados na comuna.
Neste momento cerca de 12 mil pessoas foram afectadas, e cinco mil e 805 alunos estão sem aulas. No que diz respeito às culturas, 400 campos agrícolas foram destruídos e um número incalculável de casas foram derrubadas pelas águas nas comunas da Mupa e Evali.
A cada dia que passa as águas das cheias vão tomando contornos diferentes, inundando novas zonas. Por isso cresce o número de pessoas sitiadas e desabrigadas. A ligação rodoviária entre Ondjiva e Kuvelai está intransitável, o que dificulta a chegada de viaturas com bens de primeira necessidade.
Na comuna da Mupa a situação é de calamidade. A maioria esmagadora da população perdeu os seus haveres, incluindo as casas. Os alunos não estão a estudar, pois dos 300 professores que a comuna alberga, menos de 20 se encontram na localidade, para além de que as próprias escolas também ficaram inundadas. As crianças passam boa parte do dia a pescar nas águas paradas das chuvas, correndo o risco de se afogarem.

SOS Mupa

Na Mupa o clima está traiçoeiro. Durante o dia faz sol e ameaça chuva, mas à noite é como se estivéssemos no tempo de frio. E quem mais sofre com isso são as crianças e os idosos, que por falta de mantas e roupa apanham gripe com facilidade.
O sentimento de insegurança dos populares é indescritível a partir do momento em que perderam as suas residências.  A força das águas levou até as paredes das casas. “Morava numa casa com dois quartos, sala, cozinha e casa de banho. Também tinha um quintal. Hoje nada se vê. Naquele local não se consegue divisar que havia uma residência”, disse Maria Lídia, uma das sinistradas.
Maria Lídia é um exemplo vivo das mulheres que perderam todos pos seus haveres. Com 48 anos de idade, tem oito filhos para cuidar. Sem casa e sem marido, Maria diz que para ela o fim do mundo chegou. “Perdi tudo o que tinha. Não sei o que fazer para dar aos meus filhos. O apoio que vem da administração não chega, porque nós, os que perdemos tudo, somos muitos. Desde que começaram as chuvas só nos deram dois quilos de arroz e um de fuba. Tenho uma bebé de dois anos que só faz uma refeição por dia”, disse a mulher, acrescentando que por não haver água na comuna são obrigadas a beber a água das chuvas, que também serve para a cozinha, o banho e a lavagem da roupa.
Maria Lídia pede às autoridades e à população do país em geral que ajude a comunidade da Mupa com roupas e medicamentos. “As nossas crianças só têm uma saia, um calção. Apelamos às pessoas de boa fé que nos ajudem com roupas usadas, porque o pouco que tínhamos a chuva levou”.
A professora Maria das Dores também viu a sua casa ser invadida pelas águas das chuvas, até ao ponto de ter que abandoná-la e procurar abrigo na escola onde lecciona. A professora disse que é a primeira vez que isso acontece na comuna. “Aqui sempre choveu, mas nunca se chegou ao ponto de derrubar casas. É importante que sejam tomadas medidas urgentes, porque o mês ainda não acabou e há muita chuva por vir. Temos as estradas intransitáveis e se cair mais uma chuva não sabemos aonde iremos parar”.
Maria das Dores lamentou, como professora, a ausência dos seus colegas, que está a dificultar o processo de ensino na comuna. “As crianças daqui têm vontade de estudar. Elas são obrigadas a atravessar o rio de canoa, o que é perigoso, para assistirem às aulas. E quando chegam à escola não encontram os professores. Quero pedir aos meus colegas para voltarem, porque as crianças querem estudar, elas precisam de nós”.
A presença dos bombeiros na comuna da Mupa, desde a última sexta-feira, deixa a população com um sentimento de relativa tranquilidade. Os bombeiros, um dos principais componentes do serviço nacional de protecção civil, estão em prontidão para resolver os problemas que possam surgir. Desde que chegaram estão a liderar a implementação das medidas de prevenção que têm vindo a ser tomadas pelos governos central e local.

Administração comunal

Apesar de todas as evidências que apontam para uma situação calamitosa, o administrador da comuna da Mupa, Gilberto de Oliveira Soares, mostra-se optimista. “É sempre provável a ocorrência de incidentes. Mas temos tentado solucionar os casos mais complexos. Podem surgir situações que ponham em risco as populações, mas temos equipas preparadas para qualquer emergência”, afirmou, cheio de convicção.
“Nós estamos no meio das águas que vêm do rio Kuvelai. Quanto mais o caudal sobe, mais a água corre para a nossa localidade. Nós nunca tivemos este problema de enchentes. É a primeira vez que isso acontece e somos a comuna mais afectada do município”, disse o administrador comunal.
Gilberto de Oliveira Soares disse que o Governo está a trabalhar no reassentamento da população desabrigada. “Já encontramos as áreas para a colocação das tendas. O coordenador da comissão executiva da Protecção Civil levou as nossas preocupações e temos a certeza de que as autoridades locais e centrais vão dar solução ao problema”, referiu.
A maior preocupação é a falta de medicamentos. “As populações estão sem medicamentos e são obrigadas a utilizar a água das chuvas para beber.
 Estamos à espera da ajuda das autoridades”, referiu o administrador comunal da Mupa, Gilberto Soares .

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