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Da sombra da árvore para a escola moderna

Ferraz Neto| Cuchi

Terminou o calvário para mais de 500 crianças da modesta povoação do Lievela, a 25 quilómetros da sede municipal do Cuchi, província do Kuando-Kubango. Agora estudam em condições condignas na primeira escola construída nos últimos 35 anos na localidade.

No dia em que foi inaugurada a primeira escola em trinta e cinco anos a aldeia do Lievela parou e festejou
Fotografia: Nicolau Vasco

Terminou o calvário para mais de 500 crianças da modesta povoação do Lievela, a 25 quilómetros da sede municipal do Cuchi, província do Kuando-Kubango. Agora estudam em condições condignas na primeira escola construída nos últimos 35 anos na localidade. Os destroços de tanques de guerra e carros queimados ao longo da via explicam a razão de tanto atraso: o longo conflito armado não favorecia o estudo condigno.
Como em quase toda a província do Kuando-Kubango, o processo de construção de infra-estruturas foi interrompido durante muitos anos devido ao desenrolar da guerra, que manteve vastas regiões e a respectiva população isolada e longe do desenvolvimento. Nessas condições, era normal as crianças estudarem sentadas em pedras e debaixo de árvores, com o carvão a fazer a vez do giz.
Mesmo naquele cenário, um punhado de bravos professores prosseguiu com a tarefa de ensinar a ler e a escrever. É o caso de Dinis Félix Cativa, ex-militar. "Leccionávamos debaixo desta árvore", disse o docente à equipa de reportagem do Jornal de Angola, mostrando o outrora local do estudo. 
Hoje, cerca de três mil pessoas vivem na aldeia do Lievela. São maioritariamente jovens camponeses, para muitos dos quais aprender a ler e a escrever parecia, até há bem pouco tempo, "coisa do outro mundo". 
Desde Setembro último a esperança de aumentar o nível académico renasceu no seio das crianças e jovens. Uma escola, erguida de raiz, foi inaugurada pelo Eusébio de Brito Teixeira. Até os mais velhos já pensam em aprender a ler e a escrever para assinar o seu Bilhete de Identidade.
Lievela é constituída por uma população maioritariamente agrícola, com o período da manhã normalmente ocupado com o trabalho do campo e a pastagem do gado. No dia 15 de Setembro último, a rotina da aldeia mudou completamente. Os regedores decidiram decretar tolerância de ponto. Ninguém foi à lavra, nem ao pasto. Os habitantes do Lievela não arredaram o pé da vila. O motivo não era outro senão a visita do governador Eusébio de Brito Teixeira.

Calorosa recepção

Cânticos em língua nacional Nganguela soavam em todo o perímetro da nova escola. Para trás ficaram muitas histórias tristes: "quando chovia não tínhamos onde ficar. Uma vez perdi o meu único caderno na chuva. Felizmente já temos salas, com carteiras, quadros e giz", disse, sem esconder a satisfação, o pequeno Jorge Kassanga, aluno da terceira classe.
Quem não estava menos satisfeito era o regedor da comuna do Chinguemje, de que Lievela faz parte, António Cambinda. "Esperei anos para ver este edifício acabado. Esta obra demorou anos para ser concluída, o que fez com que as pessoas se desesperassem. Mas hoje a sua inauguração é mesmo um facto", referiu.
A inauguração do estabelecimento de ensino esteve inserida nas comemorações do 17 de Setembro. A escola, recheada com equipamento moderno, tem duas salas de aula, dois gabinetes, sala para os professores e várias casas de banho. 
A alegria dos estudantes, professores e encarregados de educação era indescritível. Por isso, não se cansavam de tecer elogios ao executivo provincial, liderado pelo general Eusébio de Brito Teixeira.
 
O director implacável

 
Para grandes obras, grandes homens. O primeiro estabelecimento de ensino na aldeia do Lievela tem como director Justino Dala, dono de uma biografia publicamente reconhecida. Segundo a responsável da secção municipal da educação do Cuchi, Maria Augusto, o director da única unidade escolar do Lievela é um homem de coragem e determinação. Candidatou-se a professor por concurso público em 2009, em Menongue, a capital do Kuando-Kubango. 
Justino Dala deixou em Menongue família e amigos, que partilharam sempre consigo os bons e maus momentos da vida. "No Cuchi, não me inibi com as vicissitudes", salientou à reportagem do Jornal de Angola. Por causa do seu empenho e dedicação a Secção Municipal da Educação do Cuchi nomeou-o director da única unidade estudantil do Lievela.
Eusébio de Brito Teixeira, falando à população, estabeleceu como meta a manutenção e preservação da obra, que custou vários milhões de kwanzas aos cofres do Estado.
A única escola é notoriamente insuficiente para resolver o problema do enquadramento escolar das crianças e jovens do Lievela. Cerca de 150 ficaram de fora do sistema de ensino. O director disse que o objectivo da escola é o ensino condigno dos 510 alunos matriculados na primeira fase e apelou para que se construam mais salas de aula. 
 
Circulação difícil
 
Lievela é constituída, essencialmente, por casas de capim. Reina a pobreza extrema. Destoa do conjunto de casas de capim uma residência em alvenaria, da época colonial, em ruínas, com sinais visíveis do impacto de balas. "Na época chuvosa ficamos isolados, durante meses, do Cuchi", sublinhou o regedor António Cambinda.  
Apesar dos escassos 25 quilómetros de percurso, a viagem do Lievela à sede municipal do Cuchi é um autêntico desafio para qualquer automobilista. Os obstáculos vão desde os dez rios que atravessam a via, ao areal e à mata densa, com minas incógnitas onde menos se espera. Até mesmo os carros de tracção às quatro rodas passam por maus bocados. O antigo tapete asfáltico, construído no tempo colonial, praticamente não deixou rasto.
Na época chuvosa a região fica de tal modo isolada que, segundo Maria Augusto, "ninguém sai, nem entra".
Quando chove, as águas dos rios transbordam e cobrem completamente a estrada, deitando abaixo o esforço dos populares que tentam manter a circulação possível
A aldeia do Lievela, assim como grande parte do território do Kuando-Kubango, não tem cobertura telefónica. Com raríssimas ligações por carro, a população viaja a pé os 25 quilómetros para a sede municipal do Cuchi. Mas o infortúnio espreita os viajantes: leões, elefantes e outras espécies de animais ferozes podem atacar a qualquer momento e transformar a viagem num pesadelo.
"Não é aconselhável viajar a pé até ao município do Cuchi", alerta o regedor. Mas os aldeões têm pouquíssimas alternativas. Preferem arriscar a vida a ficar durante dias sem mantimentos. 
Apesar da pobreza, a população do Lievela dançava e cantava com a alegria bem marcada no rosto, nos gestos e na voz, ante a presença do governador da província e sua comitiva. A comunidade local é constituída, maioritariamente, por antigos guerrilheiros da UNITA.
"Nunca pensámos que o Estado angolano nos oferecesse uma escola como esta", disse um dos habitantes, que não cabia em si de contentamento.
A presença da autoridade máxima da província do Kuando-Kubango foi aproveitada pelos representantes locais para avançar com solicitações da população. "Pedimos que o governo nos construa aqui um centro médico, furos de água e posto de registo e identificação civil".
A resposta veio de imediato. "Viemos não só inaugurar a escola, como inteirarmo-nos dos vossos problemas sociais e económicos. Brevemente terão hospital e mais escolas", prometeu o governador.     

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