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Governo nega existência de sobas falsos na Lunda

Isidoro Samutula | Dundo

O administrador municipal do Chitato, na Lunda-Norte, Alberto Muquendi, desmentiu a existência de núcleos de autoridades tradicionais indicados pela administração local do Estado.

Administrações contam com o apoio das autoridades tradicionais na resolução de problemas
Fotografia: Nilo Mateus | Edições Novembro

O desmentido surge na sequência das declarações proferidas por um grupo de autoridades tradicionais, reunidas recentemente, no Dundo, num encontro de auscultação com a corte real de Mwene Mwachissengue Wa Tembo.
O administrador da maior e mais populosa circunscrição municipal da Lunda-Norte esclareceu que a relação entre as autoridades administrativas e tradicionais tem-se pautado, fundamentalmente, na  solução dos problemas que afligem as comunidades, como a agricultura, saúde, educação, registo civil e controlo da imigração ilegal.
Alberto Muquendi disse não fazer sentido que autoridades administrativas se envolvam em questões ligadas à transmissão do poder tradicional, por via de linhagem familiar, ou nas associações que vão surgindo no seio das autoridades tradicionais.
“Em nenhuma circunstância a Administração Municipal do Chitato indicou ou investiu uma autoridade tradicional numa localidade”, esclareceu Alberto Muquendi, para explicar que “o que acontece em algumas localidades fronteiriças é a colocação de bandeiras da República para simbolizar que o território pertence à República de Angola, em função dos limites fronteiriços com a República Democrática do Congo”. Para essas localidades, Alberto Muquendi justificou a necessidade de indicar uma personalidade, entre os habitantes do bairro, como coordenador, para facilitar o controlo, a organização e a comunicação entre as comunidades e a Administração Municipal.
“Isto não significa que a Administração esteja a instituir sobas”, defendeu, para citar como exemplo, a nível do município do Chitato, o bairro do Cabunda, que pertence ao sobado Cambinza, e o bairro Catxiena, do sobado Calumbia.  O administrador do município sede da província da Lunda-Norte referiu que a existência de várias associações representativas das autoridades tradicionais cria, de alguma forma, conflitos de interesse e divisões no seio dos seus filiados. />Uma outra entidade que também reagiu negativamente à recente declaração de um grupo de autoridades tradicionais é a administradora municipal do Lóvua, Domingas Zeferino.
Além de incentivar  a relação de cooperação com as autoridades tradicionais, sobretudo na  solução dos problemas das comunidades, disse nunca ter indicado, de forma administrativa, um soba de aldeia.
O historiador Manuel Mulaji, docente da Escola Superior Pedagógica da Lunda-Norte, considerou a guerra que devastou o país nos últimos 30 anos como um dos factores que favoreceu a usurpação do poder tradicional, por indivíduos que não pertencem à linhagem. “Durante o período de guerra, muitos sobas foram obrigados a abandonar as suas comunidades e outros perderam suas vidas”, disse, para explicar que, actualmente, esta situação influencia a perda de autoridade por parte dos antigos sobas, pelo facto de muitos não terem regressado às suas comunidades de origem.
Manuel Mulaji afirmou existir, na formulação administrativa, desde o tempo colonial, três tipos de autoridades tradicionais.
Em primeiro lugar, o historiador apontou o soba da linhagem, que é indicado pela família de origem que, geralmente na cultura Lunda-Cokwe, é o sobrinho, portanto o filho da irmã do soba. Em segundo, realçou os regedores, que foram indicados pela autoridade colonial e em terceiro lugar os sobas de sanzalas, que eram responsáveis de um bairro, cuja população se dedicava ao trabalho nas fazendas.
Actualmente, segundo o historiador, além dos sobas de linhagem e regedores, existem também os coordenadores dos bairros, que são indicados pelas autoridades administrativas locais e que muitos deles acabam por transitar para soba, devido ao maior protagonismo das suas acções nas comunidades. Mas, ressalvou que “isso não retira a existência do próprio soba da linhagem”.
Manuel Mulaji realçou o surgimento, depois de alcançada a paz, de vários bairros ao longo das estradas que antigamente não existiam.

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