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O drama das inundações

Leonel Kassana |

As inundações que desde 2008 fustigam partes significativas da província do Cunene, sobretudo a cidade de Ondjiva, atingiram este ano o seu pico com cerca de 8.500 famílias afectadas, totalizando 49.295 pessoas.

As inundações que desde 2008 fustigam partes significativas da província do Cunene, sobretudo a cidade de Ondjiva, atingiram este ano o seu pico com cerca de 8.500 famílias afectadas, totalizando 49.295 pessoas. Na cidade de Ondjiva, onde o Jornal de Angola esteve por alguns dias, o efectivo dos serviços de protecção civil e bombeiros não tem mãos a medir nos últimos tempos para acudir os sinistrados na maior parte do território do Cunene.
O inspector dos bombeiros e porta-voz do centro operacional do serviço de protecção civil no Cunene, Paulo Kalunga, traçou um quadro algo preocupante, notando que “às populações afectadas, falta quase tudo”. Explicou que só na cidade de Ondjiva as inundações desalojaram cerca de 300 famílias e afectaram directamente 149 pessoas, que, apesar de poderem regressar as suas casas, fazem-no com muitas dificuldades. Caso caricato é o de pessoas que, apesar da casa estar próxima, não têm acesso a ela porque têm de dar uma volta enorme para lá chegar, preferindo, por isso, arrendar outra em sítios aparentemente mais seguros.
Ainda em Ondjiva uma pessoa morreu por afogamento e outra foi atingida por um raio.
Na localidade de Onameva, que tal como Ondjiva faz parte do município do Kwanhama, estão contabilizadas 315 famílias afectadas, num universo de 915 pessoas, segundo dados do centro operacional de serviço de protecção civil e bombeiros. Mais séria é a situação da comuna do Nehone, também no Kwanhama. Aqui, pelo menos 6.060 famílias, num total de 35.267 pessoas, foram alvo directo das inundações e mais de 5.072 lavras ficaram destruídas. Um total de 25 pessoas de quatro famílias estão actualmente desalojadas, enquanto 15 escolas viram-se forçadas a encerrar. “Temos zonas na cidade de Ondjiva em que as pessoas tiveram que abandonar temporariamente as suas moradias, e estão à espera que o nível das águas baixe e as chuvas cessem”, explica Paulo Kalunga.
De helicóptero, são visíveis vastos territórios da província hoje transformados em autênticos lagos, tal a extensão das águas espalhadas pelas chanas. Na comuna do Evale, por onde a equipa de reportagem do Jornal de Angola passou de regresso da comuna de Cubati, ainda se chora pela morte de mais de 50 cabeças de gado bovino, dizimadas por uma “estranha” doença que surgiu com as chuvas, no dizer dos criadores. Aqui, no Evale, as inundações atingiram mais de 2.226 pessoas. Em Santa Clara, município de Namacunde, na fronteira com a República da Namíbia, as inundações desalojaram 77 famílias. Outras 288, mesmo não sendo desalojadas, foram afectadas, o que nas contas do serviço de protecção civil e bombeiros representa 2.323 pessoas. Podem ser números modestos, mas quando se olha para outros dados o quadro torna-se assustador. Sete pessoas morreram por afogamento, duas atingidas por raios, 50 escolas paralisaram, colocando temporariamente fora do sistema de ensino 1.234 alunos. De animais, nomeadamente gado bovino, foram contabilizadas 123 cabeças mortas.


As inundações do rio Cuvelai
 
Desde a primeira emergência, em 2008, até agora, o município do Cuvelai é o mais problemático quanto às inundações e o que mais preocupa a protecção civil no Cunene. Voámos até ao Cubati, uma das suas duas comunas – a outra é Calonga. Estradas já de si rudimentares e picadas cortadas, pontes e pontecos destruídos e lavras completamente alagadas, são hoje bem visíveis do ar, a mostrar apenas parte dos estragos causados pelas inundações das águas provenientes do rio Cuvelai.
“As inundações do Cunene partem daí. Quando o rio está cheio ele vai desaguar aqui no Evale, a cerca de 60 quilómetros. Do Evale a água vai pelas chanas e, depois, desce para a cidade de Ondjiva”, argumenta Paulo Kalunga. Mas, numa bem sucedida operação, o governo mandou construir diques de protecção na periferia da cidade de Ondjiva, que servem, assim, como obstáculo para as águas provenientes das inundações. “Estes diques estão a cumprir o seu papel, mas o elevado nível de precipitações que caiu directamente sobre Ondjiva provocou a acumulação da água no centro da cidade”.
Os diques de protecção foram executados pela empresa chinesa CBRC, sediada em Ondjiva. As obras tiveram a duração de um ano e meio e estendem-se por 24 quilómetros. Os diques conseguiram travar a avalanche progressiva e destruidora das águas que sempre causaram avultados danos às infra-estruturas sociais, económicas e produtivas.

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