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Abate de árvores piora no Huambo

Adolfo Mundombe| Huambo

A província do Huambo está, aos poucos, a perder as suas matas, devido ao abate indiscriminado de árvores por parte dos produtores de carvão.

Queima de árvores para fabrico de carvão
Fotografia: Adolfo Mundombe

 
A província do Huambo está, aos poucos, a perder as suas matas, devido ao abate indiscriminado de árvores por parte dos produtores de carvão. O responsável do Instituto de Desenvolvimento Florestal (IDF) do Huambo, Andrade Moreira Bahu, está preocupado com a situação, e disse que as zonas periféricas da cidade e as principais florestas estão a ser devastadas.
 “A exploração de carvão para comércio, feita na sua maioria por cidadãos que vivem no meio rural, está a criar desertificação. Os carvoeiros intensificaram a actividade e até trocam o trabalho de campo pela extracção de carvão”, lamentou Andrade Moreira Bahu.
Quem viaja pela província nota logo as clareiras nas matas e os fornos que servem para a produção de carvão. A direcção do Instituto de Desenvolvimento Florestal diz que estão identificadas as áreas de exploração, mas está com dificuldades para descobrir os verdadeiros exploradores.
 “É difícil descobrir os proprietários dos inúmeros fornos espalhados pelas matas, porque o abate de árvores é feito por camponeses que vivem nas aldeias. Muitos vendem as árvores aos produtores e quando aparece um fiscal, dizem que estão apenas a cortá-las para abrir lavras,” realçou Andrade Moreira Bahu.
O responsável do Instituto de Desenvolvimento Florestal garantiu que “na província não existem empresas licenciadas para exploração de carvão, há apenas comerciantes que patrocinam a extracção e fazem o comércio de forma legal”.
 
 Exploração e comercialização
 
Ernesto Vitangui, carvoeiro e especialista em construção de fornos, disse que para a exploração de carvão é preciso saber: “primeiro cortam-se as árvores, umas 50 ou mais, faz-se arrumação dos troncos cortados, enterramos o forno, põe-se fogo e depois de três ou mais dias, dependendo da quantidade de árvores derrubadas, temos o carvão”. Em seguida é desenterrado o carvão, selecciona-se o produto já transformado, ensaca-se e está pronto para o comércio.
“Sabemos que fazer carvão provoca problemas ao Ambiente, mas por falta de outras condições de sobrevivência recorremos a este negócio e aproveitamos para alargar as lavras”, reconheceu Ernesto Vitangui.
Margarida Eyala, vendedora há mais de três anos no mercado informal da Canata, na cidade do Huambo, disse à reportagem do Jornal de Angola que “com muito sacrifício e dedicação consigo tirar alguns lucros para o sustento dos meus quatro filhos”.
As revendedoras compram o saco de carvão de 50 quilos ao preço de 700 a 800 kwanzas, para retalhar em embalagens ao preço de 50 kwanzas.
“Levanto-me da cama muito cedo, esperando os que trazem carvão em sacos e “caulamos”, para revender a retalho, em embalagens, ao preço de 50 kwanzas”, disse.
 Filipe António Kwenye, morador na aldeia da Tchitatamela, onde a produção de carvão é a principal actividade, disse que muitos preferem vender o carvão aos clientes provenientes de Luanda, que chegam a levar camiões cheios e a preços mais altos.
“Nós vendemos a comerciantes de Luanda que por vezes para conseguir uma quantidade de pelo menos de dez sacos ficam à espera quase um mês inteiro. Eles compram para revender”, referiu Filipe António Kwenye.
 
Apelos à população
 
Há pouca informação nas zonas rurais, muitos carvoeiros não sabem as consequências que os seus actos podem causar à natureza. A reportagem do Jornal de Angola constatou que a maioria dos produtores de carvão não conhece as consequências do derrube de árvores e das queimadas.
 O camponês e explorador de carvão Eugénio José Luís reconheceu que anteriormente havia muita floresta densa, mas agora por causa do abate das árvores desapareceram as matas. A bióloga e professora Rosa Nanguendjo Rufino aconselhou à prática da agricultura racional na província, cuidar e preservar os solos. “As árvores dão fertilidade aos solos, através de folhas que caem, servindo de adubos naturais”, sublinhou.
 O agricultor Pedro Sassoma apelou a um maior rigor dos sobas e das administrações municipais e comunais, informando a população sobre o que deve evitar durante a extracção de carvão, para a preservação do ambiente.
“É necessário proteger as árvores, acabando com o seu abate indiscriminado”, defende o agricultor Pedro Sassoma.
Ventura Muhongo, residente na aldeia Luvili, carvoeiro há sete anos, disse que a sua actividade é indispensável à sua sobrevivência, enquanto aguarda pela época das colheitas.
 “Como não podemos deixar nada a perder, aproveitamos as árvores para transformá-las em carvão e aumentar a extensão das lavras”, realçou Ventura Muhongo.
Para este agricultor, as questões de sobrevivência sobrepõem-se aos problemas ambientais, argumentando que a fome é negra e quando aperta às vezes obriga as pessoas mais racionais a agir de forma ir racional.
A direcção do Instituto do Desenvolvimento Florestal pede maior envolvimento da sociedade no combate ao abate anárquico de árvores na província.

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